ADVOGADO BRUNO BOAVENTURA: Os meses no cárcere fizeram com que o Impunível trocasse a obsessão em capital por liberdade. Dia após dia, perda após perda, pouco a pouco todas as esperanças cederam. Nas horas finais, era como se fosse o último grão de areia de uma ampulheta no afunilamento ao vazio

RAIOS NA PAGINA DO E

A morte do Impunível. Ato 6.
POR BRUNO BOAVENTURA

Prólogo: toda pessoa pode ser punida pelo isolamento ? Pela idealização em tornar a consciência do Tempo e do Espaço em carrasco da Lei que tortura a autocompreensão até o arrependimento ?

Os meses no cárcere fizeram com que o Impunível trocasse a obsessão em capital por liberdade. Dia após dia, perda após perda, pouco a pouco todas as esperanças cederam. Nas horas finais, era como se fosse o último grão de areia de uma ampulheta no afunilamento ao vazio.

Do lado de fora da prisão, não era mais dia. No final do horizonte, a noite ainda não se fazia por completo. Naquele momento, tudo era incerto. A indefinição era a sua própria autoimagem e lhe incomodava ao ponto de querer vê-la destruída. Aos gritos socou o espelho:

– Não sou eu mais aquele que noticiam como o Senhor das Razões da Modernidade ? Tudo era mentira então, o sistema não me tornara tão grande ao ponto de ser inimputável ? Como acreditei em tal loucura, em pleno século XXI, me fazer Rei do Estado, do Mercado e da Sociedade ?
O Sol mais posto do que vivo, na luz dos últimos de seus raios ultrapassou a grande nuvem da tempestade, venceu as grades da pequena janela e atingiu um dos pedaços do espelho ainda pendurado na fria parede da sela. Refletia a boca do Impunível quando assim disse:

– Aos que nutrem o sistema com suas veias, lhes agradeço a oportunidade da glória. A vossa indiferença foi a minha fonte, em que a sua ignorância foi o meu alimento e a ingenuidade a minha água. Tornei-me a monstruosa engrenagem que movia a fábrica de favores. Controlei os controladores, o limite era imensurável.

Visível era o sangue pingando do aperto da mão direita ferida, e a esquerda segurando um pedaço de vidro o suficiente para lhe cortar a jugular, Impunível suplica sentado na sua cama de pedra o que poderia ser a misericordiosa mensagem:

– Aos meus inimigos. Quase todos foram os que venci. De tantos os me enfrentaram, somente fui derrotado pelos que fizeram a mudança ser mais rápida dos queriam perpetuar a minha conservação. Aqueles que forçaram as instituições, transformando-as em capazes de me combater, os que perceberam o Estado como a imagem da Sociedade, a esses reconheço a minha derrota.

– Aos meus delatores. Saibam que a angústia de não entender por qual motivo me traíram tomou a minha consciência em ódio. Até aceitaria a traição se fizessem o meu sofrimento em martírio. Não é irônico que quanto mais os delatores me culpam mais se desresponsabilizam ? Quanto mais sabem no que me culpar mais não foram responsáveis comigo em minha culpa? Eu não os perdoo! O meu suicídio é a morte da chance de liberdade de vocês. Esse é o sabor da última de minhas vinganças: assim como lambuzaram-se na nossa ganância sofram comigo no desespero da punição.

Epílogo: Aquele que por uma época foi o alcunhado de Impunível teve o seu fim com um pedaço do espelho enfiado na garganta. Já na aurora da noite, o piso em sangue com alguns cacos do espelho que refletiam o teto da sela em que se lia: “não erra quem segue aplausos”. Lá fora, a tempestade havia começado, aos raios e trovões de todas as direções anunciavam um novo debate.

Obs.: O ato 6 é precedido do ato 1 – O Impunível; ato 2 – O Inapoderável; ato 3 – O debate inicial entre o Impunível e o Inapoderável; ato 4 – O debate assemblear entre o Impunível e o Inapoderável; ato 5 – A prisão de um Impunível e o removimento das massas. Todos disponíveis em: www.bboaventura.blogspot.com

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Bruno Boaventura – Advogado. Especialista em Direito Público. Mestre em Política Social pela UFMT.

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