TCE - OUTUBRO

Sebastião Carlos viu Pedro Bial escorregando diante de Pepe Mujica em seu programa da Globo

 

Palavras não são conceitos

Por Sebastião Carlos

Meia noite de sexta para sábado último Pedro Bial, em seu novo programa, reproduziu entrevista feita com José (Pepe) Mujica, ex-presidente do Uruguai. Figura marcante e singular. Desprezando todos os bens materiais possíveis, recusou-se a morar no Palácio presidencial e dos 230 mil pesos (cerca de R$ 22.122,00) mensais que recebia, doava quase 70% para o seu partido, a Frente Ampla, e também para um fundo para construção de moradias, enquanto isso morava em uma chácara na zona rural de Montevidéu, Rincón del Cerro, onde continua morando hoje, cultivando flores e hortaliças. Circula em um velho fusca e diz que 30 mil pesos mensais (cerca de R$ 2.800,00) é o suficiente para ele. Atualmente é Senador e, aos 82 anos (20/05/1935), repetidamente citado como forte candidato à presidência. Casado, há mais de quarenta anos, Lucía Topolansky, Senadora e, como ele, ex-guerrilheira.

O curioso é que durante a campanha presidencial, que venceu em segundo turno, Mujica foi muito criticado por seu estilo simples e sua visível humildade. A crítica a seus austeros hábitos pessoais era a maior arma utilizada por seus adversários e mesmo seus colaboradores faziam restrições, pois diziam que o país passaria vergonha por ter um presidente que viaja em carro velho, mora no campo, usa sapatos alpargatas e dirige um trator. No entanto, desde a sua posse, que contou com a presença de grandes personalidades, e posteriormente seus discursos em foros internacionais, inclusive na Assembleia Geral da ONU, tornaram-no uma figura admirada em todo o mundo e com os discursos políticos mais compartilhados nas redes sociais. Figura admirável sob todos os títulos, ainda que porventura se possa não concordar com as suas ideias. O que é muito difícil. Desde 2013, Emir Kusturica, o renomado cineasta sérvio, está realizando um documentário sobre Mujica, que declarou ser o “último herói da política”. Voltaremos a falar sobre ele.

Mas, voltemos à entrevista que Bial gravou na chácara de Pepe, e que vale a pena ser vista. Falando sobre a sua vida simples e despojada de bens materiais, e tendo dito que estava muito contente com o pouco que tinha, sendo isso o que bastava para viver, e que o seu objetivo na vida, e o de fazer política, era para realizar o bem comum e não para adquirir coisas, Bial então concluiu: “Esse é o seu marketing?”. Ao que o entrevistado, numa resposta cortante e lapidar, diz: “Não, esta é a minha filosofia de vida”.

É a este ponto que quero chegar. Mesmo as pessoas inteligentes e experientes no uso das palavras podem cometer equívocos abissais ao interpretá-las. Uma palavra pode ser completamente vazia de sentido, uma palavra pode conter o universo. E aí estamos no campo do conceito, ou seja, a imensa possibilidade de uma palavra, ou uma frase, definir toda uma visão de mundo. O marketing é um instrumento de venda. E você pode vender uma coisa que talvez você mesmo não comprasse, para, não raro, expor algo não verdadeiro, e que só servisse para mascarar o que de fato existe na realidade. E o marketing, lamentavelmente, vem sendo o instrumento de uma política que nos levou a escolher governantes e representantes tão venais, tão desastrados, que nos levaram, e não de agora, a um país que nunca sai deste eterno purgatório. Com um passo próximo do inferno. Já uma filosofia de vida implica no compromisso mais completo, diria totalizante, com aquilo em que você realmente crê. E se você realmente crê em um modo existir, em um principio basilar, você estará obrigado a viver preso a esse compromisso que é firmado, antes de tudo, com a sua consciência. Aqui está o ponto capital colocado no inicio: nem todas as palavras exprimem conceitos válidos para alguém. E o cuidado que precisamos ter, numa vigilância continua, para a sua utilização. Depois de uma longa e proveitosa entrevista com um homem que atravessou as maiores dificuldades possíveis, várias vezes desafiando a morte, preso por vários anos, só de solitária pegou sete anos, e que chegou ao poder maior de seu país sem ódio, sem desejo de vingança, que coloca na prática o ensinamento milenar de que a política deve ser o instrumento para servir ao coletivo, é demonstrar cabalmente de que é nisso que ele acredita, alguém perguntar-lhe se isso era o “seu marketing” …. é o fim.

Sebastião Carlos é historiador em Mato Grosso

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