VICENTE VUOLO: Se as pessoas tivessem educação adequada, brigariam por transportes ecologicamente corretos

 

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Plano de mobilidade
POR VICENTE VUOLO

As cidades brasileiras pedem socorro. Nos últimos 15 anos, a frota de carros quase triplicou e de motocicletas cresceu cinco vezes. Além de congestionamentos, a poluição atmosférica, causada pela queima de combustíveis, vem interferindo diretamente no equilíbrio do planeta e na saúde pública.

Os efeitos são nefastos para a saúde humana. As partículas mais grossas da atmosfera ficam retidas no nariz e garganta provocando irritação nos olhos e renite alérgica. As partículas mais finas causam danos à parte interna do aparelho respiratório podendo ocasionar câncer de pulmão.
Muitos governantes entendem que para solucionar o problema da saúde pública é preciso construir hospitais e mais hospitais

Daí a necessidade de se reorientar o trânsito, reduzir-se o número de automóveis e ônibus, arborizar mais as cidades e se priorizar o transporte ecologicamente correto sobre trilhos como acontece nos países desenvolvidos.

A Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU), instituída em abril de 2012 pela Lei Federal n° 12.587 estabelece o Plano de Mobilidade Urbana como instrumento de desenvolvimento urbano no Brasil. O Plano deve incorporar os princípios da mobilidade sustentável, com foco no transporte coletivo e não motorizado. Ou seja, metrô, VLTs, bondes e ciclovias devem estar na ordem do dia.

O Plano de Mobilidade Urbana passou a ser requisito para receber recursos orçamentários federais. Os municípios são obrigados por lei a elaborar o projeto de acordo com o Plano Diretor, como integrantes de regiões metropolitanas e deve ser concluído até abril de 2019.

Muitos governantes entendem que para solucionar o problema da saúde pública é preciso construir hospitais e mais hospitais. Essa é uma visão muito limitada e não resolve o problema. Ter educação política nos leva a compreender que devemos evitar as pessoas frequentarem hospitais desnecessariamente. A busca da saúde está em uma vida mais saudável em vários aspectos complementares. As cidades precisam se tornar saudáveis e sustentáveis respeitando o meio ambiente, a partir de duas premissas: a implantação do transporte sobre trilhos, limpo, seguro, rápido, econômico e do saneamento básico com 100% de tratamento de esgoto e da água consumida.

No ano passado, o Instituto Trata Brasil, uma OSCIP de empresas da área de saneamento, calculou que o país gastará mais de 500 bilhões de reais nos próximos 20 anos se não investir em saneamento. O investimento é alto, mas muito mais alto ainda é o gasto em outras áreas, principalmente em saúde, caso não se garanta acesso à coleta e tratamento de esgotos.

Por outro lado, calcula-se que só os congestionamentos em São Paulo e no Rio de Janeiro custem R$ 98 bilhões por ano, isso só com a perda na produção e no gasto com combustíveis. Nas grandes cidades, o tempo que se perde no trânsito caótico e congestionado supera, em média, um mês de vida por ano de cada um de seus habitantes. E ainda não se está contabilizando a violência do trânsito, as mortes e as sequelas. O Sistema Único de Saúde (SUS) gasta cerca de R$ 200 milhões com internações de feridos em acidentes. O custo total de acidentes de trânsito está estimado em cerca de R$ 40 bilhões anuais.

Em janeiro deste ano, por meio de Medida Provisória 818, o governo federal adiou a data limite para abril de 2019. Mas não estamos vendo muita gente se mexendo para isso.

A sociedade tem cobrado muito pouco dos gestores e dos legisladores. Talvez porque não faça as conexões diretas entre a vida de cada um e a política pública de mobilidade. Se as pessoas soubessem ou tivessem educação política adequada, provavelmente estariam brigando por transportes ecologicamente corretos em suas cidades, assim como fizeram os moradores de muitas cidades da Europa.

VICENTE VUOLO é economista e cientista político. Foi vereador em Cuiabá

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