SEBASTIÃO CARLOS – O que estamos fazendo hoje para que a nossa Cuiabá seja a cidade em que pretendemos passar os nossos melhores dias?

Rumo aos 300 – A Cidade que está em nossa imaginação
Sebastião Carlos


A intervenção da poesia no conceito de urbanismo, e por consequência na paisagem urbana, é para consignar a cidade como um local de paz e de felicidade. Elisabeth Bishop, a consagrada poetisa norte-americana que nos anos cinquenta viveu no Rio de Janeiro, escreveu com propriedade que “o Rio não é uma cidade maravilhosa, é apenas um cenário maravilhoso para uma cidade.” Um cenário que, de resto, pode ser despedaçado, desfigurado. Daí que a ignorância, o desconhecimento da realidade ecológica, a ganância e a falta de amor à cidade e de civismo pode transformar um local, originalmente paradisíaco, em ambiente de caos urbano, de inchamento populacional ao invés de crescimento ordenado, enfim tornar uma cidade infernal e infeliz para se viver.

No ano de 1884 esteve em Cuiabá, rumando para a descoberta da foz do rio Xingu, o cientista alemão Karl Von den Steinen. Passou aqui algumas semanas e em 1886 publicou na Alemanha o livro em que registrou as impressões que teve de Cuiabá. Conto essa história e trago trechos dessa estada em meu livro Viagens ao Extremo Oeste. O tedesco se referiu a Cuiabá como uma “idílica cidadezinha residencial, no interior do sertão” e comparou a hoje praça Alencastro: “Aqui se tem a impressão de uma linda cidade balneária alemã, numa tarde de domingo”, e ainda, “tudo é de tal modo cheio de indizível tranquilidade idílica que se tem a impressão de perambular por um vilarejo da Turíngia.” Faço referência a essas passagens, como poderia fazer a de tantos outros viajantes que por aqui estiveram. Já vejo que os modernosos, autorreferenciados como progressistas, estão rindo e soltando chistes de ironia a dizerem: “esse tonto sonhador, e, portanto ultrapassado, quer que Cuiabá retorne ao século dezenove.” Sabem, porém, muito bem que não é disso que se trata. Quis apenas estabelecer um marco referencial para dizer que Cuiabá já foi tida como uma cidade agradabilíssima para se viver e, se deixou de sê-lo não significa que precisa continuar a ser um lugar impessoal feito apenas de concreto e de asfalto.

Poderemos, entre um parâmetro e outro, estabelecer um modus vivendi mais agradável que o atual e o que poderá vir a ser. Por exemplo, nessa discussão novelesca entre VLT e BRT, por que não se pensar na possibilidade de bondes? Ledo engano supor que a implementação de qualquer desses sistemas de transporte, que só percorrerá a área mais central da cidade, irá representar, como num passe de mágica, a melhoria dos transportes coletivos das duas cidades gêmeas.

Sim, podem continuar a rir os céticos e gozadores de plantão. Bondes que funcionam, que são belos, simpáticos e que atraem inúmeros passageiros existem em Portugal, chamados de eletro, em São Francisco, na Califórnia, os cable car, e mesmo no Rio de Janeiro, em Santa Tereza.

Romantismo à parte, a questão do “transporte urbano não se resume apenas ao deslocamento de passageiros e cargas, mas também à organização espacial de todas as atividades dentro da cidade”, lembra John Dyckman, doutor em planejamento urbano da Universidade da Califórnia. A preocupação maior – estarão discutindo isso? – é o entorno desse transporte sobre trilhos, ou seja, aquilo que outro especialista norte-americano, Wilfred Owen, chamou de “criar uma atmosfera na qual o sistema de transporte possa funcionar.”

Sem dúvida que a questão do transporte urbano e fundamental para se estabelecer um índice aceitável de qualidade de vida. Mas que tipo de transporte? Quais as suas condições de funcionamento, incluindo-se o custo para o usuário. Como explicitou Owen é necessário “criar uma atmosfera na qual o sistema de transporte possa funcionar.” Em outras palavras, para que haja eficiência e qualidade não basta colocar os trilhos e os veículos, mas é necessário criar condições para o funcionamento de outros meios de transportes, inclusive os automóveis, os caminhões de carga e os ônibus que levarão os passageiros dos bairros até os terminais dos trens. Neste caso, devemos perguntar, como está sendo visto o uso do espaço urbano no conjunto da capital, e não somente dos lugares onde trafegarão essa modalidade de trens? Daí que, insisto, a construção do estádio num local onde já existe um conglomerado urbano significativo, como é a região do Verdão, foi um erro acumulativo clamoroso. Mais um deles.

Ao longo dos séculos o conceito de cidade, embora a terminologia tenha permanecido, modificou, para receber abordagens de diversos continentes disciplinares como a geografia, a sociologia, a história e, mais recentemente, a filosofia. E se o conceito de cidade se modificou ao longo do tempo, o seu fundamento essencial, o de ser aquele local em que buscamos ter uma vida agradável e na qual seja possível viver pacifica e civilizadamente com os nossos mais íntimos e também com os estranhos, parece permear toda a arte e a ciência que a teoria do urbanismo contemporâneo consagrou.

A cidade que temos na imaginação como o lugar ideal para se viver e morrer é aquela em que a qualidade de vida atingiu os degraus mais altos, em que a saúde pessoal e a do meio ambiente se tornam fatores essenciais, e na qual se é possível construir uma vida digna e respeitada para nossos familiares e o maior número possível de cidadãos, enfim uma cidade na qual se é possível viver feliz. Esta cidade imagética só pode ser alcançada se ela for a resultante de uma utopia que conquiste espaço em nosso coração e na qual nossa alma está imersa.

Dunga Rodrigues, uma das mais sensíveis e autênticas interpretes da alma cuiabana, em seu texto, leve, fluído e bem humorado se inquietava com os rumos que a sua cidade estava tomando. Em julho de 1991, em uma pequena crônica publicada com o título de ‘E agora José?’ expressava a sua indignação: “Depois que nos despojamos de nossas características ancestrais, como a desconfiança do índio, a malícia do negro e conservamos a cabeça dura dos portugueses, temos levado lambada de amargar.” E indagava: “E, agora, o que aconteceu?” E após descrever o que considerava uma afronta e desrespeito a tradicional hospitalidade cuiabana, Dunga admoestava os nativos: “E agora será que vamos ficar só cantando o hino do Senhor Divino? Está na hora de raer o forno! Onde estão os cuiabanos, que não agem? Estarão todos dormindo?”.
Sim, o que estamos fazendo hoje para que a nossa Cuiabá seja a cidade em que pretendemos passar os nossos melhores dias?

_______________________________
Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, professor e historiador. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Publicou: Viagens ao Extremo Oeste – Desbravadores, aventureiros e cientistas nos caminhos de Mato Grosso, entre outros.

Categorias:Cidadania

1 Comentário

Assinar feed dos Comentários

  1. - IP 201.54.48.6 - Responder

    A modernidade não pode ser sinônimo de destruição do nosso passado. Foi um crime o que fizemos com a antiga catedral. É perfeitamente possível conviver nos dias de hoje com os bondes (práticos e charmosos), o metrô ou VLT, ecologicamente mais corretos, numa cidade histórica como Cuiabá. Não podemos ficar dependentes de apenas um sistema de transporte. O fato de multiplicarmos as ferrovias em nosso país não significa a morte das rodovias. É preciso ter um equilíbrio no sistema de transportes. Parabéns pela abordagem. Sou testemunha do seu apoio incondicional ao Senador Vuolo pela chegada dos trilhos até a nossa capital. Com o respeito e a admiração de sempre, Vicente Vuolo

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

dezessete − nove =