VALTER POMAR E OS DESAFIOS DO 2º TURNO: “Nestes últimos anos a burguesia girou para a direita, mas na classe trabalhadora, que é maioria, não houve um giro total para a esquerda. Se essa nova geração que entrou no mercado de trabalho agora, devido às políticas do PT, tivesse acesso a uma mídia e uma educação mais democrática teria virado para a esquerda. Como isso não ocorreu, o que prevalece é a ideologia dominante, de uma guinada conservadora”

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Dirigente do PT diz que falta de reformas política e da comunicação explicam eleições

Para Valter Pomar, partido tem dificuldade de angariar votos da juventude trabalhadora por falta de educação política. São Paulo é cenário crítico que pode inviabilizar projetos da legenda no longo prazo

por Sarah Fernandes, da Rede Brasil Atual

São Paulo – Apesar de acreditar na reeleição de Dilma Rousseff (PT) no segundo turno, o integrante da Executiva Nacional do PT Valter Pomar, dirigente da Articulação de Esquerda, avalia que o partido não tem mais conseguido conquistar os votos da juventude trabalhadora, uma parcela da população que historicamente guinaria para a esquerda. A leitura é de que esse descolamento é explicado por falta de educação política e de uma mídia mais democrática. Por isso, ele considera que o PT não pode mais esperar para fazer a reforma do sistema político, nem para democratizar a comunicação.

“Nestes últimos anos a burguesia girou para a direita, mas na classe trabalhadora, que é maioria, não houve um giro total para a esquerda. Se essa nova geração que entrou no mercado de trabalho agora, devido às políticas do PT, tivesse acesso a uma mídia e uma educação mais democrática teria virado para a esquerda. Como isso não ocorreu, o que prevalece é a ideologia dominante, de uma guinada conservadora”, disse. “O partido vai ter que fazer um esforço redobrado de sindicalização e de mudanças nos currículos educacionais. Vamos ter de fazer nos próximos quatro anos o que não fizemos nos últimos 12.”

Mais do que isso: será fundamental fazer a reforma política e concretizar um processo de redemocratização da mídia, bandeiras históricas da esquerda, que não avançaram nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva e no governo de Dilma. “No médio prazo conseguimos gerenciar, mas, se isso não for tratado, virará um problema incontornável”, diz.

“A gente deveria ter feito esforço maior pela reforma política e deveria ter implementado a democratização da mídia. Dava para ter caminhado muito nessas duas áreas mesmo sem o Congresso Nacional aprovar. Temos que fazer isso se não a possibilidade de derrota em 2018 será grande. E teremos que fazer com uma situação menos favorável”, diz. “O fato de não termos feito a reforma política e a democratização da mídia criou uma contradição: a gente continua ganhando a eleição presidencial, mas naquele terreno onde os defeitos da estrutura são mais evidentes, que é no Congresso, a gente começa a ter queda.”

No pleito eleitoral decidido ontem (5), parlamentares conservadores avançaram de maneira representativa no Legislativo federal. A bancada do PSDB na Câmara ganhou 11 cadeiras, passando de 44 para 55, um crescimento de 25%. Já a bancada do PT perdeu 20% dos seus deputados, passando de 88 para 70. Apesar disso, a ala petista ainda continua sendo a maior.

No Senado, que renovou um terço da Casa, cinco dos novos 27 parlamentares são do PMDB. O PSDB e o PDT têm quatro cada, o PSB elegeu três, mesmo número do DEM, enquanto PT, PTB e PSD conseguiram eleger dois cada. PR e PP fizeram um. A maior bancada a partir de 2015 será a do PMDB, com 19. Em seguida ficam o PT, com 13, e o PSDB, com 10.

Na leitura de Pomar, entre 1994 e 2002 houve um avanço considerável do PT nas eleições para o Congresso e para os governos estaduais. De 2003 a 2010 houve um período de equilíbrio, no qual a bancada federal se manteve, com alguma flutuação, além da presidência da República. “Batemos no teto e quando isso acontece em algum momento você cai.”

Pomar não acredita que um Legislativo mais conservador vá favorecer o candidato à presidência pelo PSDB, Aécio Neves, em um segundo turno. “Ele já foi favorecido nesta votação de ontem, mas não a ponto de ele ganhar as eleições. Tem uma diferença entre o que é conservadorismo político e ideológico e o que é conservadorismo econômico e social.”

“Em termos morais o eleitorado é mais conservador, em principal sobre temas como corrupção. Mas em termos sociais e econômicos ele é mais progressista. As pessoas querem mais salário e mais emprego, que é a nossa pauta”, continua. “Tanto que Aécio e Marina Silva (PSB) foram obrigados a dizer que eram favoráveis ao Bolsa Família. E eles estavam se dirigindo ao eleitorado deles.”

Dentro do esperado
Para Pomar, a disputa com Aécio no segundo turno é melhor para o PT do que uma disputa com Marina. “Desde a eleição de 2012 tínhamos claro que a eleição de 2014 ia ser resolvida no segundo turno e em uma disputa duríssima. Para nós não é surpresa. Mas imaginamos que seria ainda mais duro se fôssemos para o segundo turno com uma candidatura aliada à base do governo.”

“Para mim é melhor que a disputa seja contra o Aécio porque não teremos margem para confusão. Não tem chance das pessoas se iludirem com as propostas de Aécio: ele é um playboy, representante do capital e dos setores da elite. É jogo claro, o que não significa jogo fácil. São dois projetos distintos para o país, que vão se enfrentar pela sétima vez desde 1989”, disse.

O ex-dirigente nacional do PT rechaça a ideia que os votos de Marina irão automaticamente para Aécio. “Ele aproveitou o desmonte da Marina para angariar para si parte do eleitorado que oscilava. Os votos da Marina vão se dividir. O eleitorado dela é composto de vários segmentos: uma parte vem desde 2010, que é de gente que não é tucana mas está insatisfeita com o PT; tem uma parte que ela agregou nessa reta final, que é de gente de direita que viu nela uma chance de derrotar o PT e voltou para o Aécio; e tem uma parte que é progressista e quer mudança.”

São Paulo freia
O avanço conservador em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, não será um empecilho para a vitória de Dilma no segundo turno na opinião de Pomar. Os paulistas elegeram Geraldo Alckmin (PSDB) para governador no primeiro turno, José Serra (PSDB) para senador e levaram para Câmara Federal os deputados federais Celso Russomano (PRB) e Pastor Marco Feliciano (PSC) e o estadual Coronel Telhada (PSDB) na lista dos três mais votados. Na disputa presidencial, Aécio obteve 4,2 milhões de votos a mais que Dilma no principal colégio eleitoral.

“O quadro de São Paulo é muito grave, mas não define a eleição presidencial. Tem um quadro no país interior que nos permite ganhar, mas é preocupante porque revela uma cristalização do voto no PSDB no estado. Tem uma parte do eleitorado aqui que sabe que o governo Alckmin é ruim, mas vota para derrotar o PT”, diz. “Tem que ser feito um trabalho político em São Paulo. Vamos ganhar eleição em âmbito nacional mesmo que aqui não consigamos reverter. Mas vamos ter que fazer estudo político para derrotar esse Tucanistão.”

Em São Paulo, a situação tende a ser mais crítica para o PT também porque no estado se concentra uma grande parte da classe trabalhadora que entrou há pouco no mercado de trabalho e tem desconfiança em relação ao partido. “Isso não será decisivo. Vamos ganhar sem desmontar essa equação, mas no médio prazo temos que desmontar porque senão São Paulo será um freio para as mudanças sociais que queremos para o país.”

Na opinião de Pomar, três fatores foram decisivos para endurecer o pleito eleitoral para o PT, que foram aprofundados nas reivindicações de junho de 2013. O primeiro deles é que cresceu o setor da juventude trabalhadora que não tem identidade no voto com Dilma e Lula e que olha o partido com dúvida. “Não é gente de direita, é gente que deveria votar no PT, mas que ao longo de 2013 e 2014 foram se distanciando ou nem chegaram a estar junto, porque começaram a ter vida política agora e não tem memória da classe trabalhadora.”

O segundo fator é que se aprofundou o antipetismo nas camadas médias, uma parcela da população que esteve presente nas manifestações de junho de 2013 e no movimento Não Vai Ter Copa. “É uma mistura de mau humor com ódio de classe, que tem a ver com o fato de que nos nossos governos a classe trabalhadora melhorou de vida e tirou deles o status, que entendem como fundamental. Os pobres estão no aeroporto, eles odeiam isso e opõe a culta no PT.”

Outro fator chave é que o grande capital, representado pelo empresariado, reforçou sua posição anti-PT e anti-Dilma, por conta da política econômica defendida e adotada pelo governo. “O capitalismo aqui é muito dependente dos salários baixos e do desemprego alto e a desigualdade social do país os fortalece. Nós fomos contra isso”, conclui Pomar.

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