gonçalves cordeiro

Se colocados num espremedor de fatos o despacho do delegado federal Josélio Sousa, pedindo que o presidente Lula seja ouvido no âmbito da operação Lava Jato, e a matéria do repórter Filipe Coutinho, da revista Época, noticiando a iniciativa com estardalhaço, não se obterá uma xícara de xarope da verdade. Os dois ingredientes juntos produzem muita espuma venenosa que, depois da desejada intoxicação política, será levada pelo ralo. Mas o mal já estará feito, como sempre acontece nestes jogos entre procuradores, delegados e jornalistas para garantir manchetes e processos. Leia ANÁLISES de Tereza Cruvinel e Miguel do Rosário e o OFÍCIO do delegado Josélio Azevedo de Souza

Policia Federal pede ao STF para ouvir presidente Lula em inquérito da Lava Jato by Enock Cavalcanti

O presidente Lula(PT) com o ex-governador de Mato Grosso e atual senador Blairo Maggi (PR)

O presidente Lula(PT) com o ex-governador de Mato Grosso e atual senador Blairo Maggi (PR)

O gosto de Época por espumas venenosas

por Tereza Cruvinel, no Brasil 247

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Se colocados num espremedor de fatos o despacho do delegado federal Josélio Sousa, pedindo que o ex-presidente Lula seja ouvido no âmbito da operação Lava Jato, e a matéria do repórter Filipe Coutinho, da revista Época, noticiando a iniciativa com estardalhaço, não se obterá uma xícara de xarope da verdade. Os dois ingredientes juntos produzem muita espuma venenosa que, depois da desejada intoxicação política, será levada pelo ralo. Mas o mal já estará feito, como sempre acontece nestes jogos entre procuradores, delegados e jornalistas para garantir manchetes e processos.

“Exclusivo: Lula é suspeito de ter se beneficiado do petrolão”, disse a manchete de Época. Se Lula é suspeito, é porque existem indícios, fortes ou não, de que se beneficiou do esquema de corrupção na Petrobrás, pensará qualquer mortal. Procuremos então os indícios que sustentaram a iniciativa do delegado em seu próprio pedido ao STF para que Lula seja ouvido. “Em razão das suspeitas, a polícia pediu ao STF autorização para tomar depoimento do ex-presidente”, reforça Época, falando novamente em suspeitas. Mas vamos ao despacho do delegado tentar saber o que as embasa. Espreme daqui, espreme dali, os indícios não aparecem. Suas palavras não produzem uma gota de indícios que amparem a afirmação de que existem “suspeitas”. No direito, suspeita é uma figura jurídica concreta, para além da mera desconfiança ou presunção.

“Atenta ao aspecto político dos acontecimentos, a presente investigação não pode se furtar de trazer à luz da apuração dos fatos a pessoa do então presidente da República, LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA que, na condição de mandatário máximo do país, pode ter sido beneficiado pela esquema em cursa na PETROBRAS, obtendo vantagens para si, para seu partido, o PT, ou mesmo para seu governo, com a manutenção de uma base de apoio partidário sustentada à custa de negócios ilícitos na referida estatal”.

Este é o texto do delegado, mas ele não diz nada, apenas insinua que Lula pode ter se beneficiado. Procuremos mais. O delegado pondera que os colaboradores Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa apenas “presumiram” que o ex-presidente poderia conhecer o esquema, por sua magnitude, não dispondo eles, porém, de qualquer prova ou evidência. Por isso, Lula precisa ser ouvido.

O que busca então o delegado? Apenas empurrar Lula para dentro da Lava Jato, e já preparando o caminho para a aplicação da teoria do domínio do fato. Resumidamente, o que ele diz e Época reverbera é: Ainda que Lula não soubesse, como presidente ele devia saber do que se passava, e portanto, deve ser culpado.

Aguardemos o juízo que disso fará o procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

 

 

“LAVA JATO”
Leia o ofício em que a PF pede ao Supremo para ouvir o presidente Lula

A Polícia Federal quer ouvir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva porque, diante do cargo que ele ocupou, Paulo Roberto Costa e Aberto Youssef “presumem que ele tivesse conhecimento do esquema de corrupção descortinado na Petrobras” pela operação “lava jato”. Costa e Youssef assinaram acordos de delação premiada com o Ministério Público Federal e são as principais fontes de informação dos investigadores.

O pedido para ouvir Lula foi entregue pela PF ao Supremo Tribunal Federal nesta quinta-feira (10/9), em um dos inquéritos relacionados à “lava jato”. O relator do inquérito é o ministro Teori Zavascki, mas, como a PF não pode peticionar ao Supremo em inquéritos, o pedido só será avaliado pelo ministro depois do pronunciamento da Procuradoria-Geral da República.

No ofício enviado ao STF, a Polícia Federal afirma que, de fato, não há provas do envolvimento de Lula no esquema investigado. Apenas diz que, “atenta ao aspecto político dos acontecimentos”, deve ouvir o ex-presidente. O que a PF quer saber é “se o esquema que ora se apura é, antes de tudo, um esquema de poder político alimentado com vultosos recursos da maior empresa do Brasil”.

O pedido discute que o “sistema político de coalizão” vigente no Brasil leva à conclusão de que houve a participação do Palácio do Planalto no esquema, como disse Youssef. No entanto, a própria PF diz que “os colaboradores, porém, não dispõem de elementos concretos que impliquem a participação direta do então presidente Lula nos fatos”.

A PF também quer ouvir o presidente do PT, Rui Falcão, e os ex-presidentes da Petrobras José Eduardo Dutra e José Sérgio Gabrielli.
FONTE CONSULTOR JURÍDICO

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ANÁLISE

Brasil, o país da crise política eterna

POR MIGUEL DO ROSÁRIO, no blogue O Cafezinho

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Análise Diária de Conjuntura – 11/09/2015

Como esperado, as conspirações midiático-judiciais trazem o seu escândalo de final de semana. Dessa feita, um pedido, feito por um policial federal, para ouvir Lula. É naturalmente um factoide político para atingir o ex-presidente, principal alvo das oposições pelo que ainda representa em termos eleitorais.

No front externo, a queda nas avaliações da Standard & Poor’s continua sendo usada pelos mercados em seus ataques especulativos ao Brasil. A mídia, por sua vez, usa para atacar o governo e impor suas visões políticas.

O governo permanece desorientado, à mercê das fofocas. O blog do Gerson Camarotti, da Globo, informa que Mercadante não sai da Casa Civil. A pessoa que não acompanha de perto a política achará até engraçado. O governo só aparece com notícias negativas, tipo essa, de que Mercadante não sai. Isso acontece, naturalmente, porque o próprio Mercadante é uma figura negativa, silenciosa, enigmática.

Dilma continua operando o governo completamente isolada, visto que não tem porta-voz nem ninguém que se exponha para defender os projetos federais, que aliás não se sabem quais sejam justamente porque ninguém diz. Na TV, a propaganda do governo são desenhinhos animados, falando das obras de infra-estrutura.

O PT enfia cada vez mais sua cabeça num buraco, sem conseguir reagir às conspirações. Achava que iria sobreviver ao mensalão através da tática de entregar o máximo possível de cabeças, e deixar a luta política para setores minoritários da sociedade. Não adiantou nada. A situação se agravou.

O texto do delegado que acusa Lula usa exatamente os mesmos raciocínios das acusações do mensalão. Acusações políticas, de usar recursos financeiros das empresas para financiar campanhas e, com isso, manter o apoio político ao governo. É a mesma coisa. Com isso, pode-se repetir as táticas do julgamento do mensalão, jamais denunciadas a contento pelos ministros da justiça do PT, que apenas repetem, submissamente, uma lógica republicana que, fingindo respeito ao Estado de direito, apenas chancela os crimes cometidos contra o próprio Estado de direito. Porque, no fundo, a covardia respeita o que não deveria se respeitar no Estado de direito: os nomes, as capas pretas. O respeito deve ser dado às leis, e ao debate, claro, que é a essência da própria democracia. O debate crítico sobre o mensalão, a denúncia das conspirações não é abraçada pelo governo, que, ao contrário, lhes dá chancela e apoio, como um sapo que acreditasse que o escorpião realmente tem a intenção de lhe ajudar a chegar ao outro lado do rio.

Dei um nome um pouco mais elegante para o golpômetro: Índice de Estabilidade do Governo, e comecei a fazer uma tabela e um gráfico. Publicarei o gráfico diariamente, ou ao menos enquanto o índice estiver acima de dez pontos e a crise se mostrar um pouco mais perigosa.

A obsessão da mídia para destruir Lula é doentia, mas Lula também tem a sua parcela de culpa por esta situação. Sob orientação de Lula, o PT menosprezou a criação de importantes think tanks que produzissem inteligência política para fazer frente às conspirações midiático-judiciais e apresentar debates sobre o futuro político do partido e do governo. Os processos de democracia interna também se degeneraram. O processo de escolha da própria Dilma, por exemplo, sem dar oportunidade aos filiados do PT de a conhecerem primeiro, de testemunharem seu desempenho em debates, em situações difíceis, gerou um problema pelo qual pagamos até hoje.

Enquanto o site e as redes do PT eram tocados por uma agência americana, que cobrava mais de R$ 6 milhões por ano pelo serviço, enquanto o partido destinava dezenas de milhões de reais para os esquemas de campanha oficial, uma imensa intelectualidade simpática ao partido, nas universidades, nas empresas, na sociedade, foi alijada do debate político da legenda e do governo. Os sites do partido apenas publicam artigos dos mesmos nomes. Há milhares de intelectuais simpatizantes do PT, no campo da ciência política, do direito, da sociologia, etc, ansiosos por ajudar, e o PT dando milhões por ano para Pepper e torrando outros milhões em festas e congressos em hoteis de luxo.

A militância foi desprezada. Não houve investimento em formação de quadros. A Perseu Abramo virou um zero à esquerda. Tudo isso resultou num partido sem nervos, sem fibra, sem ossos, sem técnicas de contra-ataque, sem poder de investigação, sem cultura, sem inteligência, sem criatividade. E isso apesar de uma enorme militância culta, inteligente e criativa.

Grande parte da responsabilidade política da crise cabe ao PT, porque ele teria obrigação de ser a ponte entre a sociedade e o governo, fornecendo quadros e argumentos políticos. O resultado está aí: um governo e um partido afônicos e analfabetos. Não sabem falar e não sabem escrever. O Rui Falcão, presidente do PT, até tentou liderar uma reação meses atrás, mas desistiu. Governo e PT estão sem porta-voz, sem estratégias, sem relações públicas.

A direita acusa o PT e o governo de terem financiado blogs, mas é mentira. Nunca financiaram nada. O PT concentrou suas verbas na agência norte-americana Pepper, que agora faz as malas e vai embora, sem ter deixado nada acumulado. O governo Dilma ampliou a concentração das verbas de publicidade nos mesmos grandes meios que protagonizam as conspirações midiático-judiciais que visam derrubar o governo.

Aliás, as empresas de mídia fingiram se posicionar contra o golpe, tentando fugir ao estigma da história, mas continuam agindo exatamente da mesma maneira, buscando permanentemente desestabilizar o governo.

Nem PT nem governo jamais defenderam políticas públicas concretas para criar, na internet, um jornalismo profissional contramajoritário, que pudesse oferecer ao Brasil uma visão diferente daquela oferecida pela Globo. O partido, no máximo, critica a mídia em momentos mais agudos de crise política.

O desprezo, ou medo, de Dilma pelo tema da democratização da mídia é algo estarrecedor, sobretudo após tê-lo usado durante a campanha. Boa parte da queda da popularidade de Dilma vem de seus próprios eleitores. Se o governo quiser melhorar sua aprovação, basta voltar a este tema. Falar é grátis. É democrático. A ONU fala do assunto. O papa fala do assunto. EUA tem regras, Inglaterra tem regras. Alemanha tem regras. Basta falar, usar a inteligência, comparar com outros países. O governo tem de ampliar a sua base de apoio na sociedade, se quiser, de fato, buscar a estabilidade política. Para isso, tem de fazer política. Tem de construir aliados, e não os conseguirá na oposição e na parcela da sociedade radicalizada contra o governo.

A direita, por sua vez, vem investindo em inteligência há tempos, pagando blogueiros a peso de ouro, criando think tanks (instituto millenium), patrocinando bolsas de estudo. O atual editor da Época, Diego Escrotogoy, recebeu bolsa do Millenium para fazer um curso nos EUA. Diego hoje retribui o favor organizando uma das frentes de ataque da Globo ao BNDES e a Lula.

1 Comentário

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  1. - Responder

    A fotografia acima de Blairo Maggi e LuLLão representa bem um acordo de divisão dos despojos entre dois legítimos representantes das elites abastadas do país.

    é isso que Lullão se tornou: um leva-e-traz a serviço dos poderosos.

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