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URARIANO MOTA: O fundamental compositor Raul Ellwanger

O fundamental compositor Raul Ellwanger

13.06.11_Raul EllangerPor Urariano Mota no Blog da Boitempo

Amigos, Raul Ellwanger está lá no Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, e compõe em silêncio, à margem da indústria cultural, e talvez por estar assim à margem compõe como poucos compositores brasileiros nos últimos tempos. (E se vocês não sabem, observem que para os postos à margem todo o tempo é fecundo, pois sempre será tempo de plantar longe do barulho do mercado, que enche o artista de vento e vaidade).

Vocês perdoem o entusiasmo, que explicarei lá no fim. Pois então, o gajo (ou como se diz em gauchês, “o cara”?), mas em bom português universal devemos dizer, o fecundo companheiro lá de Porto Alegre acha pouco o que produz e me enviou de presente 3 CDs: Ouro e Barro, País da Liberdade e Teimoso e Vivo. Os CDs foram entregues a mim por Joelma, assessora na Comissão da Verdade de Pernambuco, no dia do lançamento do meu romance O filho renegado de Deus. A humanidade é assim, a gente pensa que vai ser útil e recebe o que não esperava.

Então no último sábado, em atenção ao mimo e à qualidade do compositor, me deixei recolhido a ouvir as músicas e anotar com paciência o que me pareceu – negócio impressionista mesmo, que não sou crítico de profissão ou por tendência de trabalho cultural. Então o “crítico”, apenas movido por sua sensibilidade, anotou:

1. Ouro e Barro: o disco se abre com um coral que é um arranjo e um arraso. Coral feminino que nada fica a dever àquele que acompanhava Tom em apresentações (aquele onde canta uma belíssima mulata que vem a ser casada com um tal de Molembaum, que toca feliz o seu violoncelo). Gente, o coral é tão bom, que a gente se pergunta, por que não se estende mais? Depois, Raul escreve uma canção para a sua cidade, de nome “Dorme, Porto Alegre”, que é um cântico para a amada que dorme enquanto o seu amante vela, entre a angústia e a ternura. Mas que Porto Alegre que nada, amigos. A música é para todas as cidades que amamos como a uma pessoa íntima, a música vai para o Recife, João Pessoa, Salvador, “Oropa, França e Bahia”, como Ascenso Ferreira cantava em um genial poema. E sinto que o CD inteiro é um concerto que se fraciona em composições, como se fossem momentos diversos de um só concerto.

2. Bueno, daí passei para o CD seguinte, o dever obriga. Vou para o País da Liberdade. E anoto, de modo mui profissional e sério como um Einstein de fancaria:

Composição “Cinco séculos igual”, boa. “Muito além do horizonte”, outra música muito boa. E anoto até a faixa 9: “sinto que as composições de Raul Ellwanger crescem com outros intérpretes – ele possui muitas músicas que revelam a sua beleza para o grande público quando com outros cantores/cantoras e outros arranjos”. Em dúvida, vão no YouTube e pesquisem em dupla “Elis Regina” “Raul Ellwanger”, e “Mercedes Sosa” e “Raul Ellwanger”…

Então eu cheguei a uma composição que leva o nome de “Eu só peço a Deus”. Caralho – não há outra interjeição, perdoem. Isso não é palavrão, é sentimento de regozijo pelo achado. Então o Einstein de latão desaparece e fica no seu devido lugar, o lugar de um suburbano comum, de um homem comum, de tantos pecados e omissões a prestar um dia a um tribunal da consciência, ouvindo até agora enquanto escrevo a música. O quem leva a dizer: “Eu só peço a Deus” é uma composição que justifica uma vida. Grande música, grande testamento, grande rumo e norte:

“Eu só peço a Deus
que a dor não me seja indiferente
que a morte não me encontre um dia
solitário sem ter feito o que devia.

Eu só peço a Deus
que a injustiça não me seja indiferente
pois não posso dar a outra face
se já fui machucado brutalmente”

Pois bem, eu havia escrito e enviado para o músico as linhas acima, quando recebi a seguinte mensagem do genial compositor à margem do hit parade:

“Caro Urariano.

Desculpa a demora em responder, tua generosidade foi imensa.

Gosto de ouvir comentários de ‘não especialistas’ sobre temas distantes a eles, pois no caso da crítica musical a coisa está difícil… e o diletante revela sempre coisas insuspeitas.

Na canção ‘Bonito’ (uma marcha-rancho, gênero abandonado) o arranjo vocal é de Pablo Trindade, que dirige o Expresso 25, grupo vocal extraordinário, e as 4 meninas são do mesmo grupo. Diferentemente daquele grupo que cantava com Jobim, não cantam em uníssono harmonizam a 4 vozes, por isso no primeiro chorus pude expor o tema à capella, sem ficar monótono.

‘Dorme, Porto Alegre’ nasceu de repelão ao voltar do exílio e cantar pela primeira vez na Esquina Democrática, olhando do alto o Mercado à beira-rio (lago…). ‘Um dia eu volto pra casa….’, sinto certa afinidade contigo por esse carinho por nossas cidades.

O disco País da Liberdade é todo de canções de León Gieco vertidas ao português. Espero trazê-lo ano que vem para um grande xou descomemorando a traição de 64.

‘Eu só Peço a Deus’ está se convertendo na canção dos Direitos Humanos aqui no sul, coisa que já é em vários lugares. León Gieco é seu autor no original castelhano, vertido já para mais de 50 idiomas. Feita como um libelo à quase-guerra Pinochet X Videla de 78, regravada por Mercedes Sosa, em 83 ficou logo associada à questão das Malvinas. Cantei a estrofe da ‘injustiça’ no encontro dos comitês civis com a Comissão da Verdade em Brasília em 2012.

Teimoso e Vivo foi meu primeiro disco, dez anos atrasado pela clandestinidade, perseguição e exílio. Lançado em 79, paralelo à nossa mezzo-Anistia, (anda em ditadura/carimbos da censura, vetos), traz na bagagem muita música latino-americana e muito sentimento de perda nas letras, ademais de alusões veladas à nossa ‘luta’, chegando mesmo a uma série de insinuações (inconscientes naquele momento) que remetem a uma possível resistência através da violência. Quando bati os olhos no poema “Teimoso e Vivo”, do grande poeta Nei Duclós, fiquei eletrizado e fiz a música. Sim, pois os esbirros haviam espalhado pela cidade que ‘meu corpo havia chegado morto e mutilado de algum vale, lacrado em alumínio para inumação imediata’, gerando muito sofrimento na família e amigos. Por isso gostei de gritar que estava vivo, e teimoso…

Pequeno exilado remete de novo à cidade da gente, no caso do menino que vai ao exílio por causa da emigração paterna. A citação dos bairros, calçadas, malandros, ademais da voz quebrada na palavra ‘Floresta’ da nativa do Bairro do IAPI, nossa espetacular Elis Regina, conduz de novo aos amores urbanos. ‘Pelas ruas que andei, procurei…’ (Barreto/Valença).

Bom, espero ter dado umas dicas à altura de teu comentário gentil.

Abraço desde um lindo sol que vai aquentando nosso Parque da Redenção!!!”.

E aqui terminaria o texto, e vocês ficariam com a impressão de que ao meu entusiasmo falta discernimento. Mas não vou levar essa para o juízo final da consciência não. Primeiro porque tenho de reforçar o tributo que Raul faz a Nei Duclós, um poeta e cronista cujo valor vai muito além do presente dia. Sobre Nei Duclós uma vez escrevi que ele em algumas crônicas faz o melhor Rubem Braga lhe pedir a bênção. E segundo porque não é justo que eu apareça como um homem gentil no instante em que escrevo: “Eu só peço a Deus é uma composição que justifica uma vida”. Não, a gentileza não é meu domínio. Pois que inveja boa eu tenho, quanta felicidade, amigos, recebemos quando refletimos sobre:

“Eu só peço a Deus
que a dor não me seja indiferente
que a morte não me encontre um dia
solitário sem ter feito o que devia…”.

Em dúvida, acompanhem, ouçam e escutem a canção aqui:

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Soledad no Recife, de Urariano Mota, já está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.

FONTE BLOG DA BOITEMPO

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