SAÍTO palpita que cuspir na própria imagem parece ser uma característica de nosso povo. “Se o homem é o lobo do homem, segundo Thomas Hobbes em Leviatã, o brasileiro é o lobo do brasileiro.”

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Até quando?
POR GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

Se o homem é o lobo do homem, segundo Thomas Hobbes em Leviatã, o brasileiro é o lobo do brasileiro, segundo nós mesmos. Sim, nós mesmos. Acreditamos piamente em nossa análise, ainda que assombrosa. Não é interessante? O analista se faz de objeto de investigação para entender a si próprio. Que maravilha… E não tem nada de contraditório nisso, mesmo porque não existe contradição de contradição, já que sujeito e objeto, aqui analisados, têm a mesma face, que coincidem na singular moeda.
Aos que discordam, observem melhor as entrevistas e palestras de notáveis brasileiros em eventos no exterior. Sempre se referem ao Brasil como uma espécie de paciente em estado terminal, ocupando algum leito do pior hospital e no mais nebuloso destino. Carregam nas palavras, fazem até biquinho a demonstrar sapiência no francês. No inglês, as gírias americanas os entusiasmam.
Começam algo mais ou menos assim: O Brasil é lindo! País tropical, praias e clima maravilhosos. Povo bondoso e religioso. Mas vai muito mal, cada vez pior, é um desastre em desenvolvimento econômico e humano, na política é um Deus nos acuda. Nada funciona – hospitais, postos de saúde, serviço público, a polícia, tudo do mais atrasado que se possa imaginar-. As estrelas brilham apaixonadamente em seu céu, mas lá embaixo é uma catástrofe total. E vai mais biquinho, e mais “je suis désolé” para o delírio da plateia de ambiente austero, e com cheiro de Channel a dominar-lhe o olfato. Falam sempre na 3ª pessoa. Natural, os analistas da pátria precisam ser equidistantes.
Tido por reacionário, Nelson Rodrigues, escreveu algo interessante: “O que atrapalha o brasileiro é o próprio brasileiro. Não sei se repararam. Cada um de nós é um Narciso às avessas e, repito, um Narciso que cospe na própria imagem. Aqui mesmo, nesta coluna, perguntei umas vinte vezes – será que nos faltam motivos pessoais e históricos para a autoestima?”.
O cuspir na própria imagem parece ser uma característica nossa. Temos um Machado de Assis, Fernando Sabino, Drummond, e gostamos de afirmar entrosamento com Shakespeare, Proust, Dostoiévski. Assim caminhamos, de mãos dadas com a roda viva, com os nossos inconfessáveis pecados.
Até no futebol nos pegamos acreditando mais nos argentinos, ingleses e espanhóis do que na seleção canarinho. Alto lá, nem todos ao que parece, pois, recentemente apareceu o rei Pelé e nos acendeu a chama da esperança. Disse o maior artilheiro de todos os tempos que gostaria de uma final entre Brasil e o Uruguai na copa 2014. Pera aí, mas só gostaria? Voltemos, então…
Certo dia, vociferando pela TV a cabo, um desses, que certa vez escreveu impropérios até do nosso querido Mato Grosso, em concorrido programa televisivo com outros três para o Brasil, de fora para dentro, do exterior, onde moram, para os brasileiros, afirmou que por aqui não há partidos políticos. O que existe, segundo a sua “genialidade”, seria um amontoado de gente unida para a prática da corrupção. Roupa suja não se lava mais em casa, pensei! E continuam os “notáveis” a propagandear o país lá fora.
E nós, cá inferiorizados, lhes enchemos a bola. Até autógrafos solicitamos. São recebidos em palácios e sempre requisitados. Cobaias que somos nas mãos da canalha. Tomam-nos como bode expiatório em seus estrelatos e, ainda assim, lhes honramos com caros tapetes. Afinal, somos idiotas? Lobos a lamber seus algozes? Basta. A paciência está se esgotando. As ruas não nos assustam mais. Somente aos que ganham com a tolerância dos néscios é que ficam assombrados. E como ficam…

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO, SAÍTO, é juiz eleitoral, membro das Academias de Magistrados e de Direito Constitucional de Mato Grosso, e escreve aos domingos em A Gazeta (Email: antunesdebarros@hotmail.com).

Categorias:Cidadania

2 Comentários

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  1. - IP 201.24.183.67 - Responder

    É verdade… precisamos ter mais autoestima!!!

  2. - IP 189.31.39.239 - Responder

    Não só “O cuspir na própria imagem parece ser uma característica nossa” como também o ato de receber cusparada na cara, como muito bem foi retratado no episódio do serelepe cantor canadense Justin Bieber, que do alto cuspiu nas fãs brasileiras, que com as bocas escancaradas procuraram alucinadamente solver a “quase sacra essência gosmenta”! O que em outros países seria uma séria ofensa e desvio de caráter, por aqui o gesto foi recebido como uma gentil e verdadeira prova de amor do ídolo para suas fãs!

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