gonçalves cordeiro

Tariq Ali: “Ataque a Assange é ataque à dissidência”

O escritor Tariq Ali (à esquerda) sublinha que o que torna este processo mais grotesco é que Julian Assange (à direita)sequer foi acusado de nada. "Querem que ele vá à Suécia para ser interrogado pelos procuradores. Por que não podem ir ao Reino Unido para interrogá-lo lá, tal como ele sugeriu?

Sobre o caso de Julian Assange, o escritor e ativista Tariq Ali pergunta o que aconteceria se um dissidente chinês se refugiasse na embaixada britânica em Pequim e as autoridades chinesas ameaçassem invadi-la.

Russia Today

Entrevistado pela Russia Today, o escritor e ativista político britânico-paquistanês Tariq Ali afirmou que em diferentes partes do mundo, incluindo no Ocidente, “está em curso um ataque à dissidência”. Ali recordou que ainda na quarta-feira o secretário do Interior britânico se referiu a hacktivistas – não ativistas – querendo dizer ativistas hackers. “Em breve vão dar-lhes a etiqueta de terroristas, ciberterroristas, como alguns já lhes chamam. A partir daí, é um passo muito pequeno até começarem a evitar que se expressem”.

O escritor considera que a cultura do mundo Ocidental “é profundamente hostil a pessoas que promovem fugas de informação ou hackers que atuam de acordo com o interesse público”. Considera assim que por todo o lado a democracia está a ser socavada.

Tariq Ali propõe que se imagine uma inversão de cenário: “Se um dissidente em Moscovo ou Pequim se refugiasse na embaixada britânica e o governo russo, ou o governo chinês ameaçasse que, de acordo com a lei local – não a lei internacional – ia invadir a embaixada e prender o refugiado. Imagine a reação que haveria nos média!”

Para o autor de “O Livro de Saladino”, as ameaças feitas pelo governo britânico acabaram por ajudar a causa de Julian Assange. “Se se ameaça um país de invadir uma embaixada, especialmente se se trata de países ferozmente independentes, como o Equador ou a Venezuela, ele não reage bem a isso. O governo britânico, como é parte dos Estados vassalos [dos EUA], pensa que os outros também deveriam reagir da mesma forma, mas eles pensam diferente”.

Perguntado sobre como é que Assange vai conseguir sair da embaixada, Tariq Ali, que esteve recentemente no Equador e falou com as autoridades do país, disse: “Deixaram-me muito claro em Quito que não vão fazer nada ilegal, querem negociar um acordo com o governo britânico, com o Foreign Office, e enquanto isso não acontecer, Julian vai ficar na embaixada”.

O escritor sublinha que o que torna este processo mais grotesco é que Assange sequer foi acusado de nada. “Querem que ele vá à Suécia para ser interrogado pelos procuradores. Por que não podem ir ao Reino Unido para interrogá-lo lá, tal como ele sugeriu? Os equatorianos dizem que eles são muito bem vindos à embaixada equatoriana de Londres, para interrogá-lo o tempo que quiserem. Mas eles também rejeitaram essa proposta”, diz, ponderando que se o que os procuradores suecos querem é interrogar Julian Assange antes de decidirem se vai ser acusado ou não, “por estas acusações sem grande consistência”, por que não vêm a Londres, fazem o interrogatório e então o acusam – se é isso que querem mesmo fazer? “Mas não fazem nada disso”.

No cenário hipotético de Assange ir para a Suécia, se os Estados Unidos realmente quiserem, “vão apanhá-lo, seja legalmente, sublegalmente ou de forma ilegal”. E sublinha: “Já vimos isso acontecer em toda a Europa. Governos europeus colaborando com os EUA para apanhar pessoas em plena rua. Claro que o fizeram a supostos terroristas, pessoas com barbas, pertencentes a países muçulmanos, ou de origem muçulmana, muitos deles inocentes, diga-se de passagem. Seria a primeira vez que apanhariam um cidadão australiano, de pele branca, de uma cidade europeia, sem a autorização do governo, mas o governo pode fechar os olhos”.

Tariq Ali recorda que nos EUA há uma exigência, dos neoconservadores e não apenas destes, de prender Assange e julgá-lo por atentar contra os interesses dos Estados Unidos. “Espanta-me como é que ele pode ser acusado disso, se nem sequer é cidadão dos EUA. Mas isto é possível, não se pode excluir qualquer possibilidade. Ele tem razão de se preocupar”, conclui.


 

————
OUTRA OPINIÃO

Tomates e ovos podres
 João Pereira Coutinho

O mundo midiático, na sua estupidez, continua a olhar para Assange como um herói da “transparência”

Julian Assange aparece na janela da embaixada do Equador, em Londres. Prepara-se para falar às massas. Não consegue. Uma quantidade generosa de tomates e ovos podres atinge o seu rosto adolescente e pretensamente rebelde. A multidão aplaude. Os jornalistas também. Acabou o circo.

Envergonhado com a humilhação, Assange regressa para dentro da embaixada. Depois de um duche (frio) e de um café (forte), o foragido australiano decide ser homem pela primeira vez na vida e entrega-se às autoridades inglesas. Segue-se a extradição para a Suécia.

“The end.”

Foi mais ou menos por essa altura que eu acordei. Assange ainda falava. Imbecilidades sobre imbecilidades. Infelizmente, ninguém jogou tomates ou ovos podres na cara dele. Deprimi.

Na janela da mesma embaixada, o fundador da Wikileaks vestia o traje de grande mártir da liberdade de expressão -um insulto para qualquer jornalista sério- e pedia aos Estados Unidos para pararem a “caça às bruxas” contra o Wikileaks.

Na cabeça alucinada e apedeuta de Assange, o comportamento de Barack Obama só é comparável à perseguição anticomunista movida pelo Estado americano a alguns dos seus cidadãos em finais da década de 1940.

A comparação deveria ser repulsiva para qualquer criatura com erudição e neurônios. As perseguições anticomunistas do senador Joseph McCarthy foram uma deriva securitária lamentável contra supostos inimigos ideológicos que Washington suspeitava estarem infiltrados no serviço público, no ensino ou na indústria do espetáculo.

As ações de Julian Assange são diferentes: goste-se ou desgoste-se, houve uma revelação objetiva de documentos secretos do governo americano. As vítimas do macartismo eram inocentes. Assange não é inocente.

Mas esse nem sequer é o ponto. Na janela da embaixada do Equador, em Londres, esteve um homem procurado pela Justiça sueca por alegadas agressões sexuais contra mulheres.

E a Suécia, convém lembrar aos amnésicos, é uma democracia europeia civilizada, onde a investigação judicial é séria, os direitos humanos são respeitados -e as garantias de um julgamento justo também. A Suécia não pretende deter e julgar Assange por seus pecadilhos com a Wikileaks. Deseja detê-lo e julgá-lo pelos seus alegados crimes contra duas mulheres em 2010.

Curiosamente, crimes desses costumavam inflamar as feministas de carteirinha. Não mais. Será que o antiamericanismo de Assange perdoa tudo?

Em caso afirmativo, um conselho ao leitor: violar uma mulher pode não ser grave desde que você seja um inimigo declarado da política americana.

Claro que, a pairar sobre esta grotesca novela, existe um equívoco e uma farsa.

O equívoco, alimentado pelo próprio Assange, resume-se em poucas linhas: se houver extradição para a Suécia, a Suécia poderá extraditar Assange para os Estados Unidos onde ele seria julgado por espionagem (um crime punível com a morte).

A hipótese não passa de um delírio teórico e qualquer aluno principiante de direito internacional sabe por que: o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem não permite processos de extradição para países onde existe a séria possibilidade de aplicação da pena capital. Não é a Justiça americana que Assange teme. É apenas a Justiça sueca.

Finalmente, a farsa. E dois nomes sobre ela: Rafael Correa. Honestamente, serei mesmo a única pessoa a sentir genuína náusea quando o presidente do Equador surge em cena como um grande defensor da liberdade de expressão?

Por motivos puramente antiamericanos, o Equador resolveu conceder asilo a Julian Assange. Mas, se Assange fosse verdadeiramente um defensor da liberdade de expressão, ele recusaria os favores de um país onde essa liberdade é artigo raro.

Será preciso lembrar aos colegas de ofício os constantes atropelos que o governo de Quito comete sobre jornalistas críticos do presidente?

O mundo midiático, na sua estupidez bovina, continua a olhar para Julian Assange como um herói da “transparência” e da luta contra o “imperialismo”.

Seria preferível optar por tomates e ovos podres. Assange não passa de um foragido vulgar e de um manipulador de massas talentoso.

jpcoutinho@folha.com.br

fonte FOLHA DE S. PAULO

————————–

Herói dos esquerdopatas
POR REINALDO AZEVEDO

Vocês precisariam ficar um tantinho do lado de cá do laptop para perceber: Julian Assange se tornou o herói da corja que se quer “antiimperialista”, aquela gente esquisita e burra que chama os americanos de “estado-unidenses” para deixar claro que a “América pertence a todos nós” – vale dizer: a vocês, a mim, a Hugo Chávez e a Daniel Ortega… Aliás, catei um “estado-unidense” dia desses num livro didático de história de uma das minhas filhas, que abri por acaso. Fui ler com mais atenção o resto. Lixo esquerdopata em escola particular “dazalite”… Entendo. Quando não queimam livros, tentam queimar o cérebro das crianças.

Chega a me surpreender que alguns tantos bípedes, que andam com a coluna ereta e dão uma boa destinação ao cérebro, ainda não tenham percebido qual é a do tal Julian e o confundam com um paladino de uma sociedade “verdadeiramente democrática”, que seria aquela onde não há segredos.

Vênia máxima, isso não passa de uma grande bobagem. Sociedades sem segredos são as totalitárias. Quem ainda não compreendeu que o sigilo, dentro das regras pactuadas, também serve à proteção das liberdades públicas e individuais não sabe o que é democracia. O estado americano está submetido ao controle democrático, o que não é o caso de Assange.

Um delinqüente, que vive sendo chutado daqui – mas volta sempre -, esquerdopata assumido, resolveu bordar suas boçalidades em defesa de Assange com uma frase que ele deve ter acariciado mais ou menos como Michelangelo fez com o seu Moisés, ao mirar a perfeição: “Liberdade só serve se for irrestrita”. Ulalá! Vai ver é por isso que ele se alinha com um governo que passa a mão na cabeça dos tiranos: já que a liberdade não pode ser irrestrita mesmo, então vamos dar vivas às ditaduras!

Assange e liberdade de imprensa não se confundem. Os jornalistas continuam a publicar o que ele vaza, sem restrições. Mas um estado que não se ocupasse de tentar punir a cadeia criminosa que resultou no vazamento teria de ser dissolvido. Ai dos americanos – e do mundo! – se o governo dos EUA desse de ombros para o fato!

Há mais: Assange usa as informações, de que se tornou monopolista – é mentira que o WikiLeaks seja hoje só um site de vazamentos, sem filtros -, para fazer uma espécie de chantagem branca. Ora anuncia que tem informações sobre um grande banco, ora promete acelerar os vazamentos, depois recua um pouquinho… O megalômano se quer o adversário nº 1 da Casa Branca, o “outro” a quem o governo americano deveria, de algum modo, se reportar em suas decisões.

Não dá! Assange faça um site para divulgar os segredos das ditaduras, e renderei a ele a minha homenagem. Enquanto ele servir para fazer com que os EUA pareçam um lugar pior do que a China, eu continuarei a tratá-lo segundo aquilo que acho que ele é: um vigarista que estimula outros vigaristas a cometer crimes contra a ordem democrática.

Não por acaso, tornou-se o herói dos esquerdopatas que pretendem derrotar os “estado-unidenses”…

2 Comentários

Assinar feed dos Comentários

  1. - Responder

    Boa reflexão do escritor Tariq Ali acerca desse rumoroso caso.O Assange pode até ter agido de modo errado, mas que com isso ele trouxe a tona a pequenez moral daquele que quer ser o moralizador do mundo, isso ele fez e é muito bom!!!

  2. - Responder

    João Pereira Coutinho e Reinaldo de Azevedo são “jornalistas” que servem aos donos da grande mídia. Você só deveria dar espaço a eles, se a Folha e a Veja aceitassem publicar artigos de gente independente e que não seja sabujo dos EUA. Por isso discordo deste teu democratismo Enock., de publicar a opinião deste direitopatas.

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

catorze − três =