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SINDICALISTA JOAQUIM SANTANA: Investimentos do governo federal para obras da Copa – cerca de R$ 28 bilhões – garantem crescimento da indústria da construção civil, que tem apresentado resultados positivos mesmo diante da crise em outras áreas da economia. Mas quando estes bons ventos chegarão aos canteiros de obras?

 

O 'país do futebol', na avaliação do sindicalista Joaquim Santana, colocou-se contrário à realização dos jogos, caso estas obras signifiquem cidadãos desabrigadas e sem assistência, desvios de dinheiro, gastos exorbitantes, desrespeito ao espaço da cidade, ao meio ambiente e à população. Além das flagrantes irregularidades trabalhistas, que fomentaram greves em quase todas as arenas da Copa.

O ‘país do futebol’, na avaliação do sindicalista Joaquim Santana, colocou-se contrário à realização dos jogos, caso estas obras signifiquem cidadãos desabrigadas e sem assistência, desvios de dinheiro, gastos exorbitantes, desrespeito ao espaço da cidade, ao meio ambiente e à população. Além das flagrantes irregularidades trabalhistas, que fomentaram greves em quase todas as arenas da Copa.

 

O legado social da Copa do Mundo
Joaquim Santana

 

Recentemente, Cuiabá foi agraciada com a presença de sindicatos de trabalhadores da construção das 12 cidades-sede da Copa do Mundo, reunidos pela Federação Internacional dos Trabalhadores da Construção e da Madeira, entidade que hoje representa 328 sindicatos e 12 milhões de membros em várias partes do mundo. A pergunta principal do encontro: qual o legado social da Copa?

Para alguns, questionar este legado parece tabu. É como se, por não contar com infraestrutura mínima – resultado de anos de descaso entre sucessivos governos estadual e municipal – Cuiabá e Várzea grande devessem se sentir automaticamente gratas pela avalanche de obras em execução, a despeito da falta de tato demonstrada pelo governo do Estado em lidar com temas sensíveis como as desapropriações.

Parece demais querer questionar o legado social da Copa do Mundo. Mas não é. É preocupante a situação das famílias atingidas direta e indiretamente pelas desocupações residenciais e comerciais, afastadas de sua comunidade, muitas das quais esperam meses pelas indenizações. Assim como a possível escassez de empregos no pós-Copa: cerca de 40% dos postos de trabalho gerados serão extintos, segundo o Dieese.Os governos federal e estadual já se comprometeram publicamente em desenvolver programas de qualificação profissional para que estas pessoas possam acessar vagas em outras áreas. A pujança econômica – principalmente no setor do agronegócio – é vista por muitos como garantia de que haverá empregos de sobra para todos. Outros acreditam na continuidade do crescimento da área da construção, diante da garantia do governo federal em seguir com as grandes obras de infraestrutura. Porém, a única iniciativa governamental que aponta para esta discussão é o Compromisso Nacional pela Melhoria das Condições de Trabalho na Construção, elaborado pelo governo federal, empresários e sindicatos, o qual incorpora em seu interior a importância de se garantir que a Copa do Mundo traga retornos positivos concretos aos trabalhadores e à sociedade como um todo, e não apenas à Fifa, construtoras e empresas patrocinadoras. Recentemente, o BNDES – um dos principais financiadores da Copa do Mundo – comprometeu-se junto a sindicalistas a rever as cláusulas de seus contratos, passando a exigir das empresas contratadas respeito à legislação trabalhista. No mais, há um grande silêncio por parte dos governos estadual e municipal.

Os investimentos do governo federal para as obra da Copa – cerca de R$ 28 bilhões – estão garantindo o crescimento da indústria da construção civil, que tem apresentado resultados positivos, mesmo diante da crise em outras áreas da economia e do próprio setor da indústria. Mas quando estes bons ventos chegarão aos canteiros de obras? E não só as da Copa do Mundo. Até quando teremos que assistir situações como a exploração de trabalhadores haitianos em situação análoga ao trabalho escravo, como foi constatado em Cuiabá e deve ser realidade nos Estados para onde estes refugiados estão indo? Até quando continuaremos a permitir a terceirização desenfreada que limita o direito do trabalhador? Até quando assistiremos impassíveis multinacionais explorarem seus trabalhadores na busca pelo lucro a qualquer preço enquanto exibem à sociedade a imagem da ‘responsabilidade social’? Até quando permitiremos que instituições como a Fifa tenham tamanha interferência em decisões que afetarão o cotidiano de milhões de brasileiros?

Nas manifestações ocorridas nas ruas durante o mês de junho, o retorno social das obras da Copa foi questionado. O ‘país do futebol’ colocou-se contrário à realização dos jogos, caso estas obras signifiquem cidadãos desabrigadas e sem assistência, desvios de dinheiro, gastos exorbitantes, desrespeito ao espaço da cidade, ao meio ambiente e à população. Além das flagrantes irregularidades trabalhistas, que fomentaram greves em quase todas as arenas da Copa. Uma das exceções foi a Arena Pantanal, onde conseguimos garantir um acordo que beneficiou os trabalhadores.

É preciso refletir sobre o legado social que queremos e teremos. Como também disse nosso companheiro, o sindicalista filipino Tos Anonuevo, uma das grandes lideranças da Federação Internacional dos Trabalhadores da Construção e da Madeira (ICM): “Uma outra Copa é possível”.

 

*Joaquim Santana é presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil de Cuiabá e Municípios (SINTRAICCCM), membro da Federação Internacional dos Trabalhadores da Construção e da Madeira (ICM).

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