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Filósofo Pierre Levy:’Futuras revoluções serão tuitadas’

O filosofo Pierre Levi afirma ser necessário investir em alfabetização digital para elevar o nível de debate na internet. Apesar do crescente controle da rede, tanto por governos autoritários como pelos democráticos, o professor da Universidade de Ottawa, no Canadá, acredita haver mais liberdade de expressão com a rede do que sem ela.

Frenesi do abaixo-assinado pela internet desafia a classe política

Petições atraíram mais de 3 milhões de brasileiros no último ano; organizações internacionais voltam suas atenções ao País

BRUNO LUPION – O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO – Dois minutos. Esse é o tempo necessário para acessar um manifesto online, ler os argumentos e se tornar um apoiador. No último ano, mais de 3 milhões de brasileiros agiram dessa forma, e as duas maiores organizações mundiais de abaixo-assinados abriram filiais no País. A novidade piscou no radar da classe política, que ainda tenta aprender como lidar com esse mecanismo de pressão.

 

Dida Sampaio/AE – 20/02/2013Abramovay (à esq.), da Avaaz, entrega a senadores petição contra Renan Calheiros

Os números são superlativos e devem acompanhar o avanço da banda larga no País – hoje disponível para 30% dos brasileiros. Dois milhões assinaram uma petição para que a Câmara dos Deputados votasse o projeto da Lei da Ficha Limpa. Um milhão e 600 mil colocaram seu nome contra a eleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para presidir o Senado. Recém-eleito para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o pastor Marco Feliciano (PSC-SC) já é alvo de um manifesto pela sua destituição com 280 mil apoiadores.

O fenômeno virtual desperta desconfiança de setores da sociedade que temem que os abaixo-assinados online consolidem o “ativismo de sofá” e enfraqueçam formas tradicionais de protesto, como intervenções urbanas ou marchas em vias públicas.

Mas, para pesquisadores, a tendência é irreversível: a internet consolidou um novo espaço público para debate e formação de opiniões e, assim como provocou mudanças na cultura e na economia, também provocará transformações na política.

Para Pedro Abramovay, diretor de campanhas da Avaaz, ONG internacional de ativismo online que reúne 20 milhões de apoiadores, sendo 3 milhões brasileiros, o modelo tradicional de democracia representativa, com um voto a cada quatro anos, é insuficiente para dar conta de uma realidade na qual os cidadãos podem se conectar rapidamente em torno de um objetivo comum. “Tenho certeza de que a política nunca mais vai ser a mesma”, afirma.

Abramovay cita como exemplo o ato de compartilhar uma petição no Facebook, para ele um comportamento “profundamente político” na medida em que a pessoa assume uma posição diante de seus amigos e abre espaço para contra-argumentos. “As pessoas passam tanto tempo na internet, ela é uma parte tão importante para nossas vidas, que considero despolitizador dizer que a política feita ali é menos importante”, diz.

Atento ao fenômeno, o parlamento alemão desenvolveu sua própria plataforma oficial para que a população organize abaixo-assinados. Se a petição alcançar 50 mil apoiadores, os deputados são obrigados a discutir o tema. A Casa Branca, nos Estados Unidos, tem sistema parecido, o “We The People”.

Lobby. A Avaaz é financiada por doações voluntárias e se define como uma ONG de defesa do interesse público, e não uma mera plataforma de petições. A entidade deleta abaixo-assinados que ferem seus princípios e aposta suas fichas em outros. Sua força vem da união dos manifestos com uma estrutura azeitada para fazer lobby. “A gente combina esse instrumento de petição online com uma equipe que tem acesso a parlamentares, que sabe fazer isso”, diz Abramovay, ele mesmo um conhecedor dos meandros de Brasília: foi ex-secretário nacional de Justiça do governo Lula.

Na campanha contra Calheiros, a Avaaz visitou gabinetes de senadores e contratou uma pesquisa do Ibope, que apontou que 74% dos brasileiros seriam favoráveis à renúncia do alagoano.

Os pastores Silas Malafaia e Feliciano já avisaram que vão processar a ONG após terem petições a seu favor bloqueadas pela entidade. Contrariado, Feliciano organizou um manifesto em seu próprio site e reuniu 150 mil apoiadores. “Isso mostra que nossa atuação tem tido um efeito político grande”, diz Abramovay.

Alternativa. Concorrente da Avaaz, a Change.org tem 23 milhões de usuários no mundo – sendo 400 mil brasileiros – e abriu seu escritório no País em outubro. A entidade não deleta petições, permite que duas campanhas com objetivos opostos coexistam na plataforma e afirma não fazer lobby.

“Não cabe à nossa equipe julgar o que é relevante ou não. Nossa política é confiar na transparência, para o bem e para o mal”, afirma a diretora de campanhas Graziela Tanaka.

A organização é financiada pela venda de espaço em seu site para quem busca dar maior visibilidade à sua campanha, modelo similar ao adotado por Google ou Facebook.

Em dezembro, o Ministério Público do Estado de São Paulo hospedou na Change.org um dos primeiros abaixo-assinados promovidos por uma instituição pública no País. O manifesto, contrário à aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37, que retira o poder de investigação criminal dos promotores, obteve 40 mil assinaturas.

“Se não atingir a imagem do político, ele não vai se mexer. Nesse ponto, os abaixo-assinados podem ter êxito”, afirma o professor Jorge Machado, coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação da USP.

Ele alerta, no entanto, que as campanhas online tendem a cair no esquecimento com facilidade, pois estão intimamente ligadas ao impacto de uma notícia. “É diferente do que levar dois ônibus de manifestantes para a Câmara. Mas uma não exclui a outra”, afirma.

Legislação. O senador Pedro Taques (PDT-MT) anunciou que apresentará, nos próximos dias, uma PEC para incorporar as petições online ao processo legislativo.

Batizado de Medida de Urgência Popular, o mecanismo pretende impor regime de urgência a projetos de lei que tiverem o apoio de um porcentual do eleitorado – o número exato ainda não foi definido.

“Precisamos criar um login cidadão para que as pessoas possam participar”, diz Taques. Segundo ele, a Justiça Eleitoral seria responsável pelo desenvolvimento de um sistema online que garanta a autenticidade das petições.

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‘As futuras revoluções serão tuitadas’, diz filósofo, que defende o ‘ativismo de sofá’

Idealizador do termo ‘inteligência coletiva’, professor falou ao ‘Estado’ sobre as petições online

 ‘Não sou contra o ativismo de sofá’, afirma o filósofo francês Pierre Lévy. Para Lévy, o poder de analisar dados vai desempenhar um papel fundamental na política do futuro

Em entrevista pelo Twitter, filósofo francês diz que petições online são uma manifestação legítima de política

Por Bruno Lupion O ESTADO DE S PAULO

São Paulo – Idealizador do termo “inteligência coletiva” e autor de livros sobre cibercultura desde a década de 90, o filósofo francês Pierre Lévy afirmou, em entrevista ao Estado nesta segunda-feira, 11, que os abaixo-assinados pela internet são expressões legítimas da vontade dos cidadãos.

Ele nega que esse tipo de mobilização online seja menos legítima do que as manifestações tradicionais, como protestos na rua, e afirma ser necessário investir em alfabetização digital para elevar o nível de debate na internet.

Apesar do crescente controle da rede, tanto por governos autoritários como pelos democráticos, o professor da Universidade de Ottawa, no Canadá, acredita haver mais liberdade de expressão com a rede do que sem ela.

Lévy também prevê que o poder de reunir dados e analisá-los vai desempenhar um papel fundamental na vida política do futuro.

Confira abaixo a íntegra da entrevista, concedida pelo Twitter.  Em suas respostas, Lévy fez links para outros documentos que embasam suas ideias, reproduzidos abaixo.

Qual a relevância dos abaixo-assinados online para pressionar os parlamentares? 

Eu penso que seja tão relevante como os abaixo-assinados escritos.  Uma petição é uma petição.  Uma petição online só é mais fácil de organizar!

Sendo mais fácil, o sr. não acha que há um risco de promover o “ativismo de sofá” nesse tipo de campanha?

Eu não sou contra o ativismo de sofá.  Qualquer forma que o cidadão use para se expressar é positiva.

Você vê aspectos da democracia direta nesse tipo de movimento? 

Não.  Democracia direta ocorre quando a decisão está nas mãos das próprias pessoas.  I prefiro ver os abaixo-assinados como formas de expressão.

Essas ferramentas online também não podem dar voz e força à intolerância e grupos que estimulam o ódio?  Como lidar com isso?

Você está certo.  Essas ferramentas online podem ser utilizadas pelas forças da escuridão e do ódio, e elas são!  Não há outra forma de lidar com isso além de promover educação, alfabetização e alfabetização digital.  E nós devemos também combater as má ideias online e offline.

Discussões na internet e comentários de notícias sempre parecem tender à difamação e agressão recíproca.  Por quê?

Lembre que, na história, discursos de ódio floresceram também na imprensa e em jornais.  Não é uma especificidade da internet.  Isso também não é exclusividade do online: polêmicas sempre existiram.  Veja, por exemplo, as propagandas negativas na TV!  Pessoas responsáveis devem promover uma conversa civilizada, em vez de demonizar o outro.

Os governos pelo mundo estão dando uma resposta à altura a essas novas formas de engagamento político? 

Eu acho que há um crescente senso da importância da esfera pública digital.  Em geral, há uma mudança no debate público em direção ao mundo digital.  De um lado, as pessoas podem debater e se expressar de forma muito mais eficiente com ferramentas digitais.  Por outro lado, governos podem hoje ser muito mais transparentes, e os cidadãos precisam exigir essa transparência.

Há um risco de aumento de controle da internet pelos governos? 

Claro!  Em primeiro lugar, ditaduras, como China, Irã, etc, fazem censura e vigilância de seus oponentes.  Aliás, os serviços de inteligência de todos os países tentam analisar os dados criados pelas pessoas .  Porém, de forma geral, há muito mais liberdade de expressão com a internet do que sem ela.

As futuras revoluções serão tuitadas? 

As futuras revoluções… E as futuras contra-revoluções!  Eu anuncio a ciberdemocracia há mais de dez anos.  A evolução política em torno do globo provou que minhas previsões estavam certas.

Quais serão os próximos passos da ciberdemocracia?

Primeiro, uma melhora na inteligência coletiva online, uma inteligência coletiva mais reflexiva, mais hábil para conhecer a si mesma.  Depois, uma melhor transparência dos governos, como justificativas e visualização das consequências das decisões orçamentárias.

É isso, professor.  Você gostaria de dizer algo mais sobre o assunto?

Sim, eu acho que o domínio dos dados e da análise dos dados vai desempenhar um papel fundamental na vida política do futuro.

 

FONTE O ESTADO DE S. PAULO

 

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