TCE - DEZEMBRO

SEBASTIÃO CARLOS: Rachel de Queiroz, uma grande mulher, uma grande escritora

RACHEL – UMA GRANDE MULHER. UMA GRANDE ESCRITORA

Sebastião Carlos

 

A data de hoje celebra o nascimento de uma grande mulher brasileira. Em 17 de novembro de 1910 nasceu em Fortaleza [CE], Rachel de Queiroz. Oriunda de uma família de classe média, de tradição intelectual. O pai era o advogado Daniel de Queiroz Lima e a mãe a professora Clotilde Franklin de Queiroz, cuja avó era prima do romancista José de Alencar.

Quando tinha sete anos, a família mudou-se para o Rio de Janeiro e, pouco tempo depois, para Belém do Pará. Dois anos depois, retornam ao Ceará. Em 1925, Rachel forma-se como professora primária. Quando veio a lume “O Quinze”, retratando a seca que abatera a região cinco anos antes e fazendo um retrato da realidade dos retirantes nordestinos, o público se assusta ao descobrir que se tratava de um romance escrito por “uma menina” de 20 anos. A obra foi tão bem recebida que acaba agraciada com o importante prêmio da Fundação Graça Aranha.

“O Quinze” tem, além de seus méritos estilísticos, um valor cronológico. Ele faz parte de uma fase importante da literatura contemporânea brasileira, conhecida como a do movimento modernista que, nascido em 1922, teve forte inflexão social na década seguinte e que passaria a ser denominado como a da “Geração de 30”. Os escritores dessa segunda geração modernista consolidaram os ideais modernistas que haviam rompido com os parâmetros da arte tradicional. Neste período, introduzem elementos novos, sobretudo no que diz respeito ao conteúdo e a sua abordagem. A ele pertenceriam alguns dos nomes que se tornariam ícones de nossa literatura.

Na realidade é um vigoroso romance publicado em 1928, “A Bagaceira” do paraibano José Américo de Almeida [1887 – 1980], que anos depois seria candidato à presidência da República, que assinalaria o inicio dessa nova fase na prosa e que, na poética, é seguido dois anos depois pela publicação de “Alguma Poesia” de Carlos Drummond de Andrade [1902 – 1987]. Foi este um período riquíssimo para a nossa história literária e cultural. Entre outros, aparecem o grande Graciliano Ramos [1892 – 1953], com “Vidas Secas”, [1938], o prolifico Jorge Amado [1912 – 2001] com “O País do Carnaval” [1931], o pernambucano José Lins do Rego [1901 – 1957] com “Menino de Engenho” [1932]. Todos abordando, pela primeira vez, uma forte temática social onde retratam, com fidelidade e realismo, a vida de miséria provocada pela seca e o drama dos retirantes, a fome, o tema da mestiçagem, a exploração humana nos engenhos de cana de açúcar. É neste contexto que se situa a jovem cearense. E não somente no campo da literatura se mete Rachel, pois nesse mesmo ano se filiaria ao Partido Comunista Brasileiro, na onda de simpatia que as ideias de esquerda despertaram em todo país, graças, sobretudo, a Coluna Prestes.

Antes da publicação do romance, Rachel, com o pseudônimo de Rita de Queiroz, expunha suas ideias e seu estilo em jornais cearenses.

Foi também uma inovadora nos costumes. Numa época em que as separações de casais eram raríssimas, e sempre a mulher era tida como a culpada, Rachel que estava casada com o poeta José Auto da Cruz Oliveira dele se separa após sete anos para, meses depois, casar-se com o médico Oyama de Macedo, com quem permanece até seu falecimento, em 1982. Numa crônica autobiográfica corajosamente escreveu: “Eu nunca fui uma moça bem-comportada. Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços. Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo. Não estou aqui para que gostem de mim. Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho.”.

Em 1977, foi a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras e em 1993 foi também a primeira a receber o importantíssimo “Prêmio Camões”, que é outorgado pelos governos brasileiro e português. Precursora na defesa dos direitos das mulheres, nem por isso se considerava feminista. Em outra crônica: “Não sou feminista. Acho que a sociedade tem que crescer em conjunto. A associação mulher e homem é muito boa e acho um grande erro combater o homem.”.

Porque fiz questão de registrar esta data? Sou grato a Rachel de Queiroz. Muito grato. Foi uma professora a distancia que tive. Quando a “conheci” ela já mantinha, há vários anos, uma crônica na revista “O Cruzeiro”. Criança ainda comecei a ler essas crônicas, publicadas sempre na ultima página. Às vezes, as relia. Era a única publicação que, nos aviões do CAN, o inesquecível Correio Aéreo Nacional, da FAB, chegava às minhas queridas Barra do Garças – Aragarças. Era a comunicação de tantos moradores, meus pais inclusos, com as noticias do Brasil. Quando chegavam os exemplares de “O Cruzeiro”, sempre com semanas de atraso, sentíamo-nos de novo integrados ao Brasil. Devorava encantado a prosa fluente, escorreita, clara e concisa de Rachel, uma mestra da crônica. Daí como que se me implantou um vírus. Obrigado Rachel de Queiroz.

Muitos aos depois tive uma decepção juvenil com a grande Rachel. Ela declarara, logo nos primeiros dias, seu apoio ao movimento militar de abril de 64. Queríamos minorar a decepção atribuindo essa simpatia ao fato de ser prima do marechal-presidente Castelo Branco. Mas não! Ela, como tantos outros intelectuais, haviam se decepcionado com o cambiante governo Goulart. Mas se a decepção fora politica, a admiração literária permanecera.

No dia 4 de novembro de 2003, às vésperas de completar 93 anos, falece no Rio de Janeiro. Descansava em sua rede. “A gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto de viver acompanhado.” – escrevera alhures.

Assim foi Rachel de Queiroz, precoce, destemida, audaciosa, corajosa. Viva Rachel de Queiroz!

 

 

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         Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é membro da Academia Mato-Grossense de Letras e seu atual Presidente. Publicou, entre outros, ‘A Poesia em Mato Grosso – Um percurso histórico de dois séculos’.

 

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