ZÉ PEDRO QUERIA QUE RIVA CAGUETASSE DANTE MAS RIVA NÃO CAGUETOU: Em novo capítulo da “Biografia não autorizada de Riva”, jornalista Eduardo Gomes relata o encontro noturno de Zé Pedro Taques, então procurador da República, e do então juiz Julier Sebastião com Riva, Silval e Bosaipo, na expectativa de levar Dante de Oliveira, a cúpula do PSDB e o empresário Armando de Oliveira para a cadeia, nos desdobramentos da Operação Arca de Noé, no início dos anos 2000. “O juiz e o procurador corriam contra o relógio pra pegar Dante e desmoralizar Riva. Na reunião, Julier e Taques propuseram a Riva, Bosaipo e Silval que eles denunciassem Dante e Armando no caso das promissórias. Se aceitassem, os dois os protegeriam com perdão judicial.À época ainda não existia o benefício da delação premiada, mas o Brasil concedia perdões tomando como parâmetro a legislação dos Estados Unidos. Riva falou por ele, Bosaipo e Silval: “Não sei de nada e mesmo que soubesse não sou dedo-duro”. Em tom áspero, despachou o juiz e o procurador. Naquele momento – 22 promissórias à parte, porque isso precisa ser esclarecido – surgiu à animosidade que alimenta o discurso de ódio de Taques contra Riva.” LEIA O CAPÍTULO INÉDITO

O jornalista Eduardo Gomes, o ex-governador Dante de Oliveira (já falecido), o empresário Armando de Oliveira (proprietário da Domani) e o ex-procurador Zé Pedro Taques que perseguia o PSDB e tentava prender suas lideranças, no tempo de Dante, segundo o relato do Brigadeiro, e hoje administra o legado do ex-governador que teria tentado levar pra cadeia

O jornalista Eduardo Gomes, o ex-governador Dante de Oliveira (já falecido), o empresário Armando de Oliveira (proprietário da Domani) e o ex-procurador Zé Pedro Taques que perseguia o PSDB e tentava prender suas lideranças, no tempo de Dante, segundo o relato do Brigadeiro, e hoje administra o legado do ex-governador que teria tentado levar pra cadeia

CAPÍTULO: Em nome da lei e dos interesses de alguns

POR EDUARDO GOMES

“O CICLO DE FOGO – Biografia não autorizada de Riva” é um livro de minha autoria, que chegará às bancas, em breve, em Cuiabá. A obra fala da vida pública de José Geraldo Riva e de muitos personagens e instituições que integravam seu mundo político.

A leitura da obra é boa oportunidade para se conhecer as entranhas da política e do poder mato-grossenses. O texto é isento, o linguajar é simples e a publicação não recebeu apoio das leis de incentivos culturais

O preço do livro para Cuiabá é R$ 90. Nos demais municípios, incluindo postagem registrada, R$ 100. Gostaria de presentear amigos e conhecidos com O CICLO DE FOGO, mas em função de seu custo de produção não posso fazê-lo e espero a compreensão de todos.

Em breve botarei um e-mail para compra do livro pela internet. Interessados depositarão o valor correspondente na minha conta-corrente no Banco do Brasil e enviarei o exemplar ou exemplares em correspondência registrada. A cada despacho enviarei por e-mail ou facebook o Rastreamento para acompanhamento do trânsito do material.

Ao todo postarei quatro capítulos no site www.mtaquionline.com.br  para divulgar a obra.
Boa leitura

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O MAIS RECENTE CAPÍTULO

Eduardo Gomes de Andrade                                                      

 O ciclo de fogo

Em nome da lei e dos interesses de alguns

Em dezembro de 2002 O Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público Estadual (MPE), a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal deflagraram em Cuiabá a Operação Arca de Noé, para desmontar o império financeiro e o poderio do chefe do jogo do bicho em Mato Grosso, João Arcanjo Ribeiro, o Comendador. As ações foram executadas por 160 policiais federais, 30 patrulheiros rodoviários, três procuradores da República, 20 promotores e seis fiscais federais.

Arca de Noé abriu todas as portas possíveis para que o Comendador fosse investigado. Numa dessas brechas o MPE apreendeu em Cuiabá, numa das factorings do Comendador, 22 notas promissórias emitidas em 1999 e 2000 pelo então presidente da Assembleia Legislativa, Humberto Bosaipo (PL), e o primeiro-secretário José Riva (PSDB), com valores de R$ 700 mil ou pouco mais ou menos que essa importância, que juntas perfaziam R$ 15,4 milhões. Bosaipo fez silêncio sobre a apreensão. Riva primeiro alegou que se tratava de caução por um negócio que não foi realizado; depois, disse que fornecedores da Assembleia as teriam negociado com a factoring. O favorecido encontrou justificativa comercial.

Em resumo, tais promissórias podem ser consideradas fortes indícios da relação do Comendador com o poder político mato-grossense. Quando da apreensão, considerável setor da imprensa tratou o caso com cautela, para blindar Riva. Porém, longe das redações, jornalistas e leitores juravam por todos os santos que as 22 promissórias seriam mimos que a dupla Bosaipo e Riva repassaria aos deputados estaduais por meio de operações entre quatro paredes com o Comendador. Vale observar que a Assembleia tem 24 cadeiras, o que leva a crer que toda a legislatura estivesse comprometida até o pescoço com Riva e Bosaipo. Nem é preciso acrescentar que nesse caso a dupla que comandava a mesa diretora deveria receber bolada bem maior.

A engenharia para fazer dinheiro chegar aos deputados não tinha nenhuma mecânica excepcional. O Comendador descontava as promissórias emitidas por Bosaipo e Riva. A quitação das mesmas é que entra por um caminho nebuloso. Fonte ligada à Assembleia dá conta que o governo de Mato Grosso ficaria com a dolorosa. À época da apreensão, o governador era o tucano Rogério Salles, recém-chegado ao poder em substituição ao correligionário Dante de Oliveira que deixou o cargo para disputar o Senado em outubro de 2002. O pagamento não poderia sair da conta do Estado para a factoring, o que forçaria a entrada de um novo elemento na trama. Esse elemento seria uma empresa de porte que prestasse serviço ao Estado. Mas… qual?

Não há materialidade para se provar a triangulação da Assembleia com o Comendador e o governo, que nesse caso seria representado por uma empresa. Porém, promotores e procuradores apostavam até a alma que se tratava de crime recorrente no governo de Dante. O deputado federal, cacique e presidente regional do PMDB, Carlos Bezerra, é muito bem informado e numa de suas tiradas, certa vez, logo depois da apreensão das promissórias, disse que os deputados estaduais recebiam ‘merenda’.
Arca de Noé jogou o então juiz federal Julier Sebastião da Silva e o, à época, procurador da República José Pedro Gonçalves Taques nos holofotes de imprensa;. Mais tarde, a opção política de ambos deixou claro o porquê de tanto aparecerem nas páginas dos jornais e na telinha da televisão.

Raiava 2003 e com ele o governo de Blairo Maggi (PPS). Luiz Antônio Pagot era secretário de Infraestrutura de Blairo e tinha muita força no Palácio Paiaguás. Jornalistas o chamavam de Trator. Para desespero dos tucanos derrotados no final do ano anterior, o Trator alardeava que abriria a caixa-preta do governo Dante.

Quando da Arca de Noé, o Comendador fugiu para o Uruguai, onde foi preso juntamente com sua mulher, Sílvia Shirata. Além do casal, também foram presos outros quatro cidadãos que o acompanhavam, e dentre esses, um policial. Julier era titular da 1ª Vara da Justiça Federal em Mato Grosso e foi ele quem decretou a prisão do Comendador. No presídio o Comendador caiu em desgraça.

Além da cabeça do Comendador, no começo da devassa Julier e Taques queriam associar Dante à apreensão das promissórias e escolher um empresário para jogar sobre os ombros dele a suposta responsabilidade da quitação da merenda. Não deu outra: o suspeito passaria a ser Armando Oliveira, dono da Amper Construções Elétricas e irmão de Dante.

Tanto Julier quanto Taques tinham planos políticos e Riva era uma das ameaças a ambos. Afinal, ele ainda comemorava sua reeleição com 65.389 votos, que o fazia campeão nas urnas. As outras eram Dante e o senador tucano Antero Paes de Barros, que acabara de ser derrotado ao governo por Blairo. Antero encabeçou a chapa partidária do PSDB coligado com o PMDB na “Frente Cidadania e Desenvolvimento” e quem dobrou com ele foi ninguém menos que a mulher de Riva, Janete Riva. Blairo formou uma dobradinha do PPS com Iraci França de vice, na coligação “Mato Grosso Mais Forte”, composta pelo PFL, PPB, PSC, PSD, PV, PTN, PAN, PSC, PRTB e PTdoB e venceu em primeiro turno com 619.655 votos (50,76%); Antero recebeu 360.296 votos (29,47%). Também disputaram o governo: o petista Alexandre Cesar numa chapa partidária com Enelinda Scala de vice, na coligação “Mato Grosso Ético e Solidário” formada pelo PT, PL e PCdoB, que alcançou 18,62% do eleitorado (227.598 votos). Tião Matrinchã (Sebastião Moreira dos Santos) para governador com o correligionário Zilmar Medeiros de vice, na coligação “Frente Cidadã Democrática” composta pelo PSB, PTC e PHS, que recebeu 14.287 votos (1,17%). E Carlos Linguiça (Joenete Carlos Pereira da Silva)/PGT e Edmar Maurício Barbant, do mesmo partido, formaram uma chapa que cravou 715 votos (0,06%).

Bosaipo tinha algum peso, porém não chegava perto da importância dos três tucanos, mas não se podia desconsiderar sua liderança no Vale do Araguaia, que era sua principal base eleitoral.

Dante, Antero e Riva eram carne e unha. Se Taques e Julier implodissem Dante e deixassem Riva de saia justa, restaria somente Antero, mas esse certamente seria engolido pela nova ordem política nacional liderada por Lula da Silva, que chegou ao Planalto derrotando o tucano José Serra.

Julier tinha trânsito total entre os petistas mato-grossenses, pois na juventude havia militado no PT e na Pastoral da Terra. Sobre ele, certa vez, em entrevista Antero disse que “Julier é juiz petista” e ele nunca rebateu tal crítica.

O Comendador estava engaiolado e rendendo espaço para Julier e Taques na imprensa. Pra que matassem dois coelhos com uma só cajadada, faltava associar Dante ao esquema do Comendador. Imagino que os dois pensavam em assumir as rédeas da oposição a Blairo e, assim, em breve chegarem ao poder com as bênçãos do PT nacional.

Imaginação à parte, Julier e Taques marcaram um encontro reservado com Bosaipo, Riva e Silval Barbosa (PMDB), no começo de 2003, época em que Riva presidia a Assembleia e Silval era primeiro-secretário. O clima estava tenso por conta da Arca de Noé e o noticiário dava conta que o MPF e o MPE queriam botar Bosaipo e Riva atrás das grades. Por outro lado, o corporativismo dos deputados da legislatura levantava trincheira em defesa dos nobres colegas. Nesse cenário, longe dos olhos da população, os heróis do desmantelamento do esquema do Comendador sentaram frente a frente com os dois deputados suspeitos e Silval.

O juiz e o procurador corriam contra o relógio pra pegar Dante e desmoralizar Riva. Na reunião, Julier e Taques propuseram a Riva, Bosaipo e Silval que eles denunciassem Dante e Armando no caso das promissórias. Se aceitassem, os dois os protegeriam com perdão judicial para tirá-los do foco da ação penal para julgar o caso. À época ainda não existia o benefício da delação premiada, mas o Brasil concedia perdões tomando como parâmetro a legislação dos Estados Unidos. Riva falou por ele, Bosaipo e Silval: “Não sei de nada e mesmo que soubesse não sou dedo-duro”. Em tom áspero, despachou o juiz e o procurador. Naquele momento – 22 promissórias à parte, porque isso precisa ser esclarecido – surgiu à animosidade que alimenta o discurso de ódio de Taques contra Riva.

Taques e Julier saíram de mãos abanando do encontro. Bateram a porta. Deixaram para trás um deputado de nariz levantado, figura osso duro de roer. Indiferente a eles, Riva tocou a vida e nela acabou se enrodilhando nos escândalos em que se meteu. Julier não conseguiu pegá-lo e não conseguirá, porque saiu da magistratura federal. Taques o tem nas mãos, não esconde sua raiva por ele, mas sabe muito bem fazer o jogo da legalidade, que nesse caso, trocando em miúdos, é comer pelas beiradas.

Em setembro de 2004, promovido por merecimento para a Procuradoria Geral da República em São Paulo, Taques deixou Mato Grosso. Entrevistado pelo jornalista Carlos Martins, do Diário de Cuiabá, pouco antes de tomar posse em sua nova Procuradoria, referiu-se ao Comendador observando que em agosto de 1996, ao assumir o cargo em Mato Grosso, “conhecia a fama de Arcanjo, mas não sabia de suas implicações com o poder político”. Arrematou ponderando que “(mesmo sem o Comendador) o braço político (de sua organização) ainda está atuante”.

Dois meses depois da ida de Taques para São Paulo, Julier feriu Dante com a ajuda do procurador Mário Lúcio Avelar, que também atuou na Arca de Noé. Avelar pediu e o juiz determinou busca e apreensão na casa de Armando e na Amper, o que foi cumprido pela Polícia Federal em 9 de novembro.

Avelar fundamentou o pedido num inquérito policial que também desencadeou a quebra dos sigilos fiscal e bancário de Armando e da Amper. O procurador batia na tecla de que haveria irregularidades nas operações de empréstimos internacionais tomados por Armando junto ao Bank of Boston e o Deustche Bank por suas agências no Uruguai, em operações que levavam o endosso do Comendador e de sua empresa off-shore uruguaia Aveyron S/A.

“Aceitar a tese de que o poder econômico de João Arcanjo Ribeiro influenciaria os negócios de empresas mato-grossenses até fora do país passa a ser algo absurdo e impensável”, afirmou o delegado da Polícia Federal em Mato Grosso Marcelo Sálvio Rezende Vieira, que presidiu o inquérito que investigou Armando e a Amper. Em resumo: a operação contra o irmão de Dante nasceu morta.

Mato Grosso aplaudiu a Arca de Noé, que o livrou do Comendador. O entusiasmo com o desfecho do caso criou uma barreira que impediu a população de enxergar os interesses politiqueiros de Taques e Julier que vieram à tona com o desmantelamento do esquema do jogo do bicho e dos cassinos mato-grossenses. Pior: não foram apenas os dois que puxaram brasas pra suas sardinhas, pois Avelar também se juntou a eles.

Em 2010, com duas cadeiras do Senado em disputa Taques se elegeu pelo PDT, com 708.440 votos (24,38%) tendo na suplência José Medeiros (PPS) e Paulo Fiúza (PV). O mais votado ao cargo foi Blairo (PR), com 1.073.039 votos (37,08%) tendo em sua chapa partidária os suplentes Cidinho dos Santos e Rodrigues Palma. Em 2014, pelo mesmo partido, Taques disputou e venceu em primeiro turno a eleição ao governo numa dobradinha com Carlos Fávaro (PP), com 833.788 votos (57,25%) pela coligação “Coragem e Atitude para Mudar” formada pelo PDT, PP, DEM, PSDB, PSB, PPS, PV, PTB, PSDC, PSC, PRP, PSL e PRB. Naquele ano, Taques renunciou ao cargo no Senado abrindo vaga para Medeiros. No final de 2015 o governador filiou-se ao PSDB, o mesmo partido que tentou implodir em 2003.

Julier deixou a magistratura para enveredar pela política e em 2014 bateu às portas do seu velho partido pra se filiar com a garantia de ser candidato ao governo, mas os companheiros Willian Sampaio e Alexandre Cesar, da cúpula partidária, lhe disseram “não”. Willian e Alexandre Cesar guardavam a sete chaves um conchavo do PT com o PMDB para repetir em Mato Grosso a dobradinha nacional de Dilma Rousseff com Michel Temer.

Desencantado com os companheiros, Julier foi fisgado pelo PMDB, que lhe acenou com a legenda e o palanque ao governo. O que ele não sabia é que Bezerra, que comanda a sigla peemedebista, na verdade o recebeu de braços abertos com a única intenção de lhe dar uma tremenda rasteira. Bezerra o jogou para escanteio. Em busca de espaço, Julier migrou para o PDT e no começo de 2016 assumiu o cargo de vice-presidente do diretório municipal de Cuiabá.

O segredo de Willian e Alexandre Cesar era a chapa Lúdio Cabral (PT) e Teté Bezerra (PMDB) ao governo pela coligação “Amor a Nossa Gente”, da coligação PT, PMDB, PROS, PR e PCdoB, que ficou em segundo lugar no pleito, com 472.507 votos (32,45%). Teté é mulher de Bezerra e à época era deputada estadual. Na disputa quem ficou em terceiro lugar foi Janete Riva (PSD), que encabeçou chapa partidária com Aray Fonseca de vice, na coligação “Viva Mato Grosso” formada pelo PSD, PTC, PTN, PEN, PRTB e SD; Janete conquistou 144.440 votos (9,92%). O lanterna foi José Roberto Cavalcante (PSOL), que recebeu 5.570 votos ((0,38%) tendo em sua chapa o candidato a vice-governador Marco Natale, seu correligionário.

Em 25 de novembro de 2013, por ordem do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão no gabinete de Julier na 1ª Vara da Justiça Federal em Cuiabá e em sua casa, dentro da Operação Ararath que desde 2011 investigava, entre outros, crimes de lavagem de dinheiro e agiotagem que teriam movimentado mais de R$ 500 milhões em Mato Grosso. Julier foi acusado num inquérito relatado pelo desembargador federal Luciano Tolentino Amaral de favorecer a então construtora Encomind, que mais tarde mudaria o nome de fachada para Guaxe-Encomind, numa sentença parcialmente favorável a ela, no dia 6 de março de 2012. Trata-se de um mandado de segurança impetrado pela Encomind em 15 de agosto de 2011 requerendo que a Receita Federal excluísse das parcelas previstas, em um acordo para pagamento de débitos tributários, valores relativos a créditos fiscais alcançados pela decadência, bem como os cobrados a título de honorários advocatícios. Julier reconheceu que a Encomind teria realmente efetuado “o pagamento de parcelas mensais superiores ao montante que seria devido após a revisão dos débitos consolidados e a consequente exclusão do indébito”.

A fase de Ararath que chegou a Julier foi deflagrada 13 dias antes das buscas e apreensões contra ele. Seus primeiros alvos foram a residência e o escritório do empresário Gérsio Marcelino Mendonça Neto, o Júnior Mendonça, suposto chefe do esquema investigado.

Em janeiro de 2014 a desembargadora Selene Maria de Almeida, do TRF da 1ª Região, acolheu parcialmente, em caráter liminar, um pedido de Julier para reaver documentos e bens apreendidos na Ararath.

Avelar foi para Tocantins, onde no começo de 2014 deixou a função na Procuradoria e se filiou ao PPS com a declarada intenção de disputar o governo. A filiação do ex-procurador foi junto ao diretório nacional, mas o presidente do diretório no estado, deputado estadual Eduardo do Dertins (Eduardo Bonagura), a desqualificou: “Ele é apenas mais um filiado”, ironizou o dirigente partidário. Eduardo controla o PPS tocantinense e usou sua força para exorcizar Avelar, que ficou sem a Procuradoria e sem palanque.

Armando continua atuando na área empresarial em Mato Grosso e sobre ele e sua empresa não pesam mais acusações, como aquela feita por Taques, Avelar e Julier.

Dante, que esteve no turbilhão das suspeitas, antes e depois delas travou muitas lutas políticas no clandestino MR-8 e no MDB/PMDB, PDT e PSDB, aos quais pertenceu.

A trajetória de Dante na vida pública, fora do MR-8, começou em 1976, ano em que se candidatou, mas não conseguiu se eleger vereador pelo MDB de Cuiabá, ficando na suplência da bancada emedebista formada por Gilson de Barros, Odil Moura, João Torres e Aldísio Cruz. O resultado não o esmoreceu. Ao contrário, injetou mais sangue político em suas veias e, dois anos depois, o eleitorado lhe outorgou mandato de deputado estadual pelo Manda Brasa, juntamente com Márcio Lacerda, Isaías Rezende, Paulo Nogueira, Roberto Cruz, Jalves de Laet e João Torres.

Em 1982, pelo PMDB, Dante se elegeu deputado federal juntamente com os correligionários mato-grossenses Gilson de Barros, Márcio Lacerda e Milton Figueiredo e os governistas do PDS Jonas Pinheiro, Ladislau Cristino Côrtes, Bento Porto e Maçao Tadano. O PMDB e o PDS surgiram com o fim do bipartidarismo da Arena e do Manda Brasa; o primeiro na verdade é a nova nomenclatura do velho MDB.

O mandato de deputado federal deu notoriedade a Dante, por conta da emenda das diretas-já, de sua autoria, que mesmo não sendo aprovada sacudiu o Brasil contra o regime militar. Sua presença na Câmara foi interrompida em dezembro de 1985 por conta de sua eleição, com 61% dos votos, para prefeito de Cuiabá em outubro daquele ano. Ele assumiu a prefeitura em 1º de janeiro de 1986. Dante conquistou a prefeitura, mas permaneceu pouco tempo no cargo. Em 28 de maio de 1986 renunciou e o vice-prefeito e coronel da reserva do Exército Estevão Torquato (PMDB) cumpriu o restante do mandato. Com a renúncia, o Homem das Diretas trocava o Palácio Alencastro pelo cargo de titular do recém-instalado Ministério da Reforma Agrária e do Desenvolvimento Agrário criado pelo presidente da República José Sarney.

O ministério, ao invés de abrir portas a Dante, fechou até as janelas do PMDB para ele. À época, nos bastidores se dizia que Bezerra costurou sua fritura com José Sarney. Essa fritura na verdade começou um ano antes, quando Bezerra praticamente impôs a candidatura de Dante a prefeito de Cuiabá, para evitar sua concorrência partidária na candidatura ao governo em 1986 – pleito que foi vencido por Bezerra.

Em 1990, sem mandato e rompido com o PMDB, Dante disputou eleição para a Câmara dos Deputados, foi o candidato mais votado para o cargo em Mato Grosso, mas seu novo partido, o PDT, não alcançou quociente eleitoral para ocupar cadeira. Dois anos depois, pelo mesmo partido, elegeu-se prefeito de Cuiabá, mas interrompeu o mandato ao se desincompatibilizar para disputar e vencer a eleição para governador. O Homem das Diretas deixou a prefeitura em 30 de março de 1994, sendo substituído pelo vice-prefeito e coronel da reserva do Exército José Meirelles.

A vitória ao governo foi massacrante. No primeiro turno Dante recebeu 75% dos votos válidos, derrotando Osvaldo Sobrinho (PTB), que era vice-governador de Jayme Campos (PFL). Quatro anos depois, filiado ao PSDB, tornou-se o primeiro governador reeleito democraticamente em Mato Grosso; naquela eleição o Homem das Diretas recebeu 54% da votação em primeiro turno, batendo seu principal adversário, o então senador Júlio Campos (PFL, agora DEM).

Enquanto governador, Dante criou o Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab). Em seu governo foi construída a termelétrica de Cuiabá e o gasoduto Bolívia-Mato Grosso, para alimentá-la com gás boliviano.

O governo Dante teve alguns escândalos. O extinto Departamento de Viação e Obras Públicas (DVOP) iniciou a pavimentação de um trecho da BR-163 na divisa com o Pará, por delegação do agora também extinto Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (DNER) e que mais tarde seria Dnit. O Tribunal de Contas da União (TCU) descobriu várias sobreposições de preços – o manjado superfaturamento – em muitos itens da construção e suspendeu a continuidade da obra.

Em março de 2002 Dante transmitiu o governo ao vice-governador e correligionário José Rogério Salles, para disputar mandato de senador, mas foi derrotado. Dante recebeu 439.436 votos (19,84%) e os vencedores foram Jonas Pinheiro (PFL – 612.200 votos) e Serys Slhessarenko (PT – 574.701 votos). Naquele pleito as cúpulas petista e pefelista se uniram em defesa do voto casado ao Senado para Jonas e Serys, jogada que foi fatal e jogou por terra a candidatura do Homem das Diretas.

Quase quatro anos após a derrota ao Senado, Dante se lançou candidato a deputado federal pelo PSDB, mas em 6 de julho de 2006 foi derrotado pelo diabetes. Sua mulher, Thelma de Oliveira, também tucana, assumiu a candidatura que seria do marido e se elegeu deputada federal.

MORTE – Longe dos olhos do povo, Dante travava, há alguns anos, uma guerra permanente contra um inimigo que corria em suas veias: o diabetes. Na manhã de 6 de julho de 2006, ele entrou no Hospital Jardim Cuiabá, em Cuiabá, em busca de atendimento. Seu quadro de saúde agravou-se rapidamente. Durante 12 horas uma equipe lançou mão de todos os recursos possíveis na tentativa de salvá-lo; tudo em vão. A frieza do comunicado médico revelou que o paciente perdera a luta contra uma infecção generalizada causada por pneumonia agravada com agudo quadro de diabetes. Mato Grosso perdeu o convívio com a lucidez democrática de seu filho mais conhecido no Brasil, mas herdou o legado de uma das figuras mais respeitadas no mundo político nacional nas últimas décadas: o Homem das Diretas, Dante de Oliveira.

Dante deixou a viúva Thelma de Oliveira. Era filho de dona Maria Benedita de Oliveira e de Sebastião de Oliveira, o Doutor Paraná, ex-deputado constituinte estadual no pós-ditadura Vargas.

Bosaipo foi deputado estadual em cinco mandados consecutivos pelo PFL e PL. Eleito pela primeira vez em 1990, somente saiu da Assembleia em dezembro de 2007 para assumir uma cadeira de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE). Bosaipo acumulou mais aposentadorias que filiações partidárias. Quando chegou ao TCE, levava no bolso do paletó os contracheques que todos os meses, faça chuva ou faça sol, lhe creditam uma aposentadoria de deputado estadual pelo Fundo de Assistência Parlamentar (FAP), uma aposentadoria de governador, por ter exercido o cargo por longos 10 dias em substituição a Rogério Salles e uma aposentadoria enquanto servidor da Assembleia, por quase ter derramado suor em atividades comissionadas.

Pego com a mão na massa pela Arca de Noé, Bosaipo encolheu-se ou, como se diz, acusou o golpe. Mesmo assim, sacramentou mais um mandato parlamentar em 2006 com 25.287 votos. Em dezembro de 2007 um gigantesco esquema político foi montado para acomodar o deputado que estava jururu com a pressão do Ministério Público e sua exposição em alguns órgãos rebeldes da imprensa que teimavam em não rezar pela implícita omertà que reinava entre os empenhos da Assembleia e o dito quarto poder.

Sérgio Ricardo (PR) presidia a Assembleia, mas quem mandava pra valer era Riva. No plenário os posicionamentos podiam ser chamados de monocráticos, porque nenhuma de suas excelências divergia de nada. Riva e o governador Blairo decidiram que Bosaipo iria para o TCE. E foi!

O conselheiro e ex-deputado Ubiratan Spinelli aposentou-se no TCE e sua cadeira ficou para Bosaipo. Júlio Campos, que foi prefeito de Várzea Grande, deputado federal, governador e senador, também pediu pra vestir pijama no TCE e sua vaga foi reservada a Waldir Teis. A Assembleia indicou os dois nomes e Blairo teria que botar o chamegão em ambos, mas não o fez porque Teis, que à época era secretário de Fazenda de seu governo, pertencia aos quadros do Grupo André Maggi, de sua família. A saída foi o governador viajar ao exterior. Blairo foi para Bali, na Indonésia, e o vice-governador Silval recebeu a missão de abrir as portas da dita corte de contas aos dois felizardos.

As duas nomeações passaram pelo rito parlamentar na Assembleia e ambos foram sabatinados. As sabatinas foram espetáculos dantescos. Mauro Savi (PR) disse que aprendeu muito “com o companheiro Bosaipo”. Percival Muniz (PPS) pediu aos companheiros que continuassem defendendo Mato Grosso. Maksuês Leite (PP) destacou a coragem das duas figuras em defesa de Mato Grosso. Adauto de Freitas, o Daltinho (PMDB), declarou-se seguidor de Bosaipo; os dois são radicados em Barra do Garças. Outras Excelências também se desmancharam em elogios do fundo do coração.

A posse de Teis não foi questionada politicamente, mas o Ministério Público tentou barrar Bosaipo com uma ação civil pública fundamentada no fato de o indicado responder a 50 ações por improbidade administrativa. O juiz Luís Aparecido Bertolussi Júnior decretou a nulidade do ato de posse do conselheiro. Mas de nada adiantou a decisão de Bertolussi: Bosaipo recorreu ao Tribunal de Justiça e o desembargador Licínio Carpinelli Stefanini assegurou sua permanência na tal corte fundamentando seu entendimento no princípio da não culpabilidade de quem não foi condenado por sentença com trânsito em julgado.

Bosaipo permaneceu no TCE até março de 2011 quando a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), numa ação relatada pelo ministro Francisco Cândido de Melo Falcão Neto, afastou-o por unanimidade pelo período de um ano, por suspeita de prática de crimes de lavagem de dinheiro e peculato quando deputado. Bosaipo tentou reassumir sua função, mas o STJ rechaçou suas investidas e ratificou anualmente sua decisão.

Em dezembro de 2014, Bosaipo renunciou ao TCE. Sua saída foi uma jogada para devolver à primeira entrância os processos que respondia no STJ por sua prerrogativa de foro.

Arca de Noé foi a operação policial que mais mexeu com a estrutura criminosa mato-grossense. Sua deflagração tinha um alvo: o Comendador, figura pública, que durante muitos anos controlou o jogo do bicho e os principais cassinos em Cuiabá e Rondonópolis. Além disso, também era agiota.

O Comendador atravessou anos dando as cartas em Mato Grosso sem que as polícias, o Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual cruzassem seu caminho. Rico, poderoso, cercado por seguranças policiais e coberto de honrarias ele tinha o poder aos seus pés e se dava ao luxo de divulgar as extrações diárias da Loterias Colibri – nome de sua banca do bicho – no rádio e na TV.

O título de Comendador, que lhe massageava o ego, foi mais um mimo da classe política que tanto o cultuava. Foi o então vereador Marcelo Ribeiro, que em 1987 lhe outorgou a comenda da Ordem do Mérito de Cuiabá, da qual nasceu a auréola rotular de Comendador Arcanjo. Depois o vereador Wilson Coutinho o distinguiu com o Título de Cidadão Cuiabano, com o sim unânime de seus pares. A honraria maior viria em 5  de dezembro de 1997, quando o deputado Paulo Moura o presenteou com o Título de Cidadão Mato-grossense, com a mesa diretora e o plenário da Assembleia em pé, aplaudindo freneticamente; os deputados Riva, Bosaipo, Gilmar Fabris, Dito Pinto, Romoaldo Júnior, Eliene Lima, Jorge Abreu, Zilda Campos, Quincas dos Santos e Manoel do Presidente entoaram coro de vozes ao homenageado.

O império do Comendador começou a ruir por volta das 15h da segunda-feira 30 de setembro de 2002, na Rua Professora Tereza Lobo, em Cuiabá, defronte ao Jornal Folha do Estado, onde o empresário Sávio Brandão de Lima Júnior, dono e fundador daquele periódico, foi executado a tiros. O assassinato de Sávio Brandão foi debitado ao Comendador, que era denunciado pela Folha do Estado de ser chefe do crime organizado em Mato Grosso. O Comendador nega e jura inocência.

O governador Rogério Salles sentiu que precisava tomar providência antes que o crime organizado saísse da penumbra e assumisse as rédeas do Estado. No começo de outubro de 2002, Rogério Salles foi recebido em audiência pelo ministro da Justiça, Renan Calheiros, para falar sobre a violência em Mato Grosso.

O governador disse ao ministro que a situação era insustentável, que MPF, MP e polícia tinham conhecimento do quadro e que faltava apenas uma operação para desmantelar o crime organizado antes que fosse tarde demais.

Renan tentou contemporizar. Rogério Salles foi curto e grosso: “Esta aqui é a chave do meu gabinete. Ou o senhor conserta Mato Grosso ou manda alguém pra lá pra assumir o governo”. Renan deu um suspiro amarelo.

Dois meses depois da audiência Arca de Noé desmantelou o esquema do Comendador. O desmantelamento atingiu políticos e promoveu autoridades.

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3 Comentários

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  1. - IP 201.71.158.130 - Responder

    Obrigado Enock por abrir espaço ao meu livro “O CICLO DE FOGO – BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA DE RIVA”, nesta terra onde muitos querem a condenação de Riva, desde que ela não tenha efeito de um strike sobre o pessoal que gravitava no entorno do homem que dava as cartas no poder. Ao abordar essa relação afugento os partidários da verdade de conveniência. Aceite meu agradecido abraço.

  2. - IP 201.49.165.1 - Responder

    Saudades de Gilson de Barros, grande brasileiro!

  3. - IP 179.118.172.44 - Responder

    E a tal arca de noé, até agora só conseguiu descobrir que o hamster que foi colocado na arca por noé é um rato doente, contaminado com alzheimer. O judiciário de MT não parece fazer muito esforço pra andar com essa arca…ela pode trazer à luz do sol, várias espécies de ratazanas, hienas, urubus, vermes, bactérias e outros animais que se alimentam de dinheiro do erário público, e muitos deles podem, quem sabe, usar togas…

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