PREFEITURA SANEAMENTO

SOCIÓLOGO EDMUNDO ARRUDA JR: Lula, ao contrário de Bolsonaro, hoje é um homem em busca do entendimento

Edmundo

 

Lula: reconstruindo a memória

Por Edmundo Arruda Jr

Os poucos que acompanham meus posicionamentos sabem que não nutro por Lula, petistas e lulistas em geral nenhuma reverência. Pelo contrário, acho que o conjunto da obra ajudou a obstar avanços progressistas e a ajudar ao estado de absurdos em que nos atolamos.

Escrevi dois pequenos textos sobre desdobramentos do véu de ignorância na tropicália. Eles incluem Lula e nele ganham uma reconfiguração na qual talvez, como colateralidade dos tempos confusos, saia algo melhor. Não torci pelo insucesso de Bolsonaro. Ele faz coisas boas e também faz muito mais coisas ruins. Com Lula, idem, mas o seu caráter (conhecido na definição de Chico de Oliveira) também guarda o viés mutacional do oportunismo.

O ex-presidente sabe fazer política. Sabe correlacionar o tempo de hoje entre o passado e o futuro. Sabe distinguir direitas e esquerdas. Sua sobrevivência depende delas, extraindo centralidades que o afastem do cadafalso ou ao suicídio político.

A direita é plural. Há conservadores democratas e a extrema ultra-reacionária. Esta alimenta-se e fomenta fantasmas exorcizando o que elege como o seu bode expiatório: o demônio do comunismo encarnado em Lula e no lulismo. Caso patológico.

Mais do que o delírio, as expressões da intolerância exaltam as forças de salvação e saneamento geral, atiçando à ruptura democrática e constitucional em nome, curiosamente, da Democracia e da Constituição. Reivindica-se a intervenção militar, com ou sem Bolsonaro. Mas há pedras no caminho.

Uma das pedras: militares hoje estão mais preocupados com Bolsonaro que com Lula. Generais quatro estrelas sabem que a compulsão anticomunista dos filhos do presidente, alimentada por fantasiosas ideias do guru em declínio, Olavo de Carvalho, são mais nocivas ao Brasil que o retorno de Lula, pois este valorizou as Forças Armadas e nada tem contra o capital internacional. Lula faria de Guedes seu Meirelles para a retomada neoliberal em tempos da nova détente, agora a guerra quente entre EUA e China. Essa uma outra pedra no caminho.

O ex-presidente guarda naturais ressentimentos, mas não destila ódio contra tudo e todos. Brilhante, anunciou que irá ao encontro de Ciro Gomes. Com relação à sua igreja, outra de suas pedras, Lula é expert em jogar uns contra os outros forjando sua posição carismática e acima do PT e de toda a esquerda partidária.

Lula não é inocente. Tampouco os filhos de Bolsonaro nas suas relações promíscuas de irmandade com milicianos. Lula é um camaleão. Nunca foi de esquerda e o flerte com as esquerdas chavista e castrista (etc), nada mais foi que afago na velha esquerda arcaica.

O foro de São Paulo hoje não gera mais dividendos ao lulismo. Maduro é um capitão do mato perto de Chávez. Fidel morreu e Raul já se rendeu ao socialismo de mercado sob proteção de Pequim. A vitória de Morales foi de pirro. A Argentina falida não é exemplo nem aliada maior que os EUA na direção da vitória democrata.

Lula sempre foi um bom para-choques na luta de classes. Não é de sua personalidade tender à radicalização, mas compor.

Tudo indica uma postura lulista tendendo, pela segunda vez, a vender a alma para ganhar a eleição em 2022 (a primeira foi em 2002). Na negociação a sua candidatura poderá ser negociada, em face da avalanche de processos em curso, com uma candidatura viável para dividir e derrotar de uma vez só, Bolsonaro, Dória e outros possíveis candidatos.

Lula, ao contrário de Bolsonaro, hoje é um homem em busca do entendimento. Move-se não por dinheiro mas em busca de uma repaginação do reconhecimento arranhado nos processos em curso, não findos. Ambicioso, sabe que terá que fazer jus ao aval de certa mídia internacional para qual Lula foi injustiçado e martirizado. Aos 74 anos, Lula almeja finalizar sua memória, como estadista superior a Vargas.

Um novo transformismo ou rearranjo por cima está no horizonte. Veremos se Lula logra superar seu provincialismo caudilho ao ponto de recompor e ampliar sua memória história. Ele já parece consciente de que o véu da ignorância é duplo, tapando as suas duas cabeças de Janus. Todos somos Janus com torcicólogo na biruta histórica. Agora nos cabe a aposta de erguermos nossos próprios dois véus.

_____
* Edmundo L. de Arruda Jr, cuiabano, é sociólogo, professor aposentado da UFSC

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

2 × três =