Tiradentes é herói da independência que não aconteceu

Tiradentes, herói inadaptado

PAULO MOREIRA LEITE
revista ÉPOCA

No trânsito da volta do litoral, no passeio pelo shopping, no show da Xuxa em Brasília ou na caipirinha à beira da piscina, o 21 de abril é dia de pensar em Tiradentes. Você pensa? Eu penso.

Ele é o herói brasileiro e já foi definido como um herói triste.

Não conhecemos seu rosto verdadeiro — mas apenas uma imagem reconstituída.

Também não sabemos exatamente qual foi seu papel na chamada inconfidência mineira — apenas que não estava entre os mais ricos nem entre os mais influentes, num momento em que Minas Gerais abrigava os mais cultos e mais endinheirados da colonia.

Eram quase todos ressentidos e endividados, mas mudanças históricas também são feitas com gente que enfrenta esse tipo de problema.

Tiradentes é o herói de uma independência que se pretendia moderna, avançada, e não aconteceu.

Os inconfidentes falavam de um Brasil no Novo Mundo e não uma continuidade do Império Orleans e Bragança, parte da Santa Aliança reacionária.

A história lhe deu muitas honras mas não seguiu seu exemplo. Os caminhos percorridos foram outros. A razão vitoriosa também.

Tiradentes foi enforcado, esquartejado e teve sua casa salada não só pelo que fez, mas principalmente pelo que disse, numa hora em que as palavras podiam lhe custar a vida.

Entre tantos (revolucionários? conspiradores? políticos? caloteiros? espertalhões?) de tantos tempos, românticos e modernos, declarou que levava as próprias idéias a sério.

A inconfidência nasceu para dar errado, como uma bravata de extremistas e desorientados. Não tinha grande apoio nacional nem articulações indispensáveis para derrotar um império que já naquele tempo vivia de explorar a maior colonia. Deu certo porque até hoje falamos dela. Tiradentes não mentiu, não negou.

Depois dos 8 anos de idade, quando ouvi falar de Tiradentes pela primeira vez, conclui que era por essa razão que alguns homens e mulheres especiais aparecem nos livros de História.

Percebi mais tarde que aqueles que respeitam a própria palavra são muito poucos, quase únicos. Tiradentes era um caso raro entre os raros. Não cabe nem nos livros de História.

Na verdade, Joaquim José da Silva Xavier sempre foi um inadaptado.

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