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CUIABÁ

Antes Arte do Nunca

ESSE FIM DE SEMANA É DE VERA E ZULEICA – A dupla Vera e Zuleica participa, neste final de semana, do espetáculo do Flor Ribeirinha, "Nandaia", no teatro da Assembleia. Sem dúvida nenhuma, grandes noitadas para a cultura regional

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Antes Arte do Nunca

Vera e Zuleica, as grandes damas do Rasqueado

Vera e Zuleica, as grandes damas do Rasqueado, em registro fotográfico de Lorival Fernandes/DC


PERSONALIDADES
Este fim de semana é de Vera e Zuleica
A dupla de cantoras e compositoras se apresenta em meio à festa  bem cuiabana que o grupo Flor Ribeirinha comanda no Teatro do Cerrado
 
BEATRIZ SATURNINO
DC ILUSTRADO – DIÁRIO DE CUIABÁ
Uma é carioca da gema e a outra cuiabana, e juntas formam a expressão da cultura mato-grossense com o rasqueado cuiabano, se apresentando como Vera e Zuleica, do eterno grupo Sarã. Aprendizes, religiosas, vegetarianas e alegres, elas já dedicaram mais de 30 anos à resistência da multiculturalidade. Há pouco mais de um ano sem subir nos palcos, a dupla se apresenta até domingo (28), às 20h, no Teatro Zulmira Canavarros da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, como ativas participantes do espetáculo “Nandaia”, do Grupo Flor Ribeirinha.
“O show é um investimento para a construção de cultura regional”, convida a carioca Vera Regina Magalhães Baggetti que, na expressão popular, “comeu cabeça de pacu” e aqui por Cuiabá ficou, apaixonada pela cultura mato-grossense.
Muitos as conhecem, porém nem todos sabem de suas vidas e trajetórias. A começar por Vera, que nasceu no Hospital da Aeronáutica da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde o pai trabalhava.
A mãe ainda continua no Leblon, mas Vera viveu mesmo em Jacarepaguá e em Madureira. Botafoguense, faz questão de dizer que é anti-flamenguista e Portela roxa. Em sua bagagem, além de compositora e cantora, é arquiteta e urbanista, mestra em Educação Patrimonial, professora universitária, artista plástica e amante da culinária vegetariana.
Pontos em comum vivem Vera com Zuleica, que também pinta, é professora universitária, ainda arte-educadora, bacharel em Direito, com duas pós-graduações em Gestão Cultural e de Metodologia do Ensino da Arte.
Zuleica Cunha de Arruda nasceu na calorosa rua Joaquim Murtinho, em Cuiabá, onde viveu até seus 18 anos  e depois saiu para se casar, separou e tem um filho adotivo. O pai, Manoel José de Arruda, foi prefeito da capital, e foi consagrado com o nome da avenida conhecida como Beira Rio.
A cuiabana se define como uma aprendiz na vida, tomando consciência das leis divina, “sempre tendo no coração um profundo agradecimento a Deus”.  É flexível como o balanço de uma rede cuiabana, num contrabalanço com a personalidade também alegre de Vera. “Mas não pisa no meu calo”, diz Vera com riso solto.
A composição na vida delas não tem fim. “Mamãe diz que até se um ladrão passar por aqui dá música”, eleva o riso, animada com o momento que vive, com a participação do espetáculo em prol ao Flor Ribeirinha, neste final de semana, com cachê doado.
A temática das músicas é a realidade que vivemos, de amor e carinho por Cuiabá, Mato Grosso e pela Cultura brasileira. O que mostra que elas são da arte e não precisam fazer manutenção da carreira, que já flui naturalmente.
Para elas a criação vem num estouro de emoção, que brota de repente. É um insight e não tem lugar  determinado. E lembram da música “A Criação”, de João Nogueira, e cantam parte do refrão do samba assim: “Ela é uma luz que chega de repente/ Com a rapidez de uma estrela cadente/ E acende a mente e o coração.”
Vera e Zuleica são as criadoras das conhecidas músicas “Moreninha Cuiabana”, “Prece ao Luar”, “Casa de Bem Bem”, dentre outras. Em toda a história de trabalho somam mais de 300 composições, sendo a maioria de Zuleica.
Na demarcação de suas criações existem dois tipos de criação. Uma é cartesiana, que é o briefing, um material intelectual como fizeram para a campanha política do falecido Dante de Oliveira.  Já a outra é de maneira emocional e afetiva.
A última gravação de CD foi em 2007 e tem no currículo dois, o “Só Rasqueado Cuiabano” e o outro é o “Em Cantos de Mulher”, inspirado pela promulgação da Constituição Cidadã de 1988.
Mas antes disso gravaram um LP (long Play), “Raízes de Sarã”, que foi responsável pela ida delas até a Europa, onde moraram por quase três anos, a convite de um maestro austríaco que ficou encantado com o trabalho artísticos das duas entusiasmadas parceiras.
O maestro ouviu a voz da dupla num encontro de música em Brasília, por intermédio de um amigo delas, que apresentou o material, e o convite foi feito em visita até Cuiabá. Por lá tiveram a oportunidade de aperfeiçoar a arte da linguagem musical de todos os países, na terra que representa a música, na Áustria, onde desenvolveram e exploraram as músicas indígena, afro e o rasqueado, com o grupo “Sarã Cabloco Jazz”.
Também fizeram samba com rasqueado com o grupo “Rot-Weis-Rot”, que significa, “Vermelho, Branco e Vermelho”, que são as cores da bandeira austríaca.
Depois desse bombardeio de informações e experiências retornam ao Brasil, para continuar a carreira e ficarem próximas de família e amigos, e selam uma grande parceria e amizade com o saudoso sambista Joãozinho Trinta, num encontro em Cuiabá, e que resultou numa consultoria de 20 anos, até a morte desse grande artista do carnaval carioca.
Foi apresentada a ele a história de Tereza de Benguela, uma rainha negra de um Quilombo entre as regiões dos municípios de Comodro e Vila Bela da Santíssima Trindade, e que virou enredo da escola de samba Viradouro, do Rio, no Carnaval de 94.
“Foi através de suas informações que tomei conhecimento das riquezas culturais deste lugar: o cururu, o siriri, a dança do congo, o licor de pequi, suas histórias, seus ‘causos’, mitos e lendas. Fiquei sabendo sobre a importância, no contexto sociocultural mato-grossense, da tão querida viola-de-cocho, símbolo carregado de tanta energia milenar – hoje com a cara de Mato Grosso. E o que me deixou inebriado foi a cadência do ritmo musical rasqueado cuiabano. Vera-Zuleika são experts no assunto”, descreve Joãozinho Trinta no  livro “O que é o Rasqueado Cuiabano”, de Zuleica Arruda.
 
 
 
PEQUENO PERFIL CULTURAL
MÚSICA: É a nossa paixão, quase uma religião
UM LAZER: Um spá vegetariano maravilhoso, com muita música e artes plásticas
UM ARTISTA: Joãozinho Trinta, um dos maiores pensadores brasileiros
RELIGIÃO : É o amor na sua plenitude
O QUE MUDARIAM EM CUIABÁ: Uma cidade sem violência, onde a gente pudesse conviver mais humanamente, com desenvolvimento sustentável para todos. Tendo como prioridade a Cultura
DEFINIÇÃO DE CULTURA: Nos identificamos muito com o conceito do pensador contemporâneo Geertz  – “Cultura é uma teia de significados, feita pelo homem”
 
as cantora vera e zuleika (17)
 
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LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

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Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

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Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

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Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

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