PREFEITURA SANEAMENTO

A ESQUERDA NO PODER: Nova York, que divide com Paris a fama (merecida) de uma das cidades mais chiques do mundo, deve eleger, neste dia 5, Bill de Blasio, democrata de 52 anos com um perfil fortemente esquerdista. Blasio promete combater a desigualdade taxando mais os ricos. Promete acabar com os incentivos fiscais para construir imóveis de luxo e erguer 220 mil moradias populares.

Bill-de-Blasio- candidato democrata à prefeitura de Nova YorkRevolução comunista chega a Nova York

Enviado por  – O CAFEZINHO

Claro que o título é irônico. Mesmo assim, a notícia é de fazer nossa elite conservadora cortar os pulsos. Nova York, que divide com Paris a fama (merecida) de uma das cidades mais chiques do mundo, deve eleger, amanhã, Bill de Blasio, democrata de 52 anos com um perfil fortemente esquerdista (para os padrões americanos). Ele tem 68% de intenções de voto nas pesquisas, contra 24% de seu principal adversário, Joe Lhota, 59 anos, conservador republicano. Observação: Paris, Londres e Roma são, há décadas, redutos da esquerda em seus respectivos países.

Confira matéria publicada hoje na Folha:

NY deve eleger prefeito de perfil esquerdista

Segundo pesquisa, democrata Bill de Blasio tem larga margem sobre republicano Joe Lhota para eleições de amanhã

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Discurso contra desigualdade social pode pesar a favor de Blasio, que tem apoio de negros e latinos

MARCOS AUGUSTO GONÇALVES, NA FOLHA
DE NOVA YORK

Nova York, ao que tudo indica, vai para a esquerda. Enquanto na política nacional a ala ultraconservadora do Partido Republicano faz barulho, com sua feroz oposição ao governo Barack Obama, na maior cidade americana as pesquisas de intenção de voto para a prefeitura indicam larga vantagem para o democrata Bill de Blasio.

Com 65% das preferências, segundo pesquisa recente da Universidade Quinnipiac, o candidato do Partido Democrata ao pleito desta terça-feira tem um perfil que se encaixaria muito bem numa chapa petista. Na juventude, foi ativo defensor do governo sandinista da Nicarágua e fez sua carreira na defesa de interesses de pobres e minorias. Ocupa o cargo de advogado público da prefeitura, uma espécie de ombudsman a serviço da população.

Para completar o figurino progressista, Blasio, descendente de alemães e italianos, é casado com Chirlane McCray, uma escritora e militante feminista negra, que levantou controvérsias por ter assinado um artigo, em 1979, intitulado “Eu sou lésbica”.

O principal adversário na disputa é o republicano Joe Lhota, 59, um empresário de origem modesta, que estudou em Harvard e trabalhou para a administração municipal de Rudolph “Rudy” Giuliani (1994-2001). Em 2011, foi convidado pelo governador Andrew Cuomo a assumir a direção da Autoridade Metropolitana de Transporte –órgão responsável pela maior rede pública de trens, metrô e ônibus do país.

Racionalizou despesas, planejou novas linhas e recebeu elogios durante a tempestade causada pelo furação Sandy, quando se antecipou à inundação, fechou o metrô, levou os trens para a superfície e criou conexões de emergência para auxiliar no deslocamento da população.

Na tradição de seu partido, Lhota defende mais rigor e disciplina nas finanças da prefeitura e se opõe aos subsídios sociais. Não deixa, porém, de se esforçar para ser simpático à população de baixa renda –num movimento para a “terceira via”, em busca de apoio do eleitorado sem partido.

Os esforços de Lhota até aqui não frutificaram. Com 26% das intenções de voto, será difícil impedir que seu concorrente leve os democratas de volta à prefeitura de Nova York, na sequência de dois mandatos de Giuliani e de três do bilionário Michael Bloomberg, ex-republicano que se tornou “independente” a partir de 2007.

ATAQUE REPUBLICANO

Diante da evidência de um fiasco, o republicano partiu para o ataque nas últimas semanas. Elevou o tom nos debates e passou a veicular na TV um filme alarmista com imagens do passado de violência urbana de Nova York –uma época de insegurança que seria restaurada em caso de vitória de Blasio.

Do outro lado, a campanha democrata tenta colar no oponente o rótulo de candidato dos ricos. De 2002 a 2011, Lhota foi executivo sênior do magnata James L. Dolan, dono da TV paga Cablevision, do Madison Square Garden e dos times de basquete e hóquei da cidade –o Knicks e o Rangers. Nesse período, ele fez lobby para a prefeitura reduzir taxas que incidiam sobre os negócios do grupo.

Embora por si só não expliquem a vantagem de Blasio, mudanças no perfil social e demográfico de Nova York, nos últimos anos, associadas aos efeitos da crise econômica, favorecem o discurso democrata –que os críticos acusam de demagógico.

Em 1990, a população branca da cidade desempenhava um papel preponderante, com 42,3% do total –enquanto negros e latinos se dividiam equanimemente, em fatias de 25%. Hoje, Nova York possui uma população de 33% de brancos, seguida de perto pela hispânica, com 29% –enquanto os negros são 23%. A desigualdade é outra característica da metrópole: 45% de seus habitantes estão em situação de pobreza ou próximos disso.

Num artigo para o “New York Times” (“O Novo Populismo Urbano”, 22/10), em que coteja esses e outros dados, o jornalista Thomas B. Edsall cita dados reveladores quanto às repercussões políticas desse quadro.

Estudos eleitorais de um instituto ligado às universidades de Stanford e Michigan mostram ser dominante entre hispânicos e negros a ideia de que cabe ao Estado zelar pela oferta de “trabalho e bom padrão de vida para todos”. Já a maioria dos brancos acredita que o governo deve “simplesmente deixar que cada um um siga em frente por si mesmo”.

É nesse cenário, com uma sintomática aparência de “brasilização” socioeconômica, que Blasio está prestes a conquistar Nova York

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O Bill de Nova York vem recebendo forte apoio do casal Bill e Hillary Clinton

O Bill de Nova York vem recebendo forte apoio do casal Bill e Hillary Clinton

 

Bill de Blasio, o favorito para a prefeitura de Nova York

De Blasio pode ser o primeiro democrata em 20 anos a comandar a cidade, onde os eleitores de seu partido são maioria

RAFAEL BARIFOUSE – revista EPOCA
 
À FLOR DA PELE De Blasio, com a mulher e os filhos, ao vencer as prévias democratas.  A família  mestiça o ajudou na disputa (Foto: Kathy Willens/AP)

Nova York é a cidade que nunca dorme. Na verdade, mal descansa. Sempre se renova, ajusta-se aos novos tempos. Cosmopolita e multirracial, é também um forte reduto liberal e democrata. Entre seus 4,3 milhões de eleitores, 70% votam no partido do presidente Barack Obama, e 81% votaram por sua permanência na Casa Branca em 2012. Curiosamente, foram os republicanos que mandaram em Nova York na história recente. Em 1994, Rudolph Giuliani foi eleito prefeito. Sete anos depois, seu colega de partido Michael Bloomberg o substituiu. Em 2007, Bloomberg deixou o Partido Republicano e tornou-se independente – ele apoiou formalmente a reeleição de Obama. Mas os democratas continuavam longe do poder na cidade que mais os ama. Isso pode mudar na eleição de 5 de novembro, quando o sucessor de Bloomberg será escolhido. Líder, com folga nas pesquisas de opinião, Bill de Blasio, de 52 anos, era um azarão no início do ano. Mudou a situação ao criticar Bloomberg e propor mudanças voltadas para os mais pobres. Com a ajuda da família e um pouco de sorte, tornou-se favorito. Se eleito, será o primeiro democrata a comandar Nova York em duas décadas.

De Blasio é um velho conhecido dos nova-iorquinos. Mestre em relações internacionais pela Universidade Columbia, trabalhou no Conselho Municipal entre 2001 e 2009, quando foi eleito defensor público – o ocupante do cargo intermedeia o diálogo entre a população e a prefeitura. Parecia ter poucas chances nas prévias democratas. Em janeiro, estava empatado num distante segundo lugar com dois outros pré-candidatos. A favorita era a porta-voz do Conselho Municipal, Christine Quinn. Segundo as pesquisas, ela derrotaria qualquer candidato republicano. Como mulher e abertamente gay, Christine teria sido uma candidata de perfil inédito na cidade. Em maio, começou a perder força, por se apresentar como a continuidade de Bloomberg. Isso revelava o cansaço do eleitorado com um prefeito outrora extremamente popular.

A tática da polícia de Nova York,
de parar qualquer suspeito na
rua, mostrou-se impopular. De
Blasio promete acabar com ela 

Em três mandatos, Bloomberg tornou Nova York mais próspera ao atrair empresas, abrir espaço para edifícios de luxo e aumentar o turismo. Também a tornou mais segura – os assassinatos caíram 37% – e agradável, com novos parques, ciclovias e bicicletas públicas. Nem tudo, no entanto, anda bem. A taxa de pobreza passou de 13ª maior do país, em 2000, para a 6a. Nova York tem uma população de rua recorde e a maior desigualdade de renda americana. Além disso, 82% dos eleitores consideram a corrupção um problema grave na prefeitura – e 38% culpam os republicanos pelo fenômeno.

De Blasio, um ferrenho opositor de Bloomberg, ampliou suas críticas. “Bloomberg cuida de Wall Street, não da classe média, dos trabalhadores e dos pobres.” De Blasio propõe aumentar impostos dos ricos para expandir as vagas em creches. Promete acabar com os incentivos fiscais para construir imóveis de luxo e erguer 220 mil moradias populares. Seus críticos temem que políticas assim afugentem o capital.

De Blasio diz ainda que dará fim à política que permite à polícia revistar qualquer um na rua. Em oito anos, dos 4,4 milhões de pessoas abordadas, 83% eram negras ou hispânicas, apesar de esses grupos ser pouco mais de 50% da população. Em 90% dos casos, os suspeitos foram liberados.

O assunto virou o centro de sua campanha há dois meses, quando comerciais na TV puseram sua família em evidência. De Blasio é casado há 19 anos com a poeta Chirlane McCray, de 58 anos, uma negra que antes de conhecê-lo só se relacionara com mulheres. O casal tem dois filhos. Dante, de 15 anos, foi protagonista de dois comerciais. Dizia que somente o pai mudaria a tática da polícia. Em outro comercial, De Blasio disse que sua família já fora alvo da abordagem policial, e isso causou impacto entre os eleitores. Entre 2000 e 2010, enquanto o número de americanos aumentou 9,7%, a população mestiça do país cresceu 32%. Nova York é a cidade com a maior população mestiça dos EUA (326 mil pessoas). Logo após a exibição das propagandas, De Blasio assumiu a liderança das pesquisas.

Depois de ganhar terreno na disputa interna dos democratas, De Blasio recebeu uma mãozinha do próprio prefeito Bloomberg. Numa entrevista, Bloomberg chamou a campanha do democrata de classista e racista. Há três semanas, De Blasio foi escolhido candidato do Partido Democrata, com pouco mais de 40% dos votos. Já recebeu o apoio de Bill e Hillary Clinton e do presidente Barack Obama. “Sua agenda ousada busca resolver os principais desafios de nosso tempo”, disse Obama, na semana passada.

Do lado adversário está Joe Lhota, um republicano moderado de 58 anos. Lhota não perdeu tempo e partiu para o ataque. “Sua estratégia de guerra de classes é marxista”, afirmou sobre Bill de Blasio. Lhota está 41 pontos atrás nas pesquisas, que dão a De Blasio 66% das intenções de voto. Ambos se enfrentarão em três debates – as últimas chances de esse quadro mudar. Ao que tudo indica, Nova York está prestes a escolher um prefeito liberal, multirracial e polêmico. Como sua cidade.

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