VICENTE VUOLO: O Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos no cultivo de alimentos. São consumidos cerca de 1 bilhão de litros ao ano, o que representa 5,2 litros por brasileiro. A intoxicação por agrotóxico, mesmo aquela silenciosa e que atinge aos poucos as pessoas, é responsável pelo aumento de casos de câncer (especialmente de bexiga), de distúrbios da tireóide e outras dezenas de doenças

 

Vicente Vuolo, economista, é filho de Vicente Emílio Vuolo, senador da República, já falecido

Vicente Vuolo, economista, é filho de Vicente Emílio Vuolo, senador da República, já falecido

por VICENTE VUOLO

As evidências dos malefícios dos agrotóxicos para a saúde das pessoas e para o meio ambiente colocam a ciência em alerta. Especialistas afirmam que é urgente o desenvolvimento de tecnologias mais seguras, que afastem as pragas sem colocar o planeta em risco.
Hoje, o Brasil é o campeão mundial no uso de agrotóxicos no cultivo de alimentos. São consumidos cerca de 1 bilhão de litros ao ano, o que representa 5,2 litros por brasileiro.
Intoxicação por agrotóxico, mesmo aquela silenciosa e que atinge aos poucos as pessoas, é responsável pelo aumento de casos de câncer (especialmente de bexiga), de distúrbios da tireóide, e outras dezenas de doenças.
Para agravar a situação, os profissionais de saúde não estão capacitados para cuidar das intoxicações provocadas por agrotóxicos. A legislação existente está superada e a fiscalização é precária. O resultado disso, nos coloca num patamar sui generis: as denúncias são alarmantes; agricultores perdem animais, plantações e ficam doentes; famílias sofrem pressão para ficarem em silêncio. Ou seja, o momento é de total insegurança.
Outro agravante, é o uso dos aviões agrícolas. Enquanto essas aeronaves foram proibidas na Europa, o Brasil teima em aumentar a sua frota, que já ultrapassa mais de 2.000 aviões agrícolas e 300 empresas registradas. Estamos falando de veneno, lançado por aviões, sobre casas, rios, plantações e pessoas. As chamadas normas operacionais, que estabelecem parâmetros de umidade relativa do ar, velocidade e direção do vento, temperatura ambiente, distância mínima de moradias, mananciais hídricos, viram ficção.
Em Mato Grosso, 54 municípios possuem grandes monoculturas, produzem 70% dos produtos agrícolas e consomem 70% dos agrotóxicos e fertilizantes químicos usados em suas lavouras e pastagens. É o que mostra o estudo desenvolvido pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pela FIOCRUZ.
De acordo com o professor Wanderley Pignati, em 2010, Mato Grosso produziu 6,4 milhões de hectares de soja; 2,5 milhões de milho; 0,7 milhões de algodão; 0,4 milhões de cana; 0,4 milhões de sorgo; 0,3 milhões de arroz; 0,4 milhões de hectares de outros (feijão, mandioca, borracha, café, frutas e verduras) e 27 milhões de bovinos e, consumiu cerca de 113 milhões de litros de agrotóxicos (produto formulado), principalmente de herbicidas, inseticidas e fungicidas.
Segundo Pignati, “em 2006 quando os fazendeiros dessecavam soja transgênica para a colheita com paraquat em pulverizações aéreas no entorno de Lucas do Rio Verde, uma nuvem tóxica foi levada pelo vento para a cidade e dessecou as plantas de 65 chácaras de hortaliças do entorno. Desencadeou surto de intoxicações agudas em crianças e idosos”.
Os dados e amostras foram coletados, analisadas e demonstraram resultados semelhantes nos outros municípios.
Esta semana, em Brasília, o INCA (Instituto Nacional do Câncer) e do Ministério da Saúde divulgaram dados que fazem parte da publicação Estimativa 2014 – Incidência de Câncer no Brasil – que o Brasil deverá ter cerca de 576 mil novos casos de câncer diagnosticados. Os tipos de câncer que mais atingirão brasileiros no ano que vem são os de pele (182 mil caos), de próstata (68,8 mil), de mama (57,1 mil), de intestino (33 mil) e de pulmão (27 mil).
Como vemos, trata-se de uma bomba atômica silenciosa. Quem duvidar pode assistir o documentário “O Veneno está na Mesa”, um filme de Sílvio Tendler, um dos maiores cineastas do Brasil, dedicado a elucidar o cidadão brasileiro sobre o escândalo dos agrotóxicos no Brasil, com depoimentos de agricultores, representantes de consumidores, representantes de multinacionais e da ANVISA.
Enquanto nenhuma providência é tomada, a indústria de venenos agrícolas conta com a nossa ignorância para aprovar, com o aval do Congresso Nacional e do alto escalão do Governo Federal, substâncias de alto poder de toxicidade e proibidas no resto do mundo, para serem despejadas em nossos alimentos, em nossa terra e água.

* VICENTE VUOLO é economista(UnB), pós-graduado em Ciência Política (UnB), ex-vereador (Cuiabá) e Analista Legislativo do Senado Federal.
E-mail : vicente.vuolo10@gmail.com

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