A DIFÍCIL VIDA FÁCIL: José Orlando Muraro, advogado, às voltas com os intrincados trâmites da Justiça Federal, passeia pelas ruas do Coxipó, descobre um ponto de mulheres em um bar em que também se discute a arte noiada dos Roling Stones, exalta o trabalho dos haitianos em Cuiabá e anuncia que vai viajar pelo Brasil no período da Copa do Mundo. “Não somos macacos. Somos brasileiros…e haitianos!”

O cronista e advogado José Antônio Muraro volta a contar suas histórias e a falar de suas descobertas caminhando a pé pelas ruas do Coxipó, em Cuiabá

O cronista e advogado José Antônio Muraro volta a contar suas histórias e a falar de suas descobertas caminhando a pé pelas ruas do Coxipó, em Cuiabá

Não somos macacos. Somos brasileiros e …haitianos!

POR JOSÉ ORLANDO MURARO

ESPECIAL PARA A PAGINA DO E
Envolvido em uma demanda judicial infernal, que tramita na 8ª Vara da Justiça Federal, acabei sendo obrigado a passar dias e dias em Cuiabá. Sem muito a fazer, a não ser acompanhar o desenrolar da ação, e protocolar todos os recursos possíveis, decidi caminhar, como forma de reduzir o excesso de peso.
Elaborei e caminhei por vários roteiros, normalmente por calçadas esburacadas e inclinadas, o que resulta em dores nas pernas. E um dos roteiros que mais gosto de fazer passa por um cabaré.
Saio pela General Mello, Carmindo de Campos, Fernando Correa. Atravesso a ponte do Rio Coxipó, e na rua do Correio, eu dobro a direita. Caminho até o final, dobro a esquerda e, na esquina, um bar, onde as mulheres fazem ponto esperando seus clientes. Uma máquina de música anima o local. O Dudu e o Japa gerenciam a casa e quando sentam, não falam de futebol. Discutem rock”on roll, de como Keith Richards, do Rollings, literalmente cheirou as cinzas do pai, misturada com muita cocaína….. e Charlie Brown derrete a máquina de música…
O celular toca. Um velho companheiro de juventude. Trotsquista como eu. Hoje, engenheiro civil, mantém uma pequena empresa de construção. “Vivo da mais valia dos operários” , disse-me uma vez. Explicou que estava com um problema e queria falar comigo. Uma consulta informal, não remunerada, ou pelo menos, ele pagaria as cervejas. Expliquei onde estava.
Quando chegou, estranhou o ambiente. Às 17 horas, o local já está cheio de mulheres, e carros de clientes. Sentou-se e pedi para a Moral (olha o nome de guerra da morena!!) um copo. E perguntei qual o problema.
_ Contratei cinco haitianos. Não se acha mais gente querendo trabalhar no pesado da construção civil. Este tal de waitzap acabou com a classe trabalhadora brasileira…
-Como assim? Como todo brasileiro, ele usou uma corrup ção do nome WhatsApp, para o aplicativo do Messenger…. waitzap..
_ Antes o ajudante preparava a massa, servia as caixas dos pedreiros, empilhava os tijolos nos andaimes, e ia limpando o canteiro. Agora, eles mal viram amassa, jogam na caixa, empilham os tijolos de qualquer jeito e ficam neste waitzap….não tem mais trabalhador que preste….por esta nem Karl Marx esperava….
_E os haitianos?
_ Os caras trabalham duro. Falam uma língua desgraçada para se ouvir, mas trabalham mesmo. Tem um deles, o que fala português, que controla as coisas, e transmite as ordens. E um vigia o outro para não fazer caca no trabalho.
_ Como eles são, afinal?
-Em primeiro lugar, me parece que eles se prepararam a vida toda para emigrar do Haiti. Todos têm pelo menos duas formações profissionais. São pedreiros, marceneiros, azulejistas… Uma boa parte deles fala inglês, além do francês e do creole, a língua com que se comunicam. Ninguém se preparou para uma faculdade e um bom trabalho no Haiti, que sabiam não existir. Se prepararam em profissões para disputar o mercado de trabalho em qualquer outro país… além do inglês, logicamente…
Um povo que se preparou para emigrar…um conceito sociológico que nunca tinha ouvido…
– Em segundo lugar, psicologicamente, eles se prepararam para enfrentar a situação em qualquer outro país.. racismo, xenofobia e violência racial, coisas do tipo. Vivem em repúblicas, nunca andam sozinhos, vestem-se com simplicidade, mas roupas sempre limpas…. e trabalham duro, um sempre vigiando o outro, pois o erro de um comprometerá a todos…
_E qual é o problema, que te trouxe aqui?
– A legislação trabalhista. Alguém me disse que tem um limite, uma cota para trabalhadores estrangeiros. Quero contratar mais haitianos, mas fico preocupado com a fiscalização do Ministério do Trabalho…
– São coisas diferentes. Os haitianos estão recebendo documentos como imigrantes ou refugiados. Isto significa alguém que tem intenção de se radicar no país, até atingir a naturalização. Legalmente o denominado estrangeiro tem outro status jurídico. É alguém que vem trabalhar no pais, por um tempo certo, mas que não renuncia ou não tem intenção de renunciar à sua nacionalidade. Os espanhóis, por exemplo,
– Espanhóis…sempre arrogantes. Aquela banana no Daniel Alves, não foi só por uma questão racial. Era como se eles demonstrassem a raiva porque têm que vir ao Brasil em busca de empregos….ou seja, eles, com toda a empáfia e seus diplomas , mestrados e doutorados, só encontram empregos em um país de macacos, de gente atrasada, que somos nós…
Deixando os espanhóis de lado, expliquei que ele poderia contratar tantos haitianos quanto necessitasse. Respeitando os Direitos Trabalhistas, carteira assinada, descansos legais, pagamento das horas extras, ele não teria nenhum problema com a fiscalização…
_ E o brasileiros. Como reagem aos haitianos?
– Ficam putos da cara. Os haitianos trabalham mais e melhor. Os mestres de obras gostam muito deles. Comem bastante e trabalham duro. Se você precisa que façam horas-extras, é só avisar o capataz deles. Não faltam ao serviço. No dia do pagamento, o capataz vem, educadamente pede a máquina de calcular e confere, holerite por holerite , hora extra por hora extra, e aí libera o pagamento. Como disse, se prepararam a vida toda para emigrar, para enfrentar a situação em qualquer outro país…
Pagou as cervejas e me ofereceu uma carona. Declinei, alegando o excesso de peso e a necessidade de evaporar as cervejas que havíamos tomado. Voltei a caminhar e quando retomei a Fernando Correa, já estava bem firme a disposição de viajar durante a realização da Copa do Mundo, em junho.
Um velho mochileiro retornando às estradas. Um trota-mundos, como se diz em espanhol. Ir de cidade em cidade, sem um roteiro definido. Somente chegar em qualquer rodoviária e perguntar: o próximo ônibus, vai para onde? E nele embarcar….
Quero reencontrar meu País, agora gravado com maiúscula. Ver as imensas manifestações de ruas que irão sacudir os alicerces deste Brasil em junho. Assistir, em qualquer televisão, em qualquer cidade deste País, um povo que canta o Huno Nacional, aos berros, mesmo quando se encerra a trilha musical….
Quero reencontrar meu País.

Jose Orlando Muraro Silva é advogado, radicado em Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, Brasil

Categorias:Terra da gente

3 Comentários

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  1. - IP 201.57.233.221 - Responder

    precisava de uma foto dessas?

  2. - IP 189.74.60.65 - Responder

    Kkkkkkkk… Enock, dessa vez você se superou!!! Precisava botar essa foto com a gatinha tentando encontrar o pinto do gordinho? Kkkkkkkk…

  3. - IP 177.17.203.83 - Responder

    Parabéns José Orlando Muraro. A prosa despretensiosa revela reflexões profundas do momento atual, não só cuiabano, como brasileiro, com uma simplicidade que impressiona. Explore mais o tema. Estou curioso para ler suas novas impressões.

    Abraços,

    Kleber Lima

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