gonçalves cordeiro

TARSO GENRO percorre, com a estética de Jorge Luis Borges, os labirintos do fascismo bolsonariano

Borges

Borges e os labirintos do fascismo

Tarso Genro (*)

Jorge Luis Borges (1889-1986) foi um grande escritor e um escritor original. Nem todo o grande escritor é original e grande, como foram Dostoiewski, Shakespeare e Machado. E um grande escritor nem sempre é original, como Philip Roth, Jorge Amado ou Sholokhow. Mas o que vejo de original e genial em Borges é que nem sempre – quando a gente o lê – sabe-se se estamos perante um conto escrito por ele, um ensaio literário, o prefácio de um livro imaginário ou um pequena lição de filosofia da estética. Borges parece que nos trata como dementes incompletos à espera de uma razão imaginária, mas, se entramos no seu jogo verbal saímos mais lúcidos, pois aprendemos a separar a demência da arte, o desequilíbrio das emoções que ele mesmo nos causa, da forte tensão cultural que revela nos seus textos.

Em conversas “aleatórias” com minhas filhas, irmãos e amigos, às vezes invento frases de Borges, que suponho teria lido em algum livro remoto. Outras vezes cito-as corretamente, mas nem sempre me recordo de desmentir as que inventei. Na verdade nem sempre sei quais são as minhas e quais as dele, mas certamente pela qualidade da fala, os que me ouvem sabem diferenciar o autor. Borges é inimitável! E o é principalmente porque diz coisas sem sentido em sentenças dotadas de uma serenidade irracional e lírica, que tem uma grandiloquência quase épica. Quando vem a frase, todavia, o leitor cria um sentido: põe uma certa dose de razão nela e passa a se perder – daí conscientemente – no infinito do seu labirinto.

Esta singular fusão de Borges – da realidade alienada somada à vida empírica dos heróis falsificados – é o que promete ser o Governo Bolsonaro: ultra-liberalismo globalizante e amoralidade fascista, integrada com o uso permanente da “exceção”. É o que se pode esperar de um economista egresso do pior setor neoliberal da Escola de Chicago (Paulo Guedes), um Ministro de Relações Exteriores alucinado e pós-moderno, que diz que a Europa é um “vazio cultural” (Ernesto Araujo), juntos com o Juiz (Moro), que manipulou como quis nosso Sistema de Justiça em cumplicidade com a mídia oligopólica. No centro de tudo um ensaio de aiatolá possesso, que esbraveja armas e ódios por todos os poros.

Eles promoverão, então, aquele absurdo do convencimento borgiano, sem a sua alma literária, através de um labirinto barroco com uma saída prevista que nos levará – como paspalhos – a um brutal atoleiro nas relações internacionais. E a um beco sem saída na questão democrática, que é recorrente na nossa história.

Quando esta ameaça se faz visível e o absurdo começa a se tornar razão falsificada, é melhor buscar metáforas no Borges dos “Textos Cativos”: fugir da circularidade hegeliana da História para, voando dentro do redemoinho borgiano, ver algo de sanidade nesta loucura. Talvez seja impossível, ainda não se sabe, pois o mestre da hipnose fascista pula do ódio aos cubanos às recomendações sobre o trato sexual nas famílias.

Poderá ser vista, tal sanidade? Talvez sim, pois se Borges saía dos seus labirintos pela literatura em estado “puro” -o que não exige nenhuma coerência com o mundo real- os atuais controladores do país nos colocaram num círculo infernal, cuja saída será não a literatura em estado puro, mas a política que os confronte com o mundo real, em estado puro, no qual a sua retórica do ódio não consegue resolver tudo. É no terreno puro da razão política frentista, composta por convergências essenciais, portanto, que temos que enfrentá-los. Primeiro, compreendendo quais são as “suas” razões imediatas, para respondê-las com um programa de civilidade e grandeza, depois, analisando os fundamentos econômicos e sociais da sua loucura, para dizer pacientemente ao povo que ele foi enganado pela farsa dos “não políticos”, que são apenas políticos fascistas ou oligarcas politizados.

A indicação de um Ministro de Relações Exteriores que se opõe religiosamente à globalização num mundo já globalizado, apontando-a – na verdade – como um “pecado”; o próprio Presidente eleito – que enunciou um mandato expulsório dos médicos cubanos que prestavam serviços dignos a 24 milhões de brasileiros (que conheceram o que é Estado através destes serviços); a indicação para o Ministério da Justiça do Juiz Moro, que jogou na cadeia (sem provas) um grande Presidente, para que ele não pudesse concorrer e governar; as indicações sobre o republicanismo, feitas por um Temer patético na TV, celebrando a data da República, ele mesmo golpista e quase-réu; – tudo isso e mais um pouco – mostra que eles terão poucas saídas pela política e pela democracia, o que torna a política mais essencial e a democracia mais exigível. Entre aspas, coloco algumas frases insanas de Borges, que ajudam a devassar a bruma de exceção que nos legaram.

Estamos atravessando momentos de consolidação de um não-projeto, ainda não testado na América Latina, apoiado por setores da população de renda alta, baixa e média, pela ampla maioria dos empresários que se fizeram ricos, graças às políticas públicas de indução ao consumo interno e aos financiamentos dos bancos públicos. Sustentam este projeto, não só um grande contingente de políticos – corruptos ou não – originários de partidos que estavam na situação ou na oposição recentemente, mas também a ampla maioria das mídias tradicionais. Estas – ainda se fazem de desentendidas – fechando seus olhos remunerados para não emitirem juízos negativos sobre as formas fascistas que vem adquirindo o Governo Bolsonaro, criticam alguma coisa no “varejo”, mas preservam o atacado – tornar o Estado impotente para proteger os mais débeis – pois as reformas ainda estão em disputa. É o que lhes faz abrigar o futuro Governo de uma crise terminal precoce.

A tendência ao pensamento único, em construção na sociedade fragmentada da semi-periferia do sistema global, não opera -neste contexto- como consciência totalitária integral, originária da forma estatal. Desenvolve-se fragmentariamente, “de baixo para cima”, impulsionada pelas carências de segurança, escola, saúde, jamais se apresentando como razão política. Nem mesmo como razão de Estado imediata, pois o que pretendem, neste momento, não é um pensamento “único”, mas uma voz “unificada” pelas mensagens do dinheiro que ocupam majoritariamente as redes. Estas – atenção – não formam uma opinião nova, mas reforçam o senso comum já milimetricamente produzido nas mídias tradicionais, que magnificaram o ódio a quem, mal ou bem, não aceita a sua tutela sobre a cultura e a política da vida comum.

Eles, os fascistas, sabem que agora é a hora da consciência – sofrida e manipulada – subtrair do corpo aquilo que ele tem de humano para serem conduzidos, não à estatolatria esgotada, mas às peripécias ilusórias do mercado: o outro é o inimigo e o diferente é o mais fácil de ser abatido. E as mensagens que as pessoas querem ouvir – nestas circunstâncias históricas – não são as destinadas fomentar o desejo de reforma, mas são as pulsões para a eliminação do outro que lhe concorre, aquele que deve ser retirado do meu horizonte, seja para o medo orientada por mensagens que eles querem ouvir para socializar sua mesquinhez virtual, seja pela expulsão, prisão ou encarceramento moral, de quem quer ser livre para viver e amar do jeito que lhe apraz.

Os adeptos do fascismo adoram tudo que lhes afasta do outro, seja através de ondas planejadas de violência, seja através do uso de redes sucessivas, cujas malhas detém os melhores sentimentos humanos, tanto para o reconhecimento do próximo como irmão -que assim deixaria de ser mero objeto na aventura da existência- seja como identidade social e de classe, de passageiros comuns nas naves longínquas do tempo, para a construção da utopia dos iguais. Como se nada fosse “dito” ou “feito”, até a eleição e como se as palavras violentas do Presidente eleito fossem apenas falhas de uma mente ainda em formação, a magna mídia funciona como uma espécie de “órgão múltiplo de uma única consciência” tolerante com o fascismo.

A magna mídia acolhe a sua criatura e os seus delírios em nome das reformas que ele sequer pensava em fazer, mas que agora aceita de bom grado. Com esta mesma disposição, ela tenta controlar seus ímpetos mais violentos -sua pulsão pela morte do “outro”- como se aquele “dito” e “feito”, fossem acidentes de percurso a serem digeridos na democracia tutelada. Nem que esta perca sua essência libertária e diversa e assim torne-se fixada na tristeza da uniformidade do condutor: “como em certos gigantescos planetas áridos, onde o corpo múltiplo de cada consciência é um enxame ou uma nuvem de insetos”. De novo, o velho Borges com suas ideias lancinantes: “Há quem tenha negado o presente. Há metafísicos, no Industão, que disseram não existir um momento em que fruta cai. A fruta está para cair ou está no chão, mas não há um momento em que fruta cai.” Apesar de tudo, por enquanto, só poucos de nós estão chão.

 

Tarso Genro, pensador de esquerda


(*) Tarso Genro, jurista, foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

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