SEBASTIÃO CARLOS: É inconcebível que, perto de completar 300 anos, Cuiabá tenha que estar discutindo a possível extinção de sua Secretaria de Cultura. Esta não é certamente a melhor ideia de Mauro Mendes

O professor Sebastião Carlos faz um alerta ao prefeito Mauro Mendes: "Em pleno século XXI, já não mais se permite a ninguém, minimamente antenado com as exigências sociais, políticas e econômicas contemporâneas, desconhecer a importância fundamental que a Cultura, como um conjunto homogêneo, isto é, em todas as suas vertentes, representa para proporcionar ao homem de nosso tempo uma vida condigna."

CULTURA: FUSÃO É IDÉIA INACEITÁVEL
por Sebastião Carlos

É inconcebível que, perto de completar trezentos anos, Cuiabá tenha que estar discutindo a possível extinção de sua Secretaria de Cultura. No entanto, é disto que se cogita em gabinetes alencastrinos. Lamentável, para dizer-se o mínimo. Esta não é certamente a melhor ideia do novo alcaide. Alguns aspectos da questão devem ser pensados antes da propositura ao Legislativo.
A motivação básica para a iniciativa parece ser a da economia de custos e a da eficiência administrativa. Pode, no entanto, vir a ser um tiro no pé. Fundir cultura com turismo é ver de modo vesgo a importância do processo cultural para uma comunidade. Administrativamente, a gestão da cultura sempre esteve adstrita, como um apendiculo, à da educação. Era a prima pobre. Embora se constate que nem mesmo aquela atingiu o patamar necessário ao grau de modernidade exigido para uma nação do porte da brasileira. O país se modernizou e foi criado um Ministério da Cultura, e órgãos assemelhados surgiram nos Estados e nos municípios. Embora com as menores dotações orçamentárias, a gestão da cultura adquiriu certa evidência e autonomia. Todos os Estados e suas capitais possuem uma Secretaria de Cultura e vários municípios, inclusive em Mato Grosso, também as têm. Querer extinguir a da capital do Estado, nas vésperas de um magno evento como a tão decantada Copa do Mundo e nas imediações do tricentenário, trata-se, inegavelmente, de um contrassenso. Será, sem dúvida, empreender uma marcha ré na história da cultura do município.
Em pleno século XXI, já não mais se permite a ninguém, minimamente antenado com as exigências sociais, políticas e econômicas contemporâneas, desconhecer a importância fundamental que a Cultura, como um conjunto homogêneo, isto é, em todas as suas vertentes, representa para proporcionar ao homem de nosso tempo uma vida condigna. Mas, está claro, para que se tenha essa compreensão exige-se igualmente que se possua um mínimo de sensibilidade. Política e moral. Mais que os elementos da produção material que são tão entusiasticamente celebrados por governantes de todos os matizes políticos – traduzidos em números e contabilizados nas bolsas de valores e de commodity – a cultura, por sua essência imaterial e eterna, representa a identidade de um povo. Estimular a produção cultural significa contribuir decisivamente para consolidar uma autoimagem positiva e aprofundar o autorrespeito desse povo.
Escrevi produção cultural e logo antevejo aqueles que só se preocupam com os índices econômicos, me lerem com os olhos espantados de ceticismo. Sim, senhores, cultura também pode ser um bom negócio. A cadeia produtiva da cultura gera empregos, movimenta recursos, atraí investimentos. É preciso, contudo, repito, ter sensibilidade e conhecimento. Sim, conhecimento de causa para saber explorar todos esses aspectos.
Cuiabá possui elementos culturais os mais variados, que se desdobram na música, no artesanato, nas artes plásticas, na literatura, no teatro e nas mídias contemporâneas, na ensaística, na dança clássica e popular, enfim, elementos que, somente os desavisados, enxergam apenas dois ou três deles. Não temos uma biblioteca pública municipal, que assim possa ser chamada. O centro histórico não é preservado e afugenta os poucos interessados, o estimulo para todos os outros setores tem sido quase nulo. Não creio, nem tampouco defendo, que o poder público deva fazer tudo, por tudo ser o responsável. Não, isso resulta no desgraçado dirigismo que anula talentos e premia as mediocridades. Mas cabe, isto sim, ao poder público ser o grande avivador das vocações, estimulador dos talentos, animador da paisagem cultural. Mas isto será tema para discussões futuras.
Não me coloco aqui, tampouco, como defensor, pura e simplesmente, longe disso, da existência de um órgão gestor da cultura do município para que ele exista por si mesmo, como mais uma burocracia na estrutura administrativa. E que então sobreviva na ineficácia. Não. A ser desse modo não tem qualquer sentido. É imperioso, ao contrário, dotá-lo de recursos financeiros e humanos suficientes e que no seu comando tenha um staff de pessoas comprometidas com a cultura e com a humanidade. Enfim, uma equipe dirigente que tenha sensibilidade e conhecimento de causa para o trato de um vetor tão sério e fundamental como a cultura.
Todos esperamos que o prefeito Mauro Mendes, homem moderno, eleito com um discurso de renovação e inovação, e certamente preocupado em construir uma Cuiabá para o futuro, terá o bom senso de não cometer a temeridade de enviar o projeto de fusão.

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é professor e advogado. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, entre outras instituições culturais.

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