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VALTER POMAR E A ENTREVISTA DE ZÉ DIRCEU: O fato é que não tentamos (nós, do PT) fazer autofinanciamento popular. E se não tentamos, como podemos dizer que não era possível?

Valter Pomar e Zé Dirceu

A entrevista de José Dirceu

Por Valter Pomar

No nono episódio da primeira temporada de Casa de Papel, o personagem Berlim diz que “a ética é importante. Mas a estética, também”.

A frase me veio à cabeça ao ler a entrevista do companheiro José Dirceu à jornalista Monica Bergamo, concedida no dia 18 de abril e publicada no jornal Folha de S. Paulo no dia 20 de abril.

Trata-se da entrevista de alguém disposto a continuar travando o bom combate em defesa das posições que ele considera justas. Hoje, mais do que nunca, esta postura altiva é fundamental.

Várias passagens da entrevista mostram que José Dirceu sabe que é personagem de uma grande tragédia, no sentido grego da palavra; e que sua trajetória ainda renderá muitas análises, biografias, romances e, como ele mesmo diz, “até um filme”.

É possível que só as próximas gerações da esquerda brasileira tenham o distanciamento histórico necessário para analisar esta dimensão “ética” e “estética” de um processo histórico que, ademais, ainda está em curso.

Afinal, companheiros de Partido e contemporâneos de várias situações podemos, com muita facilidade, cair ou na hagiografia ou no “ajuste de contas”.

Entretanto, nós que estamos militando aqui e agora não temos como deixar de fazer a análise política das opções que nos levaram à presente derrota, materializada entre outras coisas na prisão de Lula, de Dirceu e de Palocci (cito este último, pedindo licença para a ética e para a estética, inclusive para lembrar que em todo bom enredo, há sempre um personagem execrável).

A entrevista concedida por Dirceu contribui em alguma medida para esta análise. Claro que uma entrevista publicada na grande imprensa contém inúmeras limitações. Entre elas, de espaço. Segundo me disseram a entrevista teria durado cerca de quatro horas, portanto muita coisa deve ter sido cortada. Além disso, sempre existe a possibilidade da edição ter alterado ênfases e opiniões. Isto só o próprio Dirceu pode dizer.

De toda forma, a entrevista tal como foi publicada já faz parte do debate político acerca dos rumos do Brasil, da esquerda brasileira e do PT. Por isso, mas também por prezar e respeitar a correta posição de Dirceu, de continuar participando da luta e do debate político, vale a pena estudar e comentar o que foi publicado.

Como já lembramos acima, logo nas primeiras respostas Dirceu afirma que vai ler, estudar e “continuar fazendo política”, mesmo na “hipótese” de – palavras da jornalista — “entrar agora na cadeia para não sair nunca mais”.

Muitas das respostas publicadas são dedicadas a relatar e analisar temas do cotidiano do sistema prisional, a avaliar a situação e atitudes de outros presos, inclusive de Lula, a quem recomenda “conviver com outras pessoas, pensar o país, pensar no que está acontecendo. Ele não está proibido de fazer política só porque está preso”.

Dirceu considera que ”a resistência simbólica foi necessária. E nós ganhamos essa batalha política e midiática”. E agrega: “Eu fiz da minha vida praticamente o Lula. E me mantive leal a ele. Não faltaram oportunidades, amigos e companheiros que me empurravam para romper com ele, em vários episódios. Mas eu sempre achei que a obra do Lula, a liderança dele, o que ele fez pelo país, compensava qualquer outra coisa”.

Acerca de si mesmo, Dirceu diz ter o “apoio da quase absoluta maioria da militância do PT porque ela é generosa. E essa solidariedade não é porque todos concordam com minhas ideias nem pelo que fiz na minha vida profissional recente. É pelo que eu fiz pelo PT, pelo Brasil, pelo Lula. É pelo que eu represento”.

Fala que “não deveria ter feito consultoria. Ela cria um campo nebuloso entre os meus interesses como consultor e o interesse público”. Confessa que às vezes fica dividido sobre o tema e conclui dizendo que, na verdade, foi “condenado por razões políticas. Eu não fui condenado pelas consultorias que prestei”.

Neste momento da entrevista publicada, a jornalista pergunta o seguinte: “Lula fez um governo aprovado por 83% dos brasileiros. Por outro lado, desvios de milhões foram comprovados. O fato de vocês terem financiado campanhas com dinheiro de estatais e caixa dois não seria razão para um arrependimento, uma autocrítica?”

Dirceu responde que “nós temos que denunciar o que fizeram conosco, e não foi por causa de nossos erros. O legado do Lula, o nascente estado de bem-estar social que ele consolidou, está sendo todo desmontado. Estão desfazendo a era Lula como quiseram desfazer a era Getúlio”.

Segundo Dirceu, “estamos do lado certo e o saldo de tudo o que fizemos é fantástico”. E engata o seguinte raciocínio: “a Igreja Católica Apostólica Romana tem uma história de crimes contra a humanidade. Não vou nem falar das Cruzadas ou da Inquisição. Se eu for olhar para ela, vou mandar prender todos os padres e bispos porque a pedofilia é generalizada. Ou não é? Mas é a Igreja Católica Apostólica Romana. A vida é assim. O mundo é assim. O PT cometeu erros? Muitos. Mas tem uma coisa: o lado do PT na história, o nosso lado, é o lado do povo, do Brasil”.

Não pretendo aqui comentar esta “análise comparada” entre a atuação de um Partido e de uma Igreja. Apenas quero destacar que, ao menos para os petistas que destacam a necessidade de fazer autocrítica e reconhecer erros, não se trata de buscar absolvição para garantir a vida eterna. Nosso objetivo é mais chão: corrigir os erros, para reduzir as chances de sermos derrotados da próxima vez em que tentarmos.

Indo ao ponto. Logo depois da digressão sobre a Igreja Católica, Monica Bergamo pergunta a Dirceu: “Não tinha outro jeito de financiar campanha?” Dirceu responde: “Tem: o autofinanciamento com apoio popular. Mas, nas condições que estávamos enfrentando, era impossível fazermos isso”.

E por qual motivo, segundo Dirceu, era impossível?

Diz ele: “porque a dinâmica da vida política, do sistema, é essa. A solução seria financiamento público com lista [partidária]. O PT lutou, o Lula lutou também por isso. Mas ninguém quis fazer”.

Não sei se a edição prejudicou a exposição do ponto de vista de Dirceu. Ele diz que tentamos fazer financiamento público, mas “ninguém” – ou seja, a maioria dos partidos burgueses – quis fazer.

Mas não se trata de um tema do passado. Hoje, mais do que antes, é preciso tentar viabilizar o autofinanciamento. Mas isso não ocorrerá se a direção partidária achar que “nas condições que [estamos] enfrentando, [é] impossível fazermos isso”.

Outra passagem importante da entrevista é quando Monica Bergamo pergunta se Dirceu alguma vez “imaginou que a história terminaria com o senhor e o Lula presos?”

Dirceu responde que “a tentativa de derrubar o nosso governo eu sempre imaginei”. Em seguida ele fala de vários casos em que houve golpes e conclui dizendo que “só derrotamos tentativas de golpe quando a gente tem armas. Estou falando sério”.

A jornalista pergunta: “Mas essa seria uma possibilidade?” E Dirceu responde: “A solução hoje é igualzinha à que eles fizeram. Desestabilizaram o governo Dilma. Impediram que ela aprovasse uma pauta de ajustes. Colocaram milhões de pessoas na rua e buscaram uma solução legal. Nós devemos fazer a mesma coisa”.

A jornalista insiste: “E têm força para isso?” E Dirceu responde: “Temos. Pode demorar dois, quatro, seis anos, mas temos”.

Talvez por conta da edição, neste ponto da entrevista perguntas e respostas misturam duas questões. Uma questão é o que faremos para derrubar o governo golpista. Outra questão é o que deveríamos ter feito para nosso governo não ser derrubado por um golpe.

Sobre esta segunda questão, Dirceu afirma que “só derrotamos tentativas de golpe quando a gente tem armas. Estou falando sério”.

Não tenho dúvida de que Dirceu está falando sério. E não tenho dúvida de que, no limite, as armas pesam. Mas antes das armas, outros fatores pesam: a maioria parlamentar, o sistema judiciário, os meios de comunicação, a capacidade de mobilização popular…

E a verdade é que, em cada uma destas frentes, inclusive no trato com as forças armadas e as polícias militares, prevaleceu no PT e em nossos governos uma postura que, direta ou indiretamente, contribuiu para a situação em que estamos hoje.

Esta postura, baseada numa visão estratégica segundo a qual seria possível fazer mudanças sem rupturas, precisa ser superada. Ou então reconquistaremos o governo e seremos novamente derrubados, e assim sucessivamente.

Dirceu prevê que “o país vai ter um longo ciclo de lutas. Mas primeiro é ganhar a eleição. No segundo turno, se as esquerdas se unirem, teremos força para isso”.

É verdade que haverá um longo ciclo de lutas e também é verdade que devemos buscar ganhar a eleição. Mas ganhar as eleições presidenciais de 2018 é uma hipótese, reforçada pelas pesquisas. O golpismo opera pesado contra isto e, portanto, uma derrota também é uma hipótese, reforçada pela prisão de Lula.

Na hipótese de uma vitória nossa, o golpismo vai tentar impedir a posse, o que vai colocar a luta de classes um patamar acima. Por outro lado, quais seriam os desdobramentos de uma derrota?

Dirceu certamente tem muito a dizer a respeito destas questões. É muito provável que parte do que ele tenha falado a respeito na entrevista, tenha sido cortado pela edição. O que foi publicado, entretanto, não aborda todas as hipóteses que devemos considerar, já que nossa tática eleitoral em 2018 deve servir tanto para vencer e governar em condições distintas de 2003-2016, quanto servir para acumular forças para uma oposição radical a um governo golpista “eleito” por uma fraude.

Dirceu deixa claro que seu candidato “é o Lula. Nós temos que lutar pela liberdade dele, mantê-lo como candidato e registrá-lo em agosto”. Mas logo em seguida, a entrevista atribui a ele a seguinte afirmação: “daqui a 60 dias, o Lula vai tomar a decisão do que fazer, consultando a executiva, os deputados”.

Se esta passagem da entrevista corresponde mesmo ao que Dirceu pensa e falou a respeito, então a conclusão é a de que Lula será candidato até a impugnação. Depois disso, “Lula vai transferir de 14% a 18% de votos para o candidato que ele apoiar”.

Ou seja: se a candidatura Lula for impugnada, o PT apoiará outro nome, que será decidido por Lula após escutar a executiva e deputados.

Espero sinceramente que esta passagem da entrevista tenha sido editada. E que Dirceu considere outras hipóteses, não apenas esta. E que considere, também, todos os desdobramentos de uma tática que aceite participar de uma eleição fraudada. Desdobramentos que podem resultar em situações muito mais bizarras do que votar em Joaquim Barbosa num eventual segundo turno.

Sobre as dificuldades de transferir votos para outra candidatura, no caso de Lula estar preso, Dirceu diz ser “a coisa mais fácil que tem. É só ele falar o que ele pensa”. Chega até a dizer que “o lado de lá tem a TV Globo, o aparato judicial militar e o poder econômico. Mas está mais desorganizado e enfraquecido do que nós”.

Que o golpismo está dividido, isto é verdade. Mas esta divisão, ao menos até o momento, não impediu nossa derrota em grande parte das batalhas travadas desde 2015. Se não quisermos ser derrotados de novo, é melhor não subestimar os riscos. E um dos riscos que temos pela frente é legitimar uma fraude.

Frente a isto, vale a pena debater todas as hipóteses e não descartar a priori nenhuma, mesmo que pareça “impossível fazermos”. E vale, também, não cair na inocência de achar que os golpistas que colocaram Lula na cadeia estão “desorganizados” e “enfraquecidos”.

Isto estaria perto da verdade se estivéssemos diante de uma eleição normal. Mas estamos diante de uma eleição em tempos de golpe. Quando, frente a um povo que aprendeu a usar o voto como arma, os golpistas apelam para outro tipo de armas, a começar pela fraude

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