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ADEMAR ADAMS: Quem fala que João Goulart seria um homem fraco e despreparado, desconhece a história e faz o jogo dos golpistas que tinham medo de uma reeleição dele ou de Leonel Brizola. Jango foi vice-presidente de Juscelino, eleito com mais votos que este, e depois reeleito vice de Jânio Quadros. Fora Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e deputado federal. Logo, conhecia o governo por dentro. Tinha sido um grande negociador com os sindicatos e era respeitado por ser um político de palavra

João Goulart, o Jango, presidente deposto pelo golpe militar e civil de 1964

João Goulart, o Jango, presidente deposto pelo golpe militar e civil de 1964

O Golpe de 1º de Abril

por ADEMAR ADAMS

 

Acordei naquele 1º de abril de 1964 com a maior gritaria no rádio, pois meu pai sempre ligava o seu potente Jefferson de madrugada, assim que levantava.

Não entendi muito bem o que estava acontecendo, mas quando me preparei para ir à escola, seu Natalício me disse que não haveria aula, pois, tinha “estourado a revolução” e eu deveria pegar meu petiço e ir avisar a diretora da escola, que não deveria estar sabendo da determinação das autoridades.

Cheguei à casa da diretora, que morava no prédio da escola, e passei o recado do meu pai. Ela riu me respondeu: “Mas esse compadre pensa que me engana, querer me atochar um 1º de abril logo cedo…”

Algumas professoras que vinham de outra cidade também tinham visto as pessoas acenar e gritar para elas que não haveria aula, mas elas também pensaram que era 1º de abril.

Peguei meu pingo fui indo embora meio chateado. Mas logo olhei para trás e vi a turma voltando para casa. Ah! Meu pai estava certo…

Foi assim que vi nascer a revolução de mentira, mas o golpe de verdade. Golpe na Constituição, golpe nas instituições, golpe no povo.

Ao declarar vaga a Presidência da República, no meio da madrugada, numa sessão ilegal, o senador Moura Andrade fez o papel sujo de congressista sabujo, dando fumos de legalidade ao golpe militar.

O aparato militar do presidente desmoronou com ministro da Guerra hospitalizado e com as traições, como a do seu chefe do estado maior, Castelo Branco e do comandante do IIº Exército, general Amauri Kruel, amigo e compadre de Jango.

Leonel Brizola ainda pediu a Jango que o nomeasse ministro da Justiça para ele articular a resistência civil e o general Ladário Teles para, como ministro da Guerra, organizar o aparato militar com os oficiais nacionalistas. O presidente não queria derramamento de sangue no Brasil e partiu para um longo exílio, do qual não voltou vivo e teria sido envenenado por ordem dos militares.

Quem fala que João Goulart seria um homem fraco e despreparado, desconhece a história e faz o jogo dos golpistas que tinham medo de uma reeleição dele ou a eleição de Leonel Brizola.

Jango foi vice-presidente de Juscelino, eleito com mais votos que este, e depois reeleito vice de Jânio Quadros. Fora Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e deputado federal. Logo, conhecia o governo por dentro. Tinha sido um grande negociador com os sindicatos e era respeitado por ser um político de palavra.

E é certo que se as reformas propostas por Jango e reafirmadas no comício da Central do Brasil, fossem implementadas, o povo iria querer a continuidade do governo nas mãos do PTB.

Como dizia Brizola, Jango foi retirado do governo muito mais por seus acertos que por seus erros. A elite latifundiária e os sanguessugas associados às multinacionais não queriam a continuidade de um governo popular e disposto a mudar o cruel modelo econômico concentrador de renda.

Fazendeiro e habilidoso negociador de gado, Jango era um homem muito rico, mas tomava chimarrão com os peões, conversava com os trabalhadores, conhecia a vida dos pobres. Jamais houve qualquer acusação de improbidade contra ele.

Derrubado o presidente, os milicos começaram devagar, com a fala mansa do general Castelo, garantindo as eleições de 1965. Mas foram tomando gosto, com o próprio general cearense prorrogando seu mandato por um ano. Depois acabaram com as eleições e os presidentes passaram a ser escolhidos pela cúpula militar.

De golpe em golpe, chegou-se em 1968 ao Ato Institucional nº 5, instrumento que dava ao general de plantão, mais poder que teve o imperador Pedro II.

Os líderes da oposição foram cassados, banidos ou assassinados. Os líderes populares presos, torturados e mortos. As instituições dominadas pelos piores bajuladores e alcagüetes. A imprensa censurada e comprada.

A economia fraudada em falso milagre que de um lado entregou os melhores negócios ao capital externo especulativo e de outro nos legou um dívida que até hoje suga quase metade dos recursos orçamentários da União.

E ainda tem gente que diz ter saudades dos militares, ou um cara de pau como Célio Borja, que serviu tanto à ditadura, quanto a Sarney e Collor, que veio dizer que era um governo forte, mas não ditadura.

Mas o pior legado dessa noite de 21 anos de autoritarismo são políticos e o modelo político que nos restou. Qualquer reforma que não começar pela reforma política vai fracassar, e vamos seguir até o dia que o povo na rua vai fazer a verdadeira revolução.

ademar adams

*ADEMAR ADAMS é jornalista em Cuiabá

Categorias:Nação brasileira

5 Comentários

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  1. - IP 189.59.49.57 - Responder

    Era um homem fraco ,mulherengo,sem noção do cargo e, nunca poderia permitir a quebra de hierarquia nas Forças Armadas naquele momento.Imagine hoje um presidente se reunir com sargentos da Marinha sem autorização dos comandantes, e não mandar prende-los por desacato aos chefes.Seu comportamento totalmente em desacordo com a importância do cargo ,é que levou o país para a droga da ditadura.Fugiu sozinho,sem dar um tiro e ninguém, a não ser o irresponsável do Brizola se prontificou a reagir!

    • - IP 177.147.146.188 - Responder

      Serviu o boné de ignorante Pontin?
      O fato de Kennedi ter sido mulherengo só merece elogios.
      Então presidente só pode se reunir com a elite, como o baixo clero não?
      Traído pelos militares da casa, muitos comprados pelos norte-americanos, ou como Kruel, que recebeu uma mala de dinheiro do presidente da Fiesp.,
      Acorda amigo, parede ler o PIG e se orientar por ele.

  2. - IP 177.221.96.140 - Responder

    Em 13 de março de 1964, no comício da Central do Brasil, o Presidente João Goulart, latifundiário, empresário do agronegócio, com toda a irresponsabilidade que lhe era peculiar, disse: “nós vamos fazer as reformas na lei ou na marra”, ou seja, manifestou claramente sua intenção de sair dos trilhos da Constituição e se tornar ditador, porque só ditadores governam sem respeitar a lei.

    E aí para evitar o autogolpe, os golpistas se aproveitaram e implantaram o regime militar.

    Era golpista contra golpista. De um lado e do outro se falava muito em democracia, mas pouca gente a defendeu. E aqueles poucos não tinham forças contra os militares golpistas nem contra o presidente autogolpista.

    Sim o então presidente não era um homem fraco, pelo contrário era um empresário, frio e com nervos de aço para os negócios, que soube multiplicar a fortuna paterna.

    Se estivéssemos na década de 1980, seu lugar seria a UDR, hoje o seu lugar seria no agronegócio.

    Na política foi apenas o que melhor soube aproveitar a herança getulista, mas não teve a habilidade do “velho” ditador Getúlio Vargas para se manter no poder.

  3. - IP 189.73.211.66 - Responder

    Parabéns Ademar pela análise centrada e fundada nos fatos históricos. Jango, na condição de presidente da república, jamais precisou de autorização de nenhum comando militar porque ele era o comandante supremo das tropas. O desconhecimento das leis do país leva alguns a pensarem que Jango deveria pedir permissão aos ministros da área militar.

    • - IP 177.147.146.188 - Responder

      Obrigado Bira!

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