Advogado Paulo Lemos faz elogio à hipocrisia e recomenda “Elogio à Loucura’, de Erasmo de Roterdã

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Erasmo de Roterdã

Elogio à hipocrisia

Por Paulo Lemos

Sinceramente, depois de alcançada minha maioridade, responsabilidade civil, política e penal, só aceitaria receber lições de bons modos de uma única pessoa, sendo que, segundo a tradição judaico-cristã, ela já nasceu, morreu, ressuscitou e voltou para o Céu: Jesus. Com relação aos demais, quanto mais moralistas e justiceiros, mais eu desconfio.

Não faço aqui nenhum elogio ou apologia à corrupção. Longe disso. Porém, não creio ser a hipocrisia seu antídoto. O critério da verdade é a prática, não a fala. E a hipocrisia é a rainha absoluta da pseudo-moralidade dos falsos moralistas, que pregam “bons costumes”, porém não realizam a moral que defendem no seu dia-a-dia.

Vejamos o exemplo recente da moça que pagou R$ 170.000,00 (cento e setenta mil reais) para fraudar o ENEM. O exemplo dela é apenas mais um dentre tantos outros que foram descobertos, de pessoas que bradavam contra a corrupção no facebook e defendiam o impeachment da presidente Dilma, num dia, e logo depois foram flagrados praticando atos de corrupção, no outro dia.

É como se o comando fosse: “faça o que digo, porém não o que eu faço”. Triste sina da hipocrisia.

Esse descompasso também pode ser aferido em comportamentos coletivos, não somente nos individuais homogêneos.

Perceba que a diferença de postura entre os candidatos e grupos políticos derrotados nos EUA e no Brasil, nas últimas eleições, foi tremenda.

Lá, imediatamente após o resultado, dando Trump como vitorioso, por mais que isso tenha sido para muitos espantoso, tanto Hillary quanto Obama mantiveram uma compostura democrática e republicana, e desejaram tudo de bom para o candidato eleito, aparentemente, sem segundas intenções, tampouco com ares conspiratórios e golpistas.

Aqui, desde o primeiro momento, imperou a incompostura e uma atuação sistemática para desestabilizar o governo eleito democraticamente.

No dia seguinte ao da eleição, o PSDB, via Aécio, já questionava o resultado da urna eletrônica; FHC dizia que o resultado não havia convencido; Serra começava a articular o impeachment no Congresso; e Gilmar cuidava para que o Judiciário não atrapalhasse a escalada do golpe, meticulosa e despudoradamente planejado, inclusive mediante encontro marcado com o então presidente interino, Michel Temer.

Embora muitos não compreenderam ainda, ou se façam de desentendidos, o principal insumo da recessão que estamos enfrentando é a crise política fabricada pelo quarteto: políticos derrotados (sobretudo os membros do tucanato); políticos investigados (principalmente o sindicato da cúpula do PMDB de José Sarney e PP de Paulo Maluf); grandes meios de comunicação (Globo e Abril, no epicentro do golpe) e corporações de olho no pré-sal (Chevron, Shell e outras operadoras de petróleo).

Sim, não podemos esquecer dos banqueiros, que são os que mais ganharão com a fórmula defendida por Henrique Meireles na PEC 241 (55, no Senado), caso ela seja aprovada pelos congressistas desertores, ante o congelamento dos gastos sociais, para sobrar excedentes financeiros aos rentistas credores da dívida pública externa – que nunca foi auditada e que dobrou de tamanho durante os oito anos do PSDB no Governo, entre outras coisas, por uma política cambial desastrosa, para patrocinar artificialmente a moeda brasileira recém criada: o Real.

Então, na verdade, trata-se de um quinteto do desacerto, não do concerto.

Portanto, nada de novo nos trópicos, que não sejam as seculares ânsia, sanha e ganância do patronato brasileiro e do colonialismo estrangeiro, sedentos para abocanhar nossas riquezas, hodiernamente, sem sequer deixar as migalhas para o povo. A única coisa que dizem, ao tempo que desfrutam de todas as regalias do poder, é: “não tem crise, trabalhe”. É quase como o “Brasil, ame-o ou deixe-o”, do presidente Médici, à época da ditadura militar.

Por fim, para quem apesar de ter lido o presente artigo não entendeu o título “Elogio à hipocrisia”, obviamente que talhado ironicamente, vale muito a leitura do livro “Elogio à loucura”, de Erasmo de Roterdã, atual para os dias de hoje, em que pese ter sido aviado séculos atrás.

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Paulo Lemos é advogado, educador, palestrante e articulista. 

2 Comentários

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  1. - IP 177.221.96.141 - Responder

    O nobre articulista faz de conta que não enxerga o desespero do PT em impedir a lava-jato.

    Para o nobre todo mundo é culpado pela queda da incompetenta menos a própria.

  2. - IP 177.132.242.228 - Responder

    Matéria bacana: uma gota de lucidez no mar de lama midiática e da citada e onipresente hipocrisia.

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