SEBASTIÃO CARLOS: Eis que a equipe de transição, sob a bandeira da modernização da máquina administrativa, inscreve a necessidade do desaparecimento da Secretaria de Cultura. Nenhuma novidade nisso. O mote é recorrente, com os argumentos de sempre. Desconte-se, de inicio, que ele está sendo ventilado sem a manifestação pública do futuro governador. Aguardemo-la, pois. E só então, sendo concretizada, é que poderemos nos manifestar surpresos com, talvez, o primeiro paradoxo do novo governante.

 Ao mesmo tempo que defende a permanência da Secretaria de Cultura, o historiador Sebastião Carlos argumenta que a direção do órgão de cultura deve estar sob a batuta de gente que tenha "uma visão descortinadora de horizontes".


Ao mesmo tempo que defende a permanência da Secretaria de Cultura, o historiador Sebastião Carlos argumenta que a direção do órgão de cultura deve estar sob a batuta de gente que tenha “uma visão descortinadora de horizontes”.

 

O historiador e acadêmico Sebastião Carlos reforça o grito de alerta contra a extinção da Secretaria de Cultura de Mato Grosso, proposta pela equipe de transição de governo, coordenada pelo sojicultor Otaviano Pivetta. O advogado Eduardo Mahon já nos alertara que Pivetta talvez tenha confundido Cultura com monocultura. O fato é que alguma coisa anda fora da ordem, nesses primeiros passos da nova gestão não tão nova assim, já que o professor Sebastião Carlos aponta o “mote recorrente”. É evidente que, sob a égide da administração de Silval Barbosa, nossa Cultura andou trôpega e até exposta ao crime – mas daí a falar-se em extinção é uma dose cavalar. Como a fala daquele nazista (Herman Goering), também lembrado pelo professor Sebastião Carlos, que dizia que toda vez que ouvia falar em Cultura tinha vontade de puxar o seu revólver.  Com  a responsabilidade de quem aglutinou e, agora, tem que dar um direcionamento orgânico e socialmente eficaz às forças políticas da direita política que juntou, em Mato Grosso, o governador Pedro Taques, já se vê, tem muito que rever, estudar, conversar, para não incorrer em velhas tramas de intolerância. E para não ficar provocando, ainda que não intencionalmente, incômodas invocações, vejam só, de “pensadores” como Herman Goering, um dos generais preferidos de Hitler, fundador da Gestapo (política política responsável pelos campos de concentração criados pelo regime nazista), submetido ao célebre julgamento de Nuremberg, no pós-guerra, e que acabou se suicidando.   Que tudo isto não passe de um acidente de percurso e possamos seguir em frente, sem maiores atropelos. Confira o artigo de Sebastião Carlos. (EC)

 

 

 

 

A Cultura e o seu dilema

POR SEBASTIÃO CARLOS
Talvez um dos assuntos que mais se repetem quando se fala em melhorar a dinâmica da burocracia pública é aquele que trata da necessidade da extinção de órgãos culturais. Dão a essa ideia o apelido de “enxugamento da máquina”.

Existem também aqueles assessores que, se julgando mais atualizados, preferem propor a alternativa da “fusão”, do “agrupamento”, ou coisa que o valha. De tempos em tempos, e mais ainda quando entra um novo governante, o tema volta à baila.

Não poderia ser diferente nestes dias. Eis que a equipe de transição do futuro governador, sob a bandeira da modernização da máquina administrativa, inscreve a necessidade do desaparecimento da Secretaria de Cultura. Nenhuma novidade nisso.

O mote é recorrente, com os argumentos de sempre. Desconte-se, de inicio, que ele está sendo ventilado sem a manifestação pública do futuro governador.

Aguardemo-la, pois. E só então, sendo concretizada, é que poderemos nos manifestar surpresos com, talvez, o primeiro paradoxo do novo governante.

É que o sr. Pedro Taques chega ao Paiaguás como o governador de maior bagagem cultural, desde a redemocratização. “Me sinto obrigado a esclarecer que não me encontro entre aqueles menos avisados que, sem maior preocupação, acham que, pelo simples existir de uma Secretaria de Cultura, já bastaria para valorizar os elementos culturais de um Estado ou região”

Não só por ter pertencido, por mérito próprio, a uma das instituições mais exigentes do país, do ponto de vista intelectual, mas igualmente por ter sido professor universitário e, assim, afeito às lides acadêmicas.

Portanto, compreende ele muito bem a importância da Cultura não apenas como componente do processo pedagógico e do aprimoramento educacional como, de igual modo, para a formação de uma cidadania consciente.

Veremos, em outra ocasião, a raiz que motiva a alguns governantes a terem certa repulsa pelos incentivos que o Estado deve dar à cultura.

Diga-se desde já, porém, que existe nesse pragmatismo um entendimento nato que os leva a considerar as manifestações culturais como sendo para simples deleite ou como mero e descartável enfeite, enfim como um condimento desnecessário para o progresso econômico.

Daí que atribuem sempre aos órgãos de cultura da burocracia estatal um desperdício de recursos financeiros e materiais que é preciso evitar. Deste modo, “enxugá-los”, “fundi-los” ou simplesmente fazê-los desaparecer tornou-se um modo bisonho de demonstrar que “nós seremos eficientes”, que “o novo governo será rigoroso e cortará gastos desnecessários”, etc. etc.

É claro que existe outra faceta muito mais dramática que essa de uma ação contra “órgãos públicos da cultura” e, por que não dizê-lo?, contra a cultura de um modo geral.

Ela foi muito bem expressa por aquele célebre e nefasto personagem da história contemporânea que disse que quando ouvia falar em cultura tinha vontade de sacar o revolver. Felizmente, não é disso que se trata em nosso Brasil atual.

Mas, nesta altura, me sinto obrigado a esclarecer que não me encontro entre aqueles menos avisados que, sem maior preocupação, acham que, pelo simples existir de uma Secretaria de Cultura, já bastaria para valorizar os elementos culturais de um Estado ou região.

Ao contrário, tenho a convicção de que alguns elementos são fundamentais e inarredáveis para a concretização do longo processo de valorização dos fatores culturais.

Entendo que é essencial que se tenha uma política clara e objetiva que possibilite a atender às diversas e diferentes manifestações culturais, existentes em todos os quadrantes do Estado.

De igual modo, de nada adianta deixar os órgãos públicos existiram sem recursos, para morrerem à míngua, sem condições concretas de participarem do conjunto do processo de desenvolvimento.

É preciso que exista uma política amadurecida com todos os segmentos sociais, e não apenas com aqueles diretamente envolvidos nas lides culturais, e que seja dotada de um curso planejado para médio e longo prazo.

O imediatismo e a improvisação que não raro tem predominado só favorecem a determinados setores e contribui para decisões, nem sempre corretas e justas, do eventual dirigente do órgão.

E este é outro aspecto relevante. A direção do órgão de cultura deve estar sob a batuta de gente que tenha uma visão descortinadora de horizontes. Repito: para a administração da área oficial da cultura não e imprescindível que seja um literato, um artista, um acadêmico ou um cientista.

Mas é imperioso que este indivíduo tenha sensibilidade e espírito, que tenha ambição cultural, que seja movido por uma coordenada perspectiva de futuro e que caminhe por todas as vertentes culturais, sem falar, é claro, que tenha efetivas condições intelectuais para auferir as legitimas aspirações de uma crescente população ávida de conhecimento.

E isto, rara e infelizmente, tem acontecido em nosso Estado.

 

SEBASTIÃO CARLOS GOMES DE CARVALHO é advogado, professor, e membro da Academia Mato-grossense de Letras. Publicou, entre outros, o “Dicionário de Termos e Expressões de Mato Grosso”.

4 Comentários

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  1. - IP 191.247.226.148 - Responder

    Excelente reflexão… Parabéns!!!

  2. - IP 191.179.147.115 - Responder

    Enock
    Obrigado pela reprodução do artigo. Suas colocações iniciais são procedentes. Só quero corrigir-lhe num ponto: quem disse a famosa expresão não foi Herman Goering, um dos fundadores da Gestapo, e depois o Reichsmarschall da Wehrmacht. A frase é de Joseph Goebbels o poderoso Ministro da Propaganda. Ele exerceu o total controle sobre os meios de comunicação, artes e informação na Alemanha e uma de suas primeiras iniciativas foi a queima de livros, sobretudo de literatura e filosofia. Foi extremamente hábil na utilização de modernas técnicas de propaganda a favor do Reich e antisemita. Mas não citei o nome dele no artigo, porque acho que ainda não é o caso. Embora a liberdade de expressão só possa existir com a continua e inequivoca vigilancia dos autenticos democratas.

  3. - IP 187.183.143.144 - Responder

    Sebastião Carlos,
    a frase “Sempre que ouço a palavra cultura, tenho vontade de sacar uma arma” já foi atribuída a pelo menos três autores. Todos, não por coincidência, trabalharam para Hitler.
    Um deles, Joseph Goebbels, era o marqueteiro do Führer. O outro, Herman Göring, o chefe da polícia nazista, a Gestapo.
    O enunciado, ainda que caiba bem no repertório nazista, – segundo li no Blogue do Bruggemann, cujo texto vou reproduzindo aqui – foi dita por um personagem de uma peça escrita por Hanns Johst, poeta e dramaturgo alemão simpatizante do Nacional Socialismo. O mais provável é que Johst tenha criado o personagem, mistura de Göring e Goebbels, justamente para homenageá-los, corroborando assim a vontade de “matar a cultura”.
    O cineasta francês, Jean-Luc Godard, no filme “O desprezo”, tem um personagem, que é produtor de filmes – uma paródia aos produtores norte-americanos – que em uma pequena sala de exibição, diz, em tom irônico: “Cada vez que ouço a palavra cultura tenho vontade de sacar meu talão de cheques”.
    (eu, enock, com apoio do Fábio Brüggemann, escritor e articulista do Diário Catarinense)

  4. - IP 177.203.40.8 - Responder

    Torcemos para que a Política Cultural não fique sob as inspirações dos intelectuais Otaviano Piveta, Zeca Viana, Guilherme Maluf, Fábio Garcia e Nilson Leitão.

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