SOCIÓLOGO EDMUNDO LIMA DE ARRUDA JR: A direita ultra conservadora que vinha sendo controlada na arena politica antes da crise agora ganha terreno para fazer de um Bolsonaro um pré-candidato à presidência. Esse fato lamentável de alguma maneira ganha terrenos fecundos nessa crise social, moral e intelectual que as esquerdas do baixo clero induzem e reforçam na medida em que simplificam o debate. Uma coisa é o governo e a oposição. Uma visão dialética exige vislumbrar o positivo e o negativo no mesmo conceito

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Direita, esquerda. Governo, oposição
Edmundo Lima de Arruda Jr

Em tempos de agudizacao da crise social a crise de ideias se faz presente agravando ainda mais aquela. Um dos sinais de ausência de pensamento critico e a simplificação de questões complexas condutora a repetição de erros demasiadamente conhecidos na historiografia das lutas no campo das esquerdas. Um pequeno artigo não foge à regra, podendo contribuir para aumentar a confusão reinante. Vale a penarisco, talvez. Escolho uma pequena questão presente nas querelas mediáticas com muitos efeitos obliterantes, sem contar, no limite, o de dilacerar a fraternidade entre pessoas que por décadas militaram nas mesmas fileiras.

Direita, esquerda, governo, oposição. Na mídia em geral e com força no facebook temos uma verdadeira luta de classes às avessas, diretamente proporcional a um certo autismo politico que configura o turbilhão de perplexidades que nos assola ultimamente. Nos extremos temos defensores do governo e críticos do mesmo. Essa primeira bipolarização opõe governo, tomado como esquerda na gestão do poder, e oposição, considerada como de direita, em bloco. De fato, há pessoas de esquerda no governo, como fora ele. E há cidadãos de direita fora do governo, e dentro dele. Essas condições existem mas são simplificadas, quase idiotizadas nas adjetivações e difamações de cunho pessoal.

Canalhas, oportunistas, corruptos, golpistas servem como carapuças válidas tanto a oposicionistas quanto a governistas. O PMDB, maior partido fisiologista do Brasil e um dos maiores do mundo foi o aval do projeto petista de chegada ao poder em 2002. Hoje Temer representa aquele partido que abriga Eduardo Cunha e conspira contra Dilma sob a bandeira do impeachment, mas abraça pessoas como Jarbas Vasconcelos e outros homens de bem. O PT dos intelectuais e militantes das bases com algum poder e capacidade de revisão da politica e de conceitos também está presente no governo, embora sem o mesmo vigor das primeiras décadas. Sob o ponto de vista do mercado nosso caminho é de consolidação do modo de produção capitalista sob os ditames globais da globalização financeira. Na exata medida em que os governos populares promoveram reformas sociais importantes e necessárias, empreenderam o cumprimento das diretrizes do consenso de Washington. Desta maneira o governo implica em bandeiras igualitárias e em afirmação do liberalismo econômico hegemônico, simultaneamente. Esse consórcio entre capital e trabalho nada tem de pacto social democrata. Com a palavra os banqueiros bilhardários e os trabalhadores estagnados.

Por outro lado há uma direita fora do governo que se aproveita das trapalhadas do governo Dilma e capitaliza dividendos. Não há como negar a sede do PSDB pelo impeachment. Também no cenário politico vislumbramos a direita troglodita de gente como Bolsonaro, românticos monarquistas e equivocados apologista do retorno dos militares. Há diferenças entre as forcas conservadoras como há homens distintos do PSDB, dos mais implicados com a privataria aos que dela se distanciam ou jamais tiveram alguma proximidade.

Por certo que MST, UNE, CUT e muitas organizações sindicais e partidárias, PC do B com forca, agora no comando brancaleônico das Forcas Armadas, na medida em que se tornaram governo, enfrentam o tênue pendulo entre ^guerra de posição^ ou cooptação, ou ambos. Movimentos sociais são mais dinâmicos fora de governos ou de estados, vale dizer, quando possuem de fato autonomia. O caminho da “conquistado estado” é também a trilha da tradição estamental marcada pelo clientelismo e pela corrupção, politica e financeira.

A confusão entre interesses particulares e das organizações se confundem, prevalecendo o interesse corporativo sob ideologizações racionalizadoras das condições sociais de sobrevivência de milhares de militantes absorvidos nas estruturas do poder, do status quo.

Então, permanecer no discurso e em praticas armadilhosas do direita, esquerda, oposição, governo, conduz a um reforço da crise de ideias e na legitimação de interesses outros, dentro e fora do governo, contrários ao avanço institucional , democrático. Esse travamento da República é um senso comum nos “embates” presentes nos canais de comunicação e merece também uma analise cultural sob o ponto de vista analítico.

Dificil para uma certa esquerda que sempre lutou pelos outros, contra o estado, o direito e a democracia, tomados como instituições “burgueses” lidar com o estar e o ser governo, ou status quo, ciente ou não de que o modo de produção capitalista se reproduz, agora mais do que nunca graças a ela. Daí asposturas de auto-ilusao e de culpabilizacao do outro acirrando simbolicamente a emergência dos velhos bodes expiatórios.

A direita ultra conservadora que vinha sendo controlada na arena pilitica antes da crise agora ganha terreno para fazer de um Bolsonaro um pre-candidato a presidência.
Esse fato lamentável de alguma maneira ganha terrenos fecundos nessa crise social, moral e intelectual que as esquerdas do baixo clero induzem e reforçam na medida em que simplificam o debate.Uma coisa é o governo e a oposição. Uma visão dialética exige vislumbrar o positivo e o negativo no mesmo conceito.

A direita e a esquerda não morreram mas se encontram bastante desnorteadas, chamuscadas pelos efeitos tardios da queda do muro de Berlim e pela confusão que os sucessivos eventos que culminaram no petrolão vem causando no seio dos setores progressistas, dividindo-os. Sobretudo, pela incapacidade desde sempre de levar a cabo revisões de posições, somente possíveis com autonomia intelectual e certo distanciamento do dia a dia da militância, o que é muito difícil quando se está no poder, vale dizer, quando se tem privilégios a manter e a defender.

Quem é de direita e quem é de esquerda soa como uma questão menor. Vejam como Lula e o capital agem. Tiraram Dilma do banho/Maria e a fritam enquanto buscam um equilíbrio econômico. Com ou sem impeachment as “esquerdas” entregaram ao PMDB o controle decisório em troca de um retardo no impeachment, negociado, no limite, por renúncia da presidenta e preservação de Lula. Este aposta no retorno ao crescimento em 2017 sem o qual suas condições de candidato presidencial seriam diminuídas.

Quem é mesmo de direita e de esquerda, no que de fato conta no cenário nacional?

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Edmundo Lima de Arruda Júnior, cuiabano, doutor em Direito, sociólogo, é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina, presidente honorífico do CESUSC, e membro efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros.

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