Tufão (Murilo Benício em “Avenida Brasil) e o prazer da leitura

Gol de letra

O ex-jogador Tufão, personagem de Murilo Benício na novela ‘Avenida Brasil’, descobre o prazer da leitura com Kafka, Flaubert e Freud

ELISANGELA ROXO
MARCO RODRIGO ALMEIDA
FOLHA DE S PAULO

A conversa a seguir é coisa de novela. “Tá lendo o quê?” “Um livro que a Nina me emprestou. Madame Bova… de Bovári.” “Qual é a dessa madame aí?” “Essa é louca. Sabe que ela trai o marido, mas não gosta do amante? Vai entender!” “Coisa de intelectual.”

Quem experimenta ler pela primeira vez o clássico “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, é o ex-jogador de futebol Tufão (Murilo Benício), de “Avenida Brasil”, no ar às 21h na Globo.

Na cama, antes de dormir, ele conversa sobre suas leituras com a mulher, a vigarista Carminha (Adriana Esteves).

“O sonho é a estrada real que leva ao inconveniente”, declamava ele, no capítulo da última terça, ao ler um trecho de “A Interpretação dos Sonhos”. Mas só o próprio Freud, ou “Fred”, como Tufão diz, pode explicar a licença poética de trocar o “inconsciente” do original por “inconveniente”.

A mansão de Tufão tem biblioteca, mas os livros eram apenas decorativos, todos ocos. Os reais chegaram pelas mãos de Nina (Débora Falabella), que busca vingança contra Carminha e, para atingir seu objetivo, trabalha como cozinheira da família.

Os livros são usados por ela para abrir os olhos do ex-jogador sobre o mau-caratismo da mulher, que o trai com o próprio cunhado.

“Ela usa a cultura e a culinária para seduzir as pessoas da casa. É uma inversão de valores. A criada tem mais cultura do que os patrões”, explica João Emanuel Carneiro, autor de “Avenida Brasil”.

DE OLHOS BEM ABERTOS

A leitura não é um hábito comumente retratado em novelas. Neste caso, porém, além de Flaubert e Freud, Tufão também ficou vidrado no livro “A Metamorfose”, de Franz Kafka (leia acima).

É a literatura que desperta o personagem de Benício. “Tufão vai ficar mais sensível. Nina mostrou um novo mundo a ele, o que vai fazê-lo se apaixonar por ela. Mais do que isso eu não falo nem bêbado”, brinca Carneiro.

O autor criou relações entre as tramas dos livros e da novela, um artifício divertido que chamou a atenção dos pesquisadores.

“Estamos diante de uma metalinguagem, uma narrativa telenovelesca com referência a uma literária”, diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia pela USP.

Para Nilson Xavier, autor de “Almanaque da Telenovela Brasileira”, a narrativa traz uma mensagem quase subliminar. “Espero que Nina dê o romance ‘O Conde de Monte Cristo’, de Alexandre Dumas, a Tufão, para lhe revelar sua vingança”, torce.

O autor adianta, porém, que o próximo exemplar da estante de Tufão será o clássico da literatura nacional “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

Especialistas em literatura acreditam que as citações em “Avenida Brasil” podem atrair a atenção do público para obras canônicas.

“Não importa o meio, o importante é estimular o contato com essas obras. Quem sabe não pode estimular o nascimento de leitores ou até de escritores?”, pergunta Leyla Perrone-Moisés, professora de literatura francesa na USP.

Essa, porém, não é a intenção primordial de Carneiro. “Acho excelente que novela tenha um papel social, mas não sou engajado. O uso da literatura é uma questão da trama, e não um merchandising social”, explica.

Tércio Redondo, professor de literatura alemã da USP, diz que livros não são manuais de respostas simples e diretas. “A literatura abre os nossos olhos para o que a indústria cultural ignora.” Ao que tudo indica, eles já estão abrindo também os de Tufão.

‘É preconceito dizer que só jogador não lê’
DE SÃO PAULO

Caso não fosse um personagem de novela, Tufão poderia conseguir bons conselhos de leitura com seu colega de profissão Paulo André.

Zagueiro do Corinthians, Paulo não só é um devorador de livros como já se arriscou a escrever um para chamar de seu.

Em março, ele lançou “O Jogo da Minha Vida” (ed. Leya; 304 págs; R$ 39,90), que aborda os bastidores e dilemas da carreira de um atleta profissional de forma bem diversa do clichê “dinheiro-mulher-farra”.

Em seu site, www.pauloandreoficial.com.br, também publica textos sobre futebol e política esportiva no Brasil.

“Por causa do futebol, saí de casa cedo. Como ficava muito tempo sozinho na concentração, criei o hábito de ler”, conta.

Entre seus livros prediletos, ele cita “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, “O Príncipe”, de Maquiavel, e “O Banquete”, de Platão.

“As pessoas em geral leem pouco no Brasil. É preconceito dizer que só atleta não lê.”

Nas categorias de base, no início da carreira, ele costumava emprestar inúmeros livros aos colegas de alojamento, sobretudo obras de Sidney Sheldon.

No Corinthians, o papo com os colegas William Capita e Wallace é mais cabeça. “A gente falava de psicologia e filosofia. No elenco atual, a maioria leu o meu livro e fiquei feliz com os comentários.”

(MRA)

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