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SEBASTIÃO CARLOS E OS CEM DIAS DE ZÉ PEDRO TAQUES: “Uma conclusão primária se impõe: as celebrações prematuras, tal como aconteceu com Napoleão, muitas vezes, ao final, têm gosto de fel e podem simbolizar o caminho que vai da glória às ínvias trilhas que conduzem ao desastre”

Zé Pedro Taques, o governador, e Sebastião Carlos, o historiador

Zé Pedro Taques, o governador, e Sebastião Carlos, o historiador

Cem Dias

Por Sebastião Carlos

Não é de hoje que se cria expectativa em torno dos cem primeiros dias de um governo. Esses dias são encarados tanto como um período em que se observam os passos iniciais do novo governante, a partir dos quais se procura perscrutar o futuro, como também são aqueles em que os perdedores estabelecem uma trégua não apenas para não parecerem antipáticos diante da população mas, sobretudo, para melhor poderem articular a estratégia a ser seguida pela oposição.

A expressão ‘Cem Dias de Governo’ nasce no século XIX para registrar o período que marcou o retorno do Imperador Napoleão Bonaparte ao poder, após a fuga do exílio na Ilha de Elba. Em 20 de março de 1815 ele chega a Paris, tendo arrebanhado pelo caminho milhares de seguidores. Ato contínuo, Inglaterra, Rússia, Prússia e Áustria, reunidas no Congresso de Viena, formalmente declaram o Imperador “um fora da lei” e com o objetivo de remover do trono reconquistado o grande comandante formam a coalização denominada “Sétima Coligação”. Cem dias depois, tendo perdido a batalha de Waterloo, Napoleão era novamente deposto e mandado para o exílio na Ilha de Santa Helena, aonde morreria em 1821. Como se vê, ao longo dos anos, a expressão ganhou uma variante, pois, se ainda fosse tomada no sentido original ela mais do que expectativa sobre o futuro significaria perspectiva de derrota, ou, no mínimo, anuncio de mau agouro.

         Por esses dias, lemos muito sobre os primeiros cem dias do governo de Pedro Taques. Fui até ouvido a respeito pelo site Hipernoticias. Difícil julgar um governo que mal dá os primeiros passos. É óbvio que o primeiro parâmetro para esse julgamento será a comparação entre o que se prometeu na campanha com o que se indica que será feito. Desnecessário dizer que todo governante chega ao poder carregando consigo certa bagagem de credibilidade e uma grande expectativa. Todos, eu disse, com a exceção da Dilma, claro. Mas, vale lembrar, a dela é a da reeleição e pouquíssimos escaparam da maldição do segundo mandato. Em nosso caso, quando se derrota um governo que estava no fundo do poço, enrolado até o pescoço em crise de total descrédito, a margem de expectativa é maior ainda. E, em consequência, maior também será a cobrança. Não há muito que se fazer em três meses, é verdade, mas também não se deve criar tantas expectativas, como aqui foi o caso.

         Taques chega ao Paiaguás interrompendo um mandato senatorial que exercia com desempenho dos melhores. Fez campanha pregando a renovação administrativa e propondo o combate intransigente às mazelas da corrupção. Portanto, gerando expectativas além dos limites. Convenhamos, nada melhor para este nosso Mato Grosso sempre tão esperançoso de dias melhores que não seja apenas para os campos férteis do agronegócio.

         Mas eis que aparecem os primeiros pedregulhos no caminho florido. Talvez um pouco cedo para um namoro que vinha tão bem. No entanto, a vida pública nem sempre sorri com os dentes claros. E os cem dias não estão sendo de paz e de tranquilidade. O que era expectativa favorável está se tornand0 em cobranças ásperas. Todavia, muito mais duro e inclemente, não é, e nem será, a cobrança dos diversos setores da sociedade. Nada a estranhar pois faz parte do jogo. Mais ainda para quem gerou grandes expectativas e que não menos promessas fez. O mais preocupante para o governador, contudo, deve ser a crescente cobrança que a realidade concreta faz e fará. Esta costuma ser implacável e, não raro, definitiva.

         O próprio governador é que gerou grande expectativa sobre os primeiros cem dias ao anunciar a “novidade” sobre um certo “contrato de gestão” que firmaria com o primeiro escalão. O marketing oficial chamou atenção, embora o fato fosse inusitado. O contrato, como é sabido, é ato de vontade bilateral que impõe compromisso para ambas as partes. Ocorre que nesse “contrato de gestão” o único responsável por seu cumprimento parece ser o “contratado”. Sem dúvida uma inovação jurídica sui generis. Daí que o nome a lhe ser atribuído, entendo, deveria ter sido outro. Disse o governador: “o secretariado será obrigado a cumprir metas rígidas no período e quem não dar conta do recado, corre o risco real de ser substituído”. Como ninguém, passados os cem dias, foi exonerado é porque, conclui-se, todas as metas estabelecidas foram cumpridas.

A promulgação da lei da reforma administrativa, prevendo uma economia de perto de 150 milhões por ano e a extinção de mais de mil cargos em comissão representa, sem duvida, ponto altamente positivo e de grande importância para um bom começo. O enxugamento da máquina é imprescindível. Todos os antecessores nela falaram e alguns até a intentaram com certa razoabilidade … até a metade do governo.

Os ventos iniciais, como acontecem nestes casos, foram alvissareiros. Porém, não durou muito a bonança. Uma inesperada rajada de vento toldou as velas do barco. Atenção: o vento forte pode ser aviso de chuvas e trovoadas. O primeiro desse impacto aparece quando vem a publico que dois dos mais importantes auxiliares do governador não haviam prestado contas de recursos que teriam recebido para executarem projetos culturais. E isto passados mais de uma década. Para quem esperava, tal como o prometido, o rigoroso combate às mazelas com o dinheiro público a reação a esse fato seguramente não foi a esperada. Logo veio à mente de todos o tratamento, agora clássico, que Itamar Franco deu ao episódio em que se supunha estaria envolvido seu ministro Hargreaves. Mas, aqui, nada.

Em seguida veio o rompimento com o deputado presidente de seu partido e um dos que mais se empenhara na sua eleição. Na sequencia, que ainda continua, a especulação de que estaria deixando a legenda que o elegera. As razões e o mérito de cada um desses fatos importam pouco. O que vale para análise é que eles estão acontecendo e, no meu entender, não são nada positivos. A prematura troca de partido não é bem um bom exemplo para quem valoriza o jogo democrático. Veremos.

O horizonte parece se mostrar mais turvo ainda quando começa a se assistir o descompasso com o funcionalismo público. Este está a exigir o cumprimento de reajuste salarial que seja, no mínimo, compatível com a inflação. Neste caso trata-se, sem duvida, de uma indesejável queda de braço com desdobramentos imprevisíveis e desgastantes que, lamentavelmente, pode se prolongar ao longo de toda a gestão. Com prejuízos para ambos os lados. E maior ainda para a população.

No mínimo cabe aqui uma conclusão primária: as celebrações prematuras podem muitas vezes ter gosto de fel e, tal como aconteceu com Napoleão, cem dias podem representar o caminho que vai da glória às ínvias trilhas que conduzem ao desastre.

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado e historiador. Publicou, entre outros, “Governadores – Meio século de vida pública”.

1 Comentário

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  1. - Responder

    Se Pedro Taques ler o texto em algum material impresso vai sentir o sabor de papel misturado à tinta. Os puxa-sacos e pelegos de plantão devem preparar um copo de água com açúcar para Dom Pedrito I. E devem sair de perto porque vai sobrar para alguém… sempre sobra… não estou falando da àgua com açúcar…

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