VICENTE VUOLO: Este é o momento de fazermos com que o exemplo de Mandela ultrapasse as fronteiras e inspire todos nós. Precisamos de novas utopias. Acreditar que é possível acabar também, com a apartação. Como em Mato Grosso, com a cortina de ouro que divide os ricos do agronegócio especulativo e os pobres cada vez mais pobres, que vivem em lonas de plástico, sem terra, sem casa e na miséria.

 vICENTE VUOLO defende que o sentimento universal de simpatia e admiração por Mandela inspire líderes políticos em todo o mundo, na busca pela paz e por uma sociedade igualitária.


vICENTE VUOLO defende que o sentimento universal de simpatia e admiração por Mandela inspire líderes políticos em todo o mundo, na busca pela paz e por uma sociedade igualitária.

O ‘pós-Mandela’

POR VICENTE VUOLO

 

 
Como o exemplo deixado pelo homem simples, Prêmio Nobel da Paz, com seu heroísmo de 27 anos de isolamento podem influenciar nossa geração?

Esperamos que o ‘pós-Mandela’ não se limite apenas às conquistas na África do Sul. Um país, hoje, completamente diferente do ponto de vista das relações raciais. Cabe aos seus sucessores, fazer o avanço nas relações sociais, garantindo o mesmo direito de acesso entre ricos e pobres aos serviços sociais, especialmente na saúde e na educação. Afinal, como ele mesmo disse: “A educação é arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”.

Que o sentimento universal de simpatia e admiração por Mandela inspire líderes políticos em todo o mundo, na busca pela paz e por uma sociedade mais igualitária.

Que nunca nos esqueçamos do exemplo de sua força e legitimidade, que conseguiu abolir o apartheid. Uma luta iniciada em 1944, com 26 anos, quando Mandiba criou a Liga Juvenil do Congresso Nacional Africano (CNA). Partido pelo qual se tornaria presidente do país cinco décadas depois. Agora, é de outros, a tarefa de abolir a apartação ao longo dos próximos anos.

Apartação ou Apartheid Social é a diferença, por exemplo, que os brasileiros ricos ou quase ricos começam a assumir em relação aos pobres; é a aceitação da miséria ao lado, com o cuidado de se construir mecanismos de separação.

Apartação tem origem no latim Partire, que significa dividir em partes. No seu sentido social, a palavra foi usada no sentido de uma sociedade partida, separando as pessoas por classe, como o apartheid, separa por raças.

A palavra “Apartação” foi divulgada pela primeira vez em 1992, no livro “O Colapso da Modernidade Brasileira e Uma Proposta Alternativa”; o outro, “O que é Apartação – o Apartheid Social Brasileiro”, publicado em 1994, consolidou o termo de modo a substituir a expressão “aparthied social”, utilizado para indicar o desenvolvimento separado entre incluídos e excluídos, como no caso do Brasil, e não entre brancos e negros como no caso da África do Sul.

Este é o momento de fazermos com que o exemplo de Mandela ultrapasse as fronteiras e inspire também todos nós. Precisamos de novas utopias. Acreditar que é possível acabar também, com a apartação. Como em Mato Grosso, com a cortina de ouro que divide os ricos do agronegócio especulativo – cada vez mais ricos – e os pobres cada vez mais pobres, que vivem em lonas de plástico, sem terra, sem casa e na miséria. É nosso dever cobrar dos governantes, políticas públicas com garantias de oportunidades iguais.

Ou seja, não podemos mais admitir que negros sejam minorias em nossas faculdades. Não podemos mais imaginar que um negro ganhe menos fazendo a mesma coisa na função de um branco. Não podemos negar aos pobres o acesso à escola com a mesma qualidade daquela dos ricos. Enfim, não podemos aceitar que uma criança, desde o nascimento, terá ou não uma boa educação, dependendo da renda dos seus pais.

As manifestações das ruas brasileiras clamaram por um país mais justo, contra a corrupção e pela ética na política. As redes sociais usando a internet constroem uma nova forma de participação política que terá forte influência nas próximas eleições, provavelmente sepultando os tradicionais acordos de gabinete que sempre condenamos.

O mundo ‘pós-Mandela’ que acreditamos ser possível denuncia e combate as injustiças: consiste em assegurar ao filho do mais pobre brasileiro acesso a uma escola tão boa quanto a do filho do mais rico.

 

 

 
* VICENTE VUOLO é economista (UnB), pós-graduado em Ciência Política (UnB), ex-vereador em Cuiabá e analista legislativo do Senado Federal

vicente.vuolo10@gmail.com

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