ADVOGADO SEBASTIÃO CARLOS: Certa ocasião Lula, copiando Raul Seixas, se autodefiniu como uma “metamorfose ambulante”. Perfeito. O PT alcançou o tão sonhado paraíso do poder. De imediato o metamorfoseamento teve inicio. Cresceu, expandiu e tornou irreconhecível o partido, o líder e grande parte de seus acólitos. O lulopetismo passou a exemplificar o mais lamentável e vergonhoso elogio da hipocrisia e da incoerência no exercício da vida publica

Sebastião Carlos

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Coerência zero ….

Sebastião Carlos

– “Foram dezenas de passeatas e atos públicos que deixaram clara a determinação de lutar por um Brasil mais justo e mais ético. Voltar às costas para essa realidade é o mesmo que deixar que a história escape por entre os dedos”.

– “Um presidente expor uma medida provisória à equipe de um dos candidatos a sua sucessão é caso de impeachment”.

– “O impeachment não se faz na Câmara e Senado. Ele acontece na sociedade”.

Não resta duvida que são frases graves e contundentes. Foram pronunciadas por oposicionistas aguerridos que, de toda maneira, querem o impedimento do chefe do poder Executivo. Leia-as novamente e facilmente se perceberá que nelas existe um enfático apelo para a força do povo. Mais do que argumentos de ordem jurídica, no entender dessas lideranças a vontade popular, manifestada nas crescentes passeatas e em inúmeras pesquisas de opinião, é fundamento bastante para se apear do poder o presidente da República. Por estas palavras há um estimulo ao quase amotinamento popular.

Mas, afinal, quem são os combativos autores de tais frases? O leitor não os encontrará entre os personagens que atualmente mais estão em evidencia no debate em torno do impeachment de Dilma. Acontece que as frases e os seus autores são de um tempo em que propor o impeachment do presidente não era considerado ser golpista.

A primeira está num discurso pronunciado no plenário da Câmara dos Deputados, no dia 29 de setembro de 1992, uma terça-feira, pelo então deputado do PT de SP Aloizio Mercadante, atual Ministro da Educação. “Voltar às costas para as dezenas de passeatas e atos públicos, é o mesmo que deixar que a história escape por entre os dedos” – perorava. Ele defendia o processo de impeachment contra o Collor, cuja aprovação do pedido ocorreria no dia seguinte.

A segunda, foi de um deputado do PT da Bahia que, por coincidência, é hoje o chefe de gabinete especial de Dilma. Em junho de 1994, Jaques Wagner apresentava pedido de impeachment contra Itamar Franco. Independentemente de qual seja a posição de quem me lê, se percebe que o motivo desse pedido é insignificante se comparado aos que hoje embasam o processo contra Dilma. É que o presidente mostrara a Fernando Henrique Cardoso, seu ex-ministro e candidato à Presidência, as medidas econômicas que seriam anunciadas nas semanas seguintes. Isto foi o suficiente para o PT considerar como gravíssima falta de decoro e, portanto, no dizer de Wagner, ser “caso de impeachment”. Para o partido essa “grave” falta era já suficiente para a destituição do presidente.

A terceira frase foi dita no programa Roda Viva, da TV Cultura de SP, também em junho de 1992. O entrevistado era o deputado federal José Dirceu, defendendo o impeachment de Collor. Ele, que depois de Lula era a figura mais importante do PT, não parecia preocupado nem com os fundamentos jurídicos do pedido, tampouco com os 2/3 de votos necessários no Congresso. Bastava a voz das ruas. O impeachment para o poderoso líder petista “acontece na sociedade”.

Vale lembrar que nessa mesma ocasião, aí por meados de junho de 1992, Lula, em companhia de Mercadante, que seria o seu vice dois anos depois, reuniu-se, num encontro registrado em foto, com Roberto Marinho, o todo poderoso presidente das Organizações Globo, para pedir-lhe o apoio na campanha do impeachment. Por esses dias, Mercadante havia publicado artigo defendendo a importância da participação dos meios de comunicação de massa para o afastamento de Collor.

A realidade é que desde Collor, passando por Itamar Franco, até FHC foram apresentados cerca de 50 pedidos de abertura de processos de impeachment. Todos apoiados e estimulados pelo PT. Só contra FHC foram 14, dos quais 13 no seu segundo mandato. Em todos esses momentos o PT teve papel de relevo.

Pouco depois da segunda posse de Fernando Henrique, o PT deflagrou movimento nacional sob o lema de “Fora FHC”. Neste caso não era impeachment era deposição mesmo já que sequer existia pedido formal de impedimento. A canhestra tentativa, pelo absurdo, logo se frustrou. Em todos esses episódios assistiu-se a clara pretensão do partido de Lula em querer alcançar o poder por vias transversas. E isto não se configurava claramente como uma tentativa golpista?

Neste contexto, de negar a tudo e a todos, como o objetivo de firmar-se como partido diferenciado da “podridão” reinante, e alternativa de poder, o PT não votou em Tancredo no Colégio Eleitoral, se recusou a assinar a Constituição de 88, combateu o Plano Real, foi contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, apresentou inúmeros pedidos de impeachment contra todos os presidentes antes de Lula. Ao mesmo tempo, tal como Catão modernos, os petistas eram os mais destacados e aguerridos denunciadores dos mal feitos e da corrupção, vendo-a, por vezes, até mesmo aonde ela não existia.

Certa ocasião Lula, copiando Raul Seixas, se autodefiniu como uma “metamorfose ambulante”. Perfeito. O PT alcançou o tão sonhado paraíso do poder. De imediato o metamorfoseamento teve inicio. Cresceu, expandiu e tornou irreconhecível o partido, o líder e grande parte de seus acólitos. O lulopetismo passou a exemplificar o mais lamentável e vergonhoso elogio da hipocrisia e da incoerência no exercício da vida publica. Não que tais “virtudes” políticas não existissem antes da era PT. Antes havia certo pudor em se autodesmentir com tanta rapidez e constância. No poder, eles as transformaram em bíblia a ser seguida como instrumento do governo e exigência da vida política. Hoje a coisa está às claras. A política passou a ser sinônimo da mentira. A bandeira da ética e da moralidade erguida pelo PT, e que foi a grande condutora dos anseios e das esperanças do país, está de há muito rota, desbotada.

O que resta então?

A negociação mais rasteira e brutal para manter o mandato da presidente. Não somente os ministérios, mas cargos em todos os escalões administrativos estão despudoradamente sendo oferecidos por votos de deputados. Isto não é uma compra? Usar o bem público em beneficio próprio não é corrupção? E a coisa chegou a tal ponto que um respeitado e querido aliado do PT, o deputado Paulo Maluf, sim, ele mesmo, declarou no ultimo dia 5 que votaria a favor do impeachment porque não aguentava mais assistir a tanta corrupção. Literalmente disse: “O governo está se metendo num processo de compra e venda que é detestável“. Veja só quem afirma isso. Se não fosse trágico, daria para rir. Mas este é o ponto a que chegamos.

A verdade é uma única: “nunca antes na história deste país” um partido, um grupo social, um governo protagonizou tanta hipocrisia e tanta incoerência.

Churchill, este sim um grande político, escreveu que “Não há mal nenhum em mudar de opinião. Contanto que seja para melhor”.

Desgraçadamente, este não foi o caso que aconteceu com o partido e o líder ora no poder. Mudamos, em tudo, para pior. Pobre Brasil. [continua].

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e professor.

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