(65) 99638-6107

CUIABÁ

Antes Arte do Nunca

Luciene Carvalho hoje será imortalizada. Aos 50 anos de idade, a poeta do bairro do Porto é motivo para grande festa cultural, nesta quinta, na Academia Mato-grossense de Letras

Publicados

Antes Arte do Nunca

Luciene Carvalho, em foto de Luiz Marchetti

Luciene Carvalho, em foto de Luiz Marchetti


CASA BARÃO
Luciene Carvalho hoje será imortalizada
Aos 50 anos de idade, a poeta do bairro do Porto é motivo para grande festa cultural, nesta quinta, na Academia Mato-grossense de Letras
 
BEATRIZ SATURNINO
Da Reportagem
“Eu me seguro em minha palavra”. Assim a poeta, contista e cronista Luciene Carvalho pede licença para entrar na Academia Mato-grossense de Letras , onde toma posse e passa a ocupar a cadeira de número 31, a partir da noite deste dia 13 de agosto de 2015. Às 19h30 a primeira mulher negra e uma da poucas “baronesas” da Casa segue ao marco de imortalizar sua obra, num canto de amor à Cuiabá, seus chitões, linguajar, sabores e cores. Corumbaense, nascida no fundo do Pantanal, e cuiabana por adoção, ela é produto absolutamente do quintal cuiabano, do bairro Porto, onde mora e festeja na Casa Barão com a mesma peculiaridade.
“Eu acredito que a Casa fez um esforço de renovação quando escolheu o meu nome, pois se preocupa com a posterioridade. Aquilo que não se renova morre. O que posso falar é que estou escolhendo este caminho não pelo louro do título, mas por ser o lugar o único que se preocupa efetivamente com as Letras mato-grossenses. É um momento onde me rendo por completo”, sintetiza a futura imortal.
Ela leva pão poético com sua voz e seu corpo. Mais que uma declamadora de poesias, Luciene Carvalho acredita na força do olhar lírico. É uma mulher que gosta muito de banana, com carne picada, que escreve por necessidade primária, que tem um muso e sonha de viver poesia.
Luciene Josefa de Carvalho tem 50 anos de idade, um pai baiano, coragem para amar, busca pelo inédito, um amor imenso por esta terra de “tchapa e cruz”, que lhe acolheu desde 1974, e por lei tem título de cidadã cuiabana desde 7 de abril de 2008.
Filha da saudosa livramentense (do município de Nossa Senhora do Livramento) de Cuiabá, como descreve Luciene a naturalidade de sua mãe Maria Benigna Conceição Carvalho, que partiu há poucos meses de seu quintal e da vida, com o pai Basílio Sales de Carvalho, é única filha entre cinco irmãos.
Quem conhece a casa de Luciene Carvalho, em sua riqueza de simplicidade irá reconhecer o ambiente em cenário produzido na varanda da Casa Barão, daquele quintal que só se encontra no Porto, com a originalidade intocada de mais de 70 anos.
Também terá um toque de sofisticação pelo som instrumental, cuja trilha musical não poderia ser melhor escolhida, na atribuição de um dos maiores músicos e instrumentistas de Mato Grosso, o contrabaixista Ebinho Cardoso.
Estão colaborando para o cenário Creuza Medeiros, com o viveiro “Verde que Te Quero Verde”. Artistas da cuiabania também irão contribuir na parte interna da Casa, como os atores Vital Siqueira e Maurício Ricardo, e o cantor Gabriel.
Ao voltar novamente o olhar para Luciene há de contar que ela tem influência de toda a música popular brasileira dos anos 70 e 80, de Roberto Carlos, Chico Buarque, Caetano Veloso, Marina Lima, Djavan até Cazuza.
Bipolar nas horas vagas, os traços de sua personalidade é de acreditar que tem asas, não só para voar, mas para colocar um monte de gente embaixo delas.
Acreditando nesta força ela propõe para a Academia  a atitude de aprendizado, de lapidação, com a contribuição daquilo que a declamadora tem de efetivo, a habilidade de criar plateias, pois para ela declamar é “emocionalizar a palavra”.
“É dito que o brasileiro não gosta de ler, não consome a poesia como produto. Mas não é a verdade que vejo nos shows que faço”, contesta.
A poeta já percorreu todo o Mato Grosso em uma vida dedicada à declamação, que é mais que poesia, pois começou declamando e depois veio a escrita. Conta que foi aos dois anos e meio de idade que estreou, em Corumbá (MS), onde declamou um pequeno trecho do poema chamado “As Pretinhas da Guiné”, de autor emblemático desconhecido.
E foi bem além. Partiu para São Paulo, na “Casa das Rosas”, de difusão poética e de articulação da cultura, na envolvente avenida Paulista, em 22 de junho de 2007. Também foi ao Chile, país em que desembarcou por duas vezes levando sua arte, em novembro de 2006 e maio de 2008.
Além disso, a difusão e pesquisa de seu trabalho foi resultado para todo o Brasil. Mario Cesar Leite apresentou um trabalho sobre a obra poética de Luciene Carvalho em Londres, em 2014.
Quando se fala em políticas públicas ela descreve como a ocorrência de um hiato muito grande com relação à Cultura Estadual.  “Eu ainda sonho com uma política pública de ação continuada, que colabore na construção de mercado literário, para que o escritor possa viver de seu trabalho. Que se compreenda a necessidade de uma cadeia produtiva contínua. É urgente que se reconheça as Letras no Mato Grosso. São tantos Manoéis de Barros, e cada Ivens, e cada Lucinda Persona, e cada Aclyse Mattos. É um sonho, reticências”, enfatiza.
No momento já tem dois livros prontos à espera de publicação, mas antes de tudo pretende produzir e lançar um primeiro CD de poesias declamadas.
Luciene Carvalho ocupa a cadeira de número 31, que tem por patrono José Delfino da Silva. O último acadêmico que ocupou a posição foi Adauto Dias de Alencar, falecido em 16 de outubro de 2013.
 
 
 
PEQUENO PERFIL CULTURAL
UM LIVRO: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Eu sou machadiana
UMA RECORDAÇÃO: Minha mãe
UMA MÚSICA: Cajuína, de Caetano Veloso
UM LUGAR: O quintal dos meus avós, onde eu moro
O QUE NÃO GOSTA EM CUIABÁ: A ausência de políticas públicas continuadas para a Literatura
UM POETA: Cuidado com o que vou falar agora. Vai gerar polêmica: Mano Brow, do Racionais Mc’s, que revolucionou o conceito contemporâneo de poesia, e Manoel de Barros, para sempre
UM MEDO: De não tentar
UMA ADMIRAÇÃO: Maria Carrión Tereza Carracedo e Ivens Scaff

COMENTE ABAIXO:
Leia Também:  GRANDE, COMO ELE ERA GRANDE: Ator Nelson Xavier morre aos 75 anos. "Ele virou um planeta! Estrela ela já era", disse a filha Tereza

Propaganda
1 comentário

1 comentário

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe uma resposta

A verdade vos libertará

LEANDRO KARNAL: Livro é um presente permanente. Ler é esperança, sempre

Publicados

em

Por

Karnal

Uma ponte de livros

Por Leandro Karnal

Sim! Você sobreviveu até a penúltima semana de 2020. Parabéns! Eu sei que os pessimistas estão dizendo: ainda faltam vários dias. É verdade. Seria tão injusto falhar agora! Viemos nadando com desafios desde março. A outra margem do rio está tão próxima. Sejamos otimistas: chegaremos todos a 2021.

Há uma possível pausa pela frente. Em algum momento você terá um pouco mais de folga. Chegou a hora de pensar estrategicamente: livros. Por quê? Não sei o que nos aguarda no ano próximo e novo. Sei que ele será mais bem vivido se houver mais pensamentos, maior conhecimento, mais informações. Atrás de sugestões para ter ou presentear? Farei algumas. Lembre-se sempre: um livro é um presente permanente que pode mudar a cabeça do agraciado.

Literatura? É o ano do centenário de nascimento de Clarice Lispector. A editora Rocco lançou um volume alentado e lindo com Todas as Cartas. É a correspondência da nossa maior escritora em um tomo que “fica sozinho em pé”. A leitura me trouxe um enorme prazer. Se o gênero correspondência não faz sua cabeça, mergulhe nos volumes da mesma editora com várias obras de Clarice: A Maçã no Escuro, A Legião Estrangeira, Onde Estivestes de Noite, O Lustre, Perto do Coração Selvagem, Felicidade Clandestina e A Bela e a Fera. São apenas alguns dos títulos lindos, com capas sedutoras e textos que vão alterar seu mundo.

Quer reencontrar outros clássicos? A Cia das Letras lançou Ressurreição, de L. Tolstoi. A luta de um nobre para reparar um erro grave do passado é o eixo daquele que, para mim, é uma das melhores obras do russo genial. Se Tolstoi o atrai, a editora Todavia reuniu 4 obras dele (Felicidade Conjugal, A Morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer e Padre Siérgui) em um único volume.

Você sobreviveu a uma das mais transformadoras epidemias na história. Que tal ler A História das Epidemias, de Stefan Cunha Ujvari? Saiu pela editora Contexto. Aprende-se muito com o livro, bem escrito e solidamente pesquisado. Prefere o terreno argiloso da política e da sociedade? A pesquisa de Bruno Paes Manso resultou no necessário A República das Milícias. O livro proporciona análises indispensáveis e medos incontornáveis.

Leia Também:  Por que vemos cada vez mais sexo nas séries americanas? "Orange Is the New Black", do Netflix, resgatou cenas de sexo entre mulheres que até então só se via em filmes pornográficos. "Game of Thrones", da HBO, levou ao ar cenas de sexo de uma maneira jamais vista na TV americana: incesto, sexo oral, orgias, bordeis, seios, seios e mais seios. A nova safra de seriados pode ser a prova do velho conceito de que sexo vende

Você prefere algo que o anime? Pedro Salomão lançou o Valor Presente – A Estranha Capacidade de Vivermos um Dia de Cada Vez pela Best Business. Tive o privilégio de fazer o prefácio. Na mesma linha, uma coletânea com textos exemplares de Mario Sergio Cortella: Sabedorias para Partilhar, da Vozes/Nobilis.

Quer discutir amor e casamento? Não perca Amor na Vitrine – Um Olhar Sobre as Relações Amorosas Contemporâneas, de Regina Navarro Lins. A psicanalista vai mexer com suas convicções tradicionalistas e desafiar seus censores invisíveis.

Eduardo Giannetti sempre faz pensar. Li com avidez O Anel de Giges, da Cia das Letras. Tomando a lenda platônica do anel que produz invisibilidade, o que restaria da ética? Um homem invisível precisa se manter com boas regras morais ou vai acabar se entregando a seus desejos e caprichos menos nobres de espírito? Foi a leitura que mais me provocou inquietações no ano de 2020. É genial a capacidade de Gianetti de combinar densidade com linguagem leve.

Você ou o seu amigo-secreto amam viajar? Guilherme Canever lançou dois tomos pela Pulp: Destinos Invisíveis – Uma Nova Aventura pela África e Uma Viagem Pelos Países Que Não Existem. Livros densamente ilustrados, com um olhar agudo para lugares inusitados.

A Autêntica vai fundo na alma humana ao lançar uma nova edição do Além do Princípio do Prazer. O livro chegou ao centenário agora e a cuidadosa tradução de Maria Rita Salzano Moraes ajuda a valorizar a obra fundamental do dr. Freud.

Foi um ano estressante, reconheçamos. Talvez seja hora de pensar em um texto sobre ansiedade e o desafio da saúde mental. O dr. Leandro Teles, pela editora Alaúde, lançou Os Novos Desafios do Cérebro – Tudo o Que Você Precisa Saber Para Cuidar da Saúde Mental nos Tempos Modernos. Acho que a grande meta de 2021 é o desafio do equilíbrio. O livro do dr. Teles ajuda muito.

Leia Também:  FLÁVIO FERREIRA: “CPF da Cultura” é grande conquista

Você ama narrativas biográficas? A obra de Adam Zamoyski (Napoleão – O Homem Por Trás do Mito – ed. Crítica) prenderá sua atenção do início ao fim. O imperador raramente encontrou um biógrafo tão denso e sem lados definidos: sem o sempre esperado “monstro corso” (contra) ou gênio militar e político (a favor). Continua interessado em narrativas biográficas e domina inglês? Hildegard of Bingen – The Woman of Her Age, de Fiona Maddocks (Image Books), foi uma descoberta muito feliz. A entrevista final com a Sister Ancilla no mesmo mosteiro onde morou a santa medieval é um recurso muito interessante para iluminar a tradição da grande doutora da Igreja.

Anseia explorar uma área nem sempre devidamente destacada? Aventure-se pela obra A Razão Africana – Breve História do Pensamento Africano Contemporâneo (Muryatan S. Barbosa – Todavia). O Racismo Estrutural, obra crítica de Silvio de Almeida (editora Jandaíra), ajuda em um tema que foi destaque em 2020. Na mesma coleção, a coordenadora da série, Djamila Ribeiro, tem texto indispensável: Lugar de Fala. Você se preocupa com o universo feminino e suas muitas abordagens? Mary del Priore escreveu Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000 (editora Planeta). 2021 demandará consciência social. Prepare-se!

Muitos e bons livros para todos os gostos. Ler dá perspectiva, vocabulário, ideias e companhia. Um bom texto aumenta seu mundo e o faz sair do senso comum. Embeber-se em histórias é viver de forma ampla. Já é um bom projeto para 2021. Ler é esperança, sempre.

Leandro Karnal é historiador e escritor, autor de ‘O dilema do porco-espinho’, entre outros. Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S Paulo

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

MATO GROSSO

POLÍCIA

Economia

BRASIL

MAIS LIDAS DA SEMANA