SOCIÓLOGO EDMUNDO ARRUDA JR: Sobre a regressão social e o reforço das retóricas tribais

Edmundo

 

Sobre a regressão social e o reforço das retóricas tribais

Edmundo Arruda Jr

I
Freud fixou a questão da regressão na perspectiva reativa e negativa.Reação/defesa/fuga,em negação/reversão/impossibilidade de enfrentar situacões-limite (1). Jung agregou ao conceito a perspectiva positiva da regressão, pressuposta também como necessidade de busca da origem lúdica, inocente, do aconchego e segurança presentes na fase infantil (2). Outros teóricos trataram da questão sob prismas distintos, do retorno ou parada no temporal/simbólica e seus efeitos variados nos indivíduos/grupos sob as condicionantes da sociedade moderna e industrial (Benjamin, Adorno, Winnicott, etc).

II

A real regressão social é geral, no sentido comum de viagem de regresso à representação imaginária ao encontro de algo que conforte diante do sofrimento insuperável (pelo ego e por razões plurais). Sua ocorrência é social e resulta de vários fatores a produzir, no limite, a conhecida paralisia cognitiva.

Estado de medo, insegurança e desesperança produzem, com a continuidade, sentimentos gregários de tribalização (agrupamentos por pertinência instintiva de adaptação/preservação) em face de inimigos percebidos em todas as partes, ameaçando os territórios e a sobrevivência de tribos rivais.

Dessa forma particular de conceituar, operacionalmente a regressão, nos aproximamos (mais, ou menos) da zona de prevalência da delicada percepção psíquica, a da pré-significação, ou anterior à linguística. Instintiva. Coisa do mamíferos acuados, e, entre eles, no caso, os seres humanos. Essa condição é mundial (3).

III

Classes abastadas, dominantes, e com maior expressão numérica, aquelas situadas em posicões mais abaixo da pirâmide social. Nenhuma classe é uma unidade homogênea. Somente a abstração tola aceita a ideia de classe universal e suas leis..
Considerar o Capital como outra abstração também produz embotamento intelectual. A fração financeira hegemônica é autofágica. Destrói outros capitais produtivos e outras formas de mercado. A referida paralisia é de todos. Atinge a liberais e direita séria (eles existem, como uma esquerda democratica). Mas atinge mais frontalmente os “extremados” na linha de frente em defesa do que acreditam ser o melhor para o mundo, a ultradireita da religião neoliberal e as esquerdas tradicionalistas. Estas intoxicaram a politica e provocaram o asco de parte da população, heterogênea, conservadora, mas não só, para dar um basta no lulismo. Hoje está clara essa cereja no bolo da direita, da traição “transformista” (acordo neoliberal para viabilizar 2002, com o PMDB, herdando a corrupção) à mãozinha imprescindível para a vitoria de Bolsonaro.
A acusação de que o voto a Bolsonaro procede de fascistas é uma fantasia e um tiro no pé. Ademais, impede o avançar de compreensões e lutas apropriadas contra a extrema direita, buscando isolar o individuo-capitão do conjunto do bolsonarismo. Nesse conjunto há a direita ou liberais conservadores insatisfeitos com as imposturas do presidente e na disputa acirrada (com o envolvimento das Forças Armadas, grupos empresariais e lideranças políticas e culturais) para trazer a agenda liberal não neoliberal para o “centro”, contendo ímpetos nacionalistas xenófabos e neoliberais fundamentalistas. Essa ação poderá produzir avanços democráticos. Do bem pode-se colher o mal mas do mal pode-se, de forma reversa, colher o bem.

IV

A política abarca a contingência e colateralidades, mormente em tempos metamórficos. Lembrem-se. Bolsonaro é a resposta ruim a algo horrível. Esqueça o nós bonzinhos, sempre, “progressistas”, contra o “eles ruins”, retrógados. Isso não existe. Estamos numa guerra em disputa pelo consumo de desinformação. Era da “pós-verdade”. Fake news de todos os lados “politizam” um conjunto imbecilizado pelo fetiche das tecnologias da comunicação. Falsas polarizações elidem os reais problemas, procrastinando as soluções possíveis. Vejo professores universitários e dezenas de intelectuais destilando sarcasmo e ódio nas redes sociais, contra Lula ou Bolsonaro, cegos, rangendo os dentes para desclasdificar/eliminar, se possível, o que consideram o demônio a ameaçar seus Salvadores…
Os progressistas ditos de esquerda, por regra tornaram-se reacionários desde o Mensalão, para aproveitar o Brasil do absurdo mais imediato. Ser liberal no Brasil é ser revolucionário, afirma B.Lamounier. Ou alguém acredita que nossa esquerda é democrática? Quem, Gleisi? Zé Dirceu? Do outro lado, de fato, um curioso e preocupante fascismo tardio brota em muitos setores sociais, embora o extemporâneo tardio seja o espelho de seus inimigos/algozes, os soldados do totalitarismo vermelho, desbotando-se num pálido cor de rosa…

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Edmundo Lima Arruda Jr é sociólogo e professor titular aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina


Annecy.19.8.19

Notas

(1)Freud estudou a regressão como um das formas de defesa que conduz à reversão (temporária do ego) para níveis anteriores de desenvolvimento, em vez de enfrentar situacões consideradas como insuportáveis de adaptação.

(2) Carl Jung já havia argumentado que “a tendência regressiva do paciente … não é apenas uma recaída no infantilismo, mas uma tentativa de chegar a algo necessário … o sentimento universal de inocência infantil, a sensação de segurança, de proteção, de amor recíproco, de confiança”.[8]

(3) Atinge a todos, embora diferenciada quanto aos graus de impacto. A fixação na classe social, na história, é parte do problema (temporal) que aglutina o simbólico no aspecto atemporal e das contingências do real.

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