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SOCIÓLOGO EDMUNDO LIMA DE ARRUDA: Quando Dilma afirma em rede pública ser contra a delação pública exerce um direito seu, constitucional, de manifestação livre de idéias. O que pode ser criticado não é o dito, mas o não dito, aquilo que subjaz como revelação da personalidade da presidenta, ou parte de sua psiquê

Edmundo Arruda, sociólogo, e Dilma Roussef, economista, presidenta da República do Brasil

Edmundo Arruda, sociólogo, e Dilma Roussef, economista, presidenta da República do Brasil

Dilma e o inconsciente

Por Edmundo Lima de Arruda Jr
Especial para a PAGINA DO E

Não me atenho à reconhecida e curiosa linguagem de Dilma Roussef, uma mistura de descontinuidades e erros de concordância verbal e nominal. Lula cometia vários atentados contra nosso vernáculo sem perder uma linha de raciocínio.

Os atos falhos são uma das variadas formas do inconsciente se expressar. Grosso modo, o inconsciente pode ser observado enquanto uma linguagem, embora sua estrutura linguística envolva à sua maneira atemporal os signos. Estes permitem recompor sentidos extraídos de um mosaico de manifestações d’alma, das mais primitivas, instintivas, (ID), aos mecanismos que tentam mediar essa primitividade/irracionalidade com o meio externo, buscando controlar os desejos sob o eixo da razão ou racionalidade (EGO), àquilo que desde o nascimento vai se firmando enquanto normas de convivência, ou padrões de sociabilidade no plano moral(SUPEREGO).

Quando Dilma afirma em rede pública ser contra a delação pública exerce um direito seu, constitucional, de manifestação livre de idéias. O que pode ser criticado não é o dito, mas o não dito, aquilo que subjaz como revelação da personalidade da presidenta, ou parte de sua psiquê.

Dilma criticava aqueles que, sob promessa de redução de penas em face de crimes praticados, denunciam outros implicados. Num certo momento Dilma foi surpreendida por ela mesma. Afirmou que foi torturada e não falou…

O que ela quis dizer com esse ato falho. Em primeiro lugar ela se colocou na cena do crime, se situou como criminosa. Nessa condição ela pressupunha que o não falar é uma questão de obrigação moral dos que, envolvidos em “causas heróicas”, devem se calar, jamais revelar algo que pudesse prejudicar o projeto social (revolucionário). Projeto atormentado para Dilma, sob os sintomas bélicos.

Objetivos da política institucional tomados ao que subjaz, uma guerra. Toda guerra pressupõe amigos e inimigos. Aí residem, sob o ato falho, os sentidos do reprimido/recalcado. Dilma participou da luta armada contra a ditadura militar.

Não entrarei no mérito da escolha suicida de certa classe média pela ” razão das armas”. O certo é que certo verniz leninista acompanhou e ainda acompanha sua maneira de ver o mundo. Ela mudou, mas curiosamente ainda vê o mundo sob os traumas da guerra. Na infância narrativas de um pobre país ocupado e castigado. Nos tempos juvenis a possibilidade de lutar (se vingar) dos tanques verde oliva. Na maturidade a contingência do estar no lugar de poder, perpassada pela ambiguidade que a faz sofrer: marcar pontos avançando nas lutas populares e/ou reproduziu a lógica do status quo.

Dilma com sua postura contra a delação, no espaço público, sob a pressão da mídia e no instante que seu velho amigo José Dirceu lutava contra mais un vexame da prisão, obtendo um habeas corpus preventivo, deixou que as fissuras nas estruturas do inconsciente forçassem passagem e a deixasse nua.

Os delatores não deveriam existir, pois a delação premiada, a Lei, é imprópria. O objetivo de muitos gatunos implicados nos sucessivos escândalos, é a continuidade do que sonham como causa (delírio), a transformação do seu país. Por certo, não sabem bem o que é esse algo para onde o Brasil caminha. Os mais doentios militantes de base invocam o bordão Socialismo, um significante/contorcionismo intelectual que pouco diz. Essa despotencialização em grande medida decorre da confusão das alianças do PT. Na origem, escolhendo ser a noiva preferida do PMDB, hoje continuada sob o aval de partidos de aluguel sem causas definidas. A desmoralização causada por essa “esquerda de governabilidade”, mergulhada na corrupção, de ideias e de finanças…conduz à crise e depressão de milhares de militantes, embora muitos reajam como Dilma.

Em resumo Dilma nos permite concluir o seguinte: A causa é justa. Os erros não invalidam a grandeza da empreitada “socialista”. Os meios justificam os fins. Mais vale sofrer a tortura e o risco de morte que delatar. O Brasil de Dilma encontra-se envolvido até o pescoço com os compromisso com o capital financeiro hegemonico ordem global, mas o pragmatismo deve também produzir o auto-ilusionismo. Na pífia política externa há que se manter as falsas aparências das parcerias com os protagonistas do improvável “socialismo do século XXI”. Viva Bolívar, o mesmo zombado por Marx.

Não conheço o itinerário existencial de Dilma. Sei que sua origem é búlgara. Não deve ter sofrido os transtornos do socialismo por ocupação por parte do imperialismo soviético pós guerra, mas sua família vivenciou essa condição.

Dilma militou em mais de uma organização revolucionária.. Assaltou o Banespa e participou de outras ações bélicas. Atribuem a ela o assassinato do estudante Mario Kozen Filho. O fardo do stress emocional é insuperável. Haja causa sublime para purgar…

Não participou da fundação do PT. Estava mais para PDT. Tornou-se presidente por última carta na manga de Lula. José Dirceu era o melhor e mais importante quadro do PT depois de Lula.

Uma vida voltada para o que Dilma fixou como sua contribuição para um outro Brasil. Uma ética da convicção elogiável, não fosse a falta de revisão crítica: 1) com relação aos limites teóricos do marxismo leninista e de desconhecimento dos métodos stalinistas; 2) em face da absoluta falta de condições objetivas da luta militar pós 1964. Na correlação de forças os 31 movimentos armados foram derrotados sem a mínima chance de ampliação de apoio popular. No fundo tornaram-se movimentos de classe média com caráter circular. Sequestros e assaltos para resgatar companheiros presos; 3) atualmente, com os descaminhos das alianças do bloco no poder, foi sendo contaminado por más tradições incluindo aí a corrupção e a ambição de manter o poder pelo poder.

Não sou psicanalista. Mas há se pesquisar a patologia de nossa modernidade, observando instituições e atores. Dilma é importante protagonista desse quadro de uma sociedade doente. Pesadelos imperam aos sonhos. A pretensa esquerda no poder se torna uma direita com incompetência de gestão do mercado. A maior empresa nacional, vá Petrobras, foi assaltada e quebrada. A seleção do Brasil levou a maior goleada de toda a história.

O ato falho da presidente é também um grito da nossa primitividade “revoltada” com a incapacidade de cultura política capaz de filtrar, controlar e fazer avançar o processo institucional. As defesas (o argumento da virtude por resistir à tortura e não delatar nunca) elidem as profundas ” razões” manifestas no discurso “moralista”.

Ato falho? No mínimo um “destempero” em face do desespero com os horrores que Dilma já não pode sublimar.

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EDMUNDO LIMA DE ARRUDA JR, cuiabano, é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina e um dos fundadores do CESUSC – Complexo de Ensino Superior de Santa Catarina (CESUSC), membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros. Possui graduação em Direito pela Universidade de Brasília (1978), Mestrado em Direito pela UFSC (1981) e Doutorado em Sociologia – Université Catholique de Louvain (1991), Pós-Doutorado em Sociologia Política na Universitè Paris 8 Saint Denis (1996), Pós-Doutorado em Sociologia na Universitè Paris X Nanterre (2009). É autor, entre outros títulos, dos livros “Direito Ordem e Desordem”, “Fundamentação ética e Hermenêutica: Alternativas para o Direito” e “Direito Alternativo e Contingência – História e Ciência”

3 Comentários

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  1. - Responder

    Há menos de um ano a Deu-merda Ruim-Self sancionou e elogiou uma lei que prevê a delação premiada, e agora que mudar de idéia???

    Conta outra Dilmentira!!!

    • - Responder

      Esse comentário arrebenta com a PresidENTA inompetENTA porque é a pura verdade ela critica agora a lei que poderia ter vetado, mas sancionou com eelogios.

      A cambada do PT não engana mais ninguém.

  2. - Responder

    Mas se ela é contra a delação, pq a mesma não vetou a Lei aprovada pelo Congresso Nacional, ocorre que ela não vetou pq jamais pensou q a mesma seria usada contra o PT.

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