PREFEITURA SANEAMENTO

A VOLTA DO ZÉ: Rondonópolis, campanha de 2008. Na antevéspera da eleição a polícia apreende R$ 1,2 milhão no comitê do prefeito e candidato à reeleição, Adilton Sachetti (PR). No dia da votação, Zé Carlos do Pátio (PMDB) distribui 2.538 camisetas vermelhas com a inscrição “Fiscal” ao pessoal que fiscalizaria a votação para sua coligação. Se alguém perguntar a quem não conheça o desfecho desses fatos qual dos dois políticos foi punido pelo TRE, a resposta apontará Sachetti. Mas aconteceu o contrário: Pátio se elegeu e ao término do mandato foi cassado. Agora, três anos depois, o TSE anulou sua cassação. A decisão em Brasília sai da esfera dos tribunais e ganha as ruas daquela importante cidade de MT, com a volta do Zé à disputa pela prefeitura. POR EDUARDO GOMES

ze carlos do patio na pagina do EA volta do Zé

EDUARDO GOMES
Da Editoria

Rondonópolis, campanha eleitoral de 2008. Na antevéspera da eleição a polícia apreende R$ 1,2 milhão no comitê do prefeito e candidato à reeleição, Adilton Sachetti (PR). No dia da votação o adversário de Adilton, Zé Carlos do Pátio (PMDB), distribui 2.538 camisetas vermelhas com a inscrição “Fiscal” ao pessoal que fiscalizaria a votação para sua coligação. Se alguém perguntar a quem não conheça o desfecho desses fatos qual dos dois políticos foi punido pelo TRE, a resposta apontará o republicano. Porém, aconteceu o contrário: o peemedebista se elegeu e ao término do mandato foi cassado. Três anos depois, o TSE anulou sua cassação. A decisão em Brasília sai da esfera dos tribunais e ganha as ruas daquela importante cidade mato-grossense, com a volta do Zé à disputa pela prefeitura.

Perfil
José Carlos Junqueira de Araújo, o Zé Carlos do Pátio, tem 56 anos, nasceu em Londrina (PR) e ainda criança mudou-se para Rondonópolis com sua família. É casado com Neuma de Moraes e o casal tem três filhos rondonopolitanos: Carlos Vinicius, Marcelo e Matheus Henrique. É matemático, engenheiro civil, formado em inglês, oficial R/2 do Exército e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Na política, por duas vezes foi secretário de Obras da prefeitura de Rondonópolis. Elegeu-se vereador em 1988 e se reelegeu para o cargo por duas vezes consecutivas, pelo PMDB, naquele município. Três vezes em pleitos seguidos a partir de 1998, pelo mesmo partido, conquistou mandatos de deputado estadual. Em 2008 venceu a eleição para prefeito (PMDB) e teve o mandato cassado. No ano passado, novamente se tornou deputado, mas dessa vez pelo Solidariedade e ocupa a única cadeira daquela sigla na Assembleia. O apelido: em 1983, nomeado diretor do pátio das máquinas da prefeitura pelo prefeito Carlos Bezerra, José Carlos viu seu nome engolido pela alcunha de Zé Carlos do Pátio, que nunca mais o abandonou e que se tornou sua marca.

 

Em decisão monocrática no dia 24 deste agosto, o vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, anulou a cassação do então prefeito de Rondonópolis – agora deputado estadual pelo Solidariedade – José Carlos Junqueira de Araújo, o Zé Carlos do Pátio, proferida por 5 a 1 pelo pleno do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) em 2012.

O ministro avaliou que o custo das camisetas, de R$ 20 mil – correspondente a 2,15% dos gastos de campanha de Zé Carlos do Pátio – não influenciou na escolha dos 98.750 eleitores que votaram num e noutro candidato.

Com a anulação, Zé Carlos do Pátio disse que se sente “com a alma lavada”. A perda de seu mandato e de sua vice-prefeita tucana Marília Salles foi o fato mais relevante na vida institucional de Rondonópolis, município com 215 mil habitantes e principal polo do agronegócio nacional.

Cauteloso, Zé Carlos do Pátio não fala abertamente que pretende disputar de novo a prefeitura. Em compensação, não nega que tenha esse sonho. Sua prudência é a mesma do gato escaldado, que foge de água fria, pra evitar que o Ministério Público Eleitoral (MPE) novamente represente contra ele, como fez no caso das camisetas. Porém, nos meios políticos em Rondonópolis, a decisão do TSE botou lenha na fogueira da corrida eleitoral, que até agora era cozinhada em banho-maria pelo prefeito Percival Muniz (PPS), que aparentemente se sentia disputando sozinho uma corrida, na qual não poderia chegar em segundo lugar.

A julgar pelo resultado da eleição de 2014, Zé Carlos do Pátio tem força eleitoral em Rondonópolis, onde foi campeão de votos para deputado estadual naquele pleito, com 14.809 votos, numa disputa que também elegeu os candidatos locais Gilmar Fabris (PSD) e Sebastião Rezende (PR). O xis da questão é que Adilton (PSB) foi o mais votado para deputado federal, com 47.866 votos (49,52%) numa disputa direta com Jota Barreto (PR) e Carlos Bezerra (que se reelegeu), ambos ex-prefeitos do município. Além disso, o vice-prefeito tucano Rogério Salles concorreu ao Senado e ali recebeu 52.887 votos (57,73%) num enfrentamento polarizado com Wellington Fagundes, que conquistou a vaga graça ao seu desempenho em outros municípios.

O CASO – Em 2008, Zé Carlos do Pátio era deputado estadual pelo PMDB, disputou e venceu a eleição para prefeito. Sua chapa coligada com o PSDB recebeu 51.775 votos, equivalentes a 52,43% da votação.

Adilton, que tentava a reeleição, não passou de 46.975 votos (47,57%). A vitória foi conquistada voto a voto, no corpo a corpo, contra uma verdadeira máquina formada pelo PR e até mesmo por correligionários do candidato de oposição.

(Boxe)

A dança pelo poder

O palanque de Adilton era recheado pelos principais líderes de Mato Grosso e do município. O então governador Blairo Maggi, seu secretariado e os deputados de sua base de sustentação entraram de corpo e alma na campanha. Blairo é compadre, vizinho e contemporâneo de faculdade de Adilton. O à época vice-governador Silval Barbosa era correligionário de Zé Carlos do Pátio, mas não o apoiou. Silval nunca revelou a razão para aquela postura, mas ficou claro que a mesma era adotada para não contrariar Blairo. O deputado federal e presidente do PMDB regional, Carlos Bezerra, que foi prefeito de Rondonópolis em dois mandatos, também se escafedeu. Há duas versões para o sumiço de Bezerra: uma dá conta que o candidato não o aceitava; outra diz que ele não queria participar. Ambos tiram o corpo fora sobre o assunto.

Para reforçar a participação do à época deputado federal e agora senador republicano Wellington Fagundes em sua campanha, Adilton substituiu seu vice-prefeito eleito de 2004, o dirigente comunitário Manoel Machado, o Maneco da Vila Operária (PSL), por seu correligionário e empresário João Antônio Fagundes. João Antônio é filho de Wellington.

O apoio de Wellington a Adilton em 2008 aparentemente seria a coisa mais natural, pois os dois eram correligionários. No entanto, havia um quê entre eles, por conta da eleição municipal de 2004: naquele pleito Adilton foi eleito prefeito pelo PPS, com 30.932 votos derrotando Wellington (PL), que recebeu 27.931 votos, Zé Carlos do Pátio (PMDB), com 26.133 votos e Carlos Ihamber (PDT), com 1.151 votos.

Na disputa em 2004, Wellington reclamou muito contra a ingerência de Blairo na eleição. Segundo ele, o governador botou o peso da máquina administrativa pra eleger seu compadre. Passada a disputa, o PL entrou na fusão de partidos que resultou no PR e quatro anos depois as mágoas foram deixadas de lado em nome da aluvião política pra tentar manter a prefeitura com Adilton e seus aliados. 

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Adilton fazia uma campanha de ostentação. Seu comitê era controlado pelo secretário estadual de Administração do governo de Blairo Maggi (PR), Geraldo de Vitto. Zé Carlos do Pátio percorria as ruas com um animado grupo de apoiadores que puxavam o refrão: “É o Zé que o povo quer”; dos meios empresariais ele recebeu apoio declarado somente do ex-governador e ex-prefeito Rogério Salles, que é marido de Marília Salles. Por baixo dos panos havia outros apoiadores, que se mantinham em silêncio temendo retaliação do governo.

Nos últimos dias da campanha Rondonópolis vivia clima de tensão. Comentários sem comprovação davam conta de que o grupo de Adilton estaria comprando votos. Para comprar voto é preciso dinheiro. Partindo desse princípio, na véspera da eleição, a Justiça Eleitoral determinou busca e apreensão no comitê de Adilton, onde De Vitto dava as cartas. Os policiais apreenderam R$ 1,2 milhão. O prefeito e candidato à reeleição alegou que o montante seria para pagamento de cabos eleitorais e de imediato o TRE determinou que a dinheirama lhe fosse devolvida naquele mesmo dia.

A apreensão da montanha de dinheiro no comitê de Adilton foi divulgada com cautela pela imprensa. Em algumas redações havia temor sobre o fato, para não contrariar Blairo, uma vez que o governo é o maior anunciante em Mato Grosso e o governador jogava todas as suas fichas na candidatura de seu compadre.

A juíza Milene Beltramini decretou segredo de Justiça sobre a apreensão. A Procuradoria Regional Eleitoral mandou a Polícia Federal instaurar inquérito para apurar a suposta compra de votos e caixa 2. Não há informações sobre o inquérito e o caso é mantido sob o tapete.

No dia da eleição as duas coligações que disputavam a prefeitura vestiram seus fiscais de urna com camisetas sem citação de nomes dos candidatos e seu partidos; nelas somente a palavra: Fiscal. Adilton botou seu pessoal de amarelo. Zé Carlos do Pátio ficou com a cor vermelha. A Justiça Eleitoral permitia esse tipo de identificação.

Cada candidato teria 2 mil fiscais com camisetas. Zé Carlos do Pátio errou na mão. Ao invés de 2.000 mil, recebeu 2.857 camisetas. No meio dos 99 mil eleitores, ninguém notou a diferença e não houve nenhum registro de prisão de eleitor vestindo o vermelho do peemedebista, o que se houvesse configuraria crime de abuso de poder econômico.

O fato das camisetas a mais somente foi descoberto quando o candidato declarou à Justiça Eleitoral a quantidade utilizada. Nisso, a coligação de Adilton encontrou a brecha que procurava: denunciou Zé Carlos do Pátio e o Ministério Público Eleitoral (MPE) o acionou, mas o juiz da 45ª Zona Eleitoral Luiz Antônio Sari entendeu que não houve crime eleitoral. O MPE recorreu ao TRE.

A defesa de Zé Carlos do Pátio justificou o excedente de camisetas argumentando que seria para eventuais substituições de fiscais que não comparecessem às sessões eleitorais.

Empossado em 1º de janeiro de 2009, juntamente com Marília Salles, Zé Carlos do Pátio iniciou a administração enquanto a ação contra ele e sua vice tramitava. Em abril de 2012, por 5 a 1 o pleno do TRE cassou seu mandato e o de sua vice, por abuso de poder econômico. Enquanto a defesa dos cassados tentava a reversão da sentença, os dois ficaram nos cargos, mas em 15 de maio de 2012 o presidente da Câmara Municipal, Ananias Filho (PR), assumiu o cargo enquanto prefeito constitucional à espera da realização de eleição indireta, pelos vereadores, para a escolha do novo prefeito e vice de Rondonópolis.

Em 13 de junho, portanto menos de dois meses após a cassação de Zé Carlos do Pátio, Ananias foi eleito prefeito pela Câmara, para concluir o mandato. Com 9 votos, Ananias venceu a disputa, tendo de vice-prefeita a jornalista Valéria Bevilácqua (PMDB). Em segundo lugar, com 3 votos, ficou o vereador Mohamed Zaher (PSD). Em último, o ex-vereador Juca Lemos (PT), que não foi votado.

Também na eleição de 2008, em Cuiabá, a polícia apreendeu 5.600 camisetas do então candidato a prefeito Mauro Mendes (PR), da coligação Compromisso com Cuiabá. Mauro foi denunciado por seu concorrente e candidato à reeleição Wilson Santos (PSDB), da coligação Dante de Oliveira, à Justiça Eleitoral e absolvido pela juíza da 51ª Zona Eleitoral Rita Soraya Tolentino de Barros. A juíza entendeu que as camisetas não foram distribuídas a eleitores, mas sim a cabos eleitorais do candidato. A ação contra Mauro chegou ao TRE, que o absolveu em junho de 2012, com um parecer do MPE pelo desprovimento do recurso contra ele.

O juiz Pedro Francisco da Silva, do TRE, deu sua versão para a absolvição de Mauro e a condenação de Zé Carlos do Pátio. Segundo ele, as camisetas do candidato em Rondonópolis tiveram efeito surpresa, por terem sido distribuídas nas vésperas da eleição e a quantidade confeccionada não seria condizente com as equipes de trabalho do candidato. No caso de Mauro – continua o juiz – as camisetas foram utilizadas como uniforme de equipe e compradas muito antes da eleição.

À época da condenação de um e a absolvição de outro, juristas disseram que o TRE decidiu de dois modos distintos sobre ações análogas. A imprensa não traçou comparativos e foi cautelosa no noticiário.

Em 2008, Wilson Santos se elegeu prefeito com o então deputado estadual Chico Galindo (PTB) compondo sua chapa. Quatro anos depois, pelo PSB, Mauro chegou à prefeitura em segundo turno batendo seu adversário petista Lúdio Cabral (Francisco Faiad, do PMDB, foi o companheiro de chapa de Lúdio) e tendo o então deputado estadual João Malheiros (PR) enquanto seu vice. Sem aparente justificativa, Malheiros recusou-se a assumir o cargo e Cuiabá não tem vice-prefeito.
Bezerra e sua luz amarela

Fora da prefeitura e à espera de julgamento de sua defesa no TSE, Zé Carlos do Pátio tentou se lançar candidato a prefeito. Para tanto, tinha em mãos uma liminar do ministro Marco Aurélio Mello assegurando seu direito à candidatura. A vontade de voltar ao palanque na tentativa de reaver o cargo esbarrou-se numa muralha: falando pelo PMDB, Bezerra lhe deu um sonoro “não”.

Travado pelo PMDB, Zé Carlos do Pátio acompanhou de fora do processo eleitoral e viu Percival Muniz (PPS) com Rogério Salles (PSDB) de vice em sua chapa vencer a eleição pra prefeito, com 60.452 votos. Em segundo lugar ficou a dobradinha de Ananias com Valéria de vice, que recebeu 39.938 votos.

Para se eleger prefeito em 2012, Percival formou a coligação A Força da Gente, com o PSDB de seu vice e o PDT, PSC, DEM, PSB, PSD e o PV. Ananias foi cabeça de chapa da coligação Todos por Rondonópolis, integrada pelo PMDB de Valéria, o PRB, PP, PTB, PSL, PRTB, PMN, PTC, PRP, PPL e PC do B.

Mesmo antes de sua cassação, Zé Carlos do Pátio passou por um processo de fritura no PMDB, comandado pelo deputado federal Carlos Bezerra. Analistas acreditam que Bezerra botou o ex-prefeito para escanteio e optou pelo vereador Manoel da Silva Neto, o Dr. Manoel, que é seu correligionário. Dr. Manoel é marido da Valéria Bevilácqua e foi candidato a deputado estadual em 2010 fazendo dobradinha parlamentar com Bezerra.

Essa identidade não é considerada a única razão para a puxada de tapete: uma corrente acredita que o crescimento político de Zé do Pátio também deve ter acendido a luz amarela – aquela que alerta Bezerra sobre o risco de surgimento de lideranças em seu reduto

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