VALTER POMAR: É radicalizando pela esquerda que conseguiremos derrotar extrema direita

Valter Pomar, historiador

Campanha do Haddad precisa evitar erro de ‘procurar o centro’

POR VALTER POMAR

 

 

 

Até o dia 11 de setembro, as pesquisas de opinião mostravam uma disputa entre Lula e Bolsonaro.

De 12 até 17 de setembro, ocorrem dois fatos marcantes.

O primeiro deles é a transferência de votos, de Lula em favor de Haddad.

Em todas as pesquisas Haddad aparece em segundo lugar.

Se não ocorrer nenhum fato novo, se a transferência de votos de Lula para Haddad continuar no mesmo ritmo, se não cometermos nenhum erro grave, é possível que no dia 6 de outubro Haddad chegue emparelhado ou até em primeiro lugar.

O segundo fato marcante é a consolidação do eleitorado de Bolsonaro.

Se não ocorrer nenhum fato novo, se a decadência das demais candidaturas golpistas continuar no mesmo ritmo, se Bolsonaro não cometer nenhum erro grave, o mais provável é que no dia 6 de outubro ele esteja no segundo turno.

Portanto, a tendência atual é que o segundo turno seja Bolsonaro versus Haddad.

E num segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, a tendência é que o petista seja vitorioso.

O que seria uma catástrofe para o conjunto dos golpistas. Pois seu problema não é com Lula, seu problema é com o PT e com a esquerda.

O que os golpistas podem fazer para evitar isto?

No que diz respeito às alternativas eleitorais (pois um setor do golpismo considera alternativas não eleitorais), há três possibilidades fundamentais:

a) tirar Bolsonaro do segundo turno e colocar um golpista mais palatável, o que a esta altura do campeonato suporia algum tipo de “conspiração”;

a) apoiar Bolsonaro com tudo, negociando salvaguardas como a autonomia do Banco Central e o parlamentarismo;

b) fazer operações extraordinárias para tentar impedir que Haddad e o PT cheguem ao segundo turno.

Há sinais de que diferentes setores do golpismo estão engajados em cada uma destas alternativas.

A terceira alternativa (tirar Haddad do segundo turno) passa, na prática, por ajudar Ciro Gomes.

Isto não é o sonho dourado dos golpistas. Mas, lembremos: o problema principal deles é com aquilo que o petismo representa.

Até o momento Haddad vem crescendo e abrindo distância em relação a Ciro. Mas para que isto continue assim, não podemos pensar nem agir como se Haddad já estivesse no segundo turno e, portanto, como se já tivéssemos cumprido a tarefa de ganhar e consolidar o eleitorado popular lulista.

Tampouco podemos aceitar a linha de ir ao centro, para conquistar o eleitorado de centro, para assim derrotar o fascismo.

Embalados pelo raciocínio acima descrito, alguns setores defendem que a “defesa da democracia” é o aspecto central da campanha, nos cabendo a) estender a mão para os “setores-golpistas-porém-democráticos” e b) mandar sinais para os “mercados” de que é o bicho não é tão feio assim.

O principal problema do raciocínio e das ações acima descritas, é que elas nos colocam numa “camisa de sete varas”.

Afinal, ao admitir que é preciso ir ao centro para derrotar a extrema direita, aqueles setores facilitam a vida de quem está tentando convencer o eleitorado de que o PT não é a melhor alternativa para quem deseja derrotar o fascismo.

A tentativa de convencimento envolve o seguinte discurso: “se o PT for ao segundo turno, o antipetismo pode dar a vitória para Bolsonaro. E se o PT ganhar o segundo turno, os bolsonaristas vão dizer que é fraude e os militares podem dar um golpe. Logo, para evitar que as coisas fiquem piores do que estão, seria melhor colocar no segundo turno um antigolpista que não seja do PT”.

Lembremos que, em 1989, algo parecido foi proposto por Brizola a Lula: que ambos renunciassem, apoiando o quarto colocado, que teria supostamente mais chances contra Collor. O quarto colocado era Mário Covas, do PSDB.

Claro, para que o discurso acima tenha alguma credibilidade, é preciso que Haddad pare de crescer e é preciso que Ciro comece a crescer.

Acontece que as ações destinadas a ir ao centro para derrotar a extrema direita, podem efetivamente atrapalhar a transferência de votos de Lula para Haddad e podem, também, contribuir para o crescimento de Ciro.

O problema não está, evidentemente, em enfatizar a democracia. O problema está em nos associarmos aos políticos tradicionais, permitindo que outros capitalizem o repúdio à política tradicional. O problema está em falar para os setores médios e deixar de falar para os setores populares. O problema está em achar que é preciso acenar para os mercados e, em nome disso, não garantir para o povo que vamos dar um “cavalo de pau” naquilo que os golpistas fizeram. O problema está em dissociar a democracia da luta contra o neoliberalismo.

Por exemplo: é certo atacar Bolsonaro por ser de extrema-direita, mas não devemos esquecer de falar do programa econômico-social de Bolsonaro.

Quem fala que votaria em Alckmin, se Alckmin estivesse no segundo turno, apenas para derrotar Bolsonaro, não está contribuindo para derrotar Bolsonaro.

Pois se a disputa deixar de ser “golpistas versus não golpistas”, se cair no esquecimento a disputa “neoliberais versus antineoliberais”, se a disputa passar a ser “Bolsonaro contra o resto do mundo da política”, isto ajudaria Bolsonaro. E ajudaria a limpar a barra do resto do golpismo.

Os golpistas estão fazendo outras operações para reduzir a transferência de votos de Lula em direção a Haddad.

Por exemplo, impedir que se associe positivamente Lula com Haddad, especialmente junto aos setores populares, que serão os que vão decidir a parada.

As únicas associações permitidas/divulgadas serão aquelas que possam ser exploradas negativamente.

Nossa resposta deve ser: nunca esquecer nem minimizar o fator Lula.

Os golpistas também buscam impedir ou dificultar que falemos de nosso programa, tentando nos obrigar a debater a trilogia poste/prefeitura/corrupção.

Nossa resposta deve ser: 2018 não é o terceiro turno das eleições para prefeito, nem é uma batalha entre supostos corruptos e supostos não corruptos. 2018 é o momento de fazer vitoriosa a pauta do povo, nosso programa, nossas propostas de emergência.

O eleitorado petista e uma parte do eleitorado lulista já estão transferindo o voto e fariam isto para qualquer um que fosse indicado.

Mas outra parte do eleitorado lulista ainda está analisando/decidindo o que vai fazer e para conquistar esta parte precisamos, entre outras coisas, lembrar que não estamos no segundo turno.

E lembrar também, especialmente diante das recentes declarações de Bolsonaro e de generais, que se para nós “eleição sem Lula é fraude”, para eles “eleição com PT” é fraude.

O único jeito de derrotar isto é reconquistando o máximo de apoio popular. É radicalizando pela esquerda, colocando em pauta os temas de interesse do povo, que conseguiremos derrotar a extrema direita.

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