SAÍTO, magistrado e poeta, se lança em espreitas reflexivas, se põe a observar o comportamento das pessoas e faz algumas descobertas que são tesouros em ilação a serem guardados e viram crônica – retratando a condição humana

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POR GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

Partir a caminhar, sozinho, apesar de estar em multidão, é muitíssimo interessante. Observar pessoas, comportamentos, de um ângulo a tornar-te invisível, indevassável, e, ao mesmo tempo, reflexivo. Façam a experiência, vale a pena; e observa, apenas observa.

A espreita reflexiva não precisa ser na rua, pode contemplar a complexidade humana em seu ambiente de trabalho, na escola ou mesmo na igreja. Se tomar a paciência como amiga, realiza-a em sua família, também.

São tesouros em ilações a ser guardados; teorias explicativas surgirão como mágicas a anuviar a tensão da vida em sociedade e suas implicações. Desde a omissão relevante, como a um grito sem som, conviverás, sem, contudo, estar diretamente envolvido, com todo tipo de comportamento, gesto, aceno, cumprimento, cara feia, cara de pau, bondade e até crueldade. Sim, somos capazes de muitas coisas, delas dizem que até Deus duvida.

Sem separar inocentes de culpados, engalfinhamos em relações lógicas de estar e avançar como num feixe cuidadosamente desenhado pela condição humana. Gente de cara amarrada, doída pelo sorriso inexistente, convive ‘male má’ com os de fala e cumprimento afáveis, o de humilde vestir com os de gala na aparência, os mancos com os de porte atlético, os letrados e os analfabetos em inovadora semiótica comunicativa de fazer inveja ao cinema mudo.

Numa dessas espreitas reflexivas, aproximei, mas sem me deixar notar, de duas distintas senhoras, bem vestidas e bem maquiadas. A reclamação como ponto de interação e convergência entre ambas, ao menos naquele momento, se dirigia à segurança pública. O aumento do crime de furto e roubo dominava-as a atenção. Após discorrerem sobre prisão ‘para toda a vida’ e ‘pena de morte’, e talvez sumirem com boa parte dos brasileiros ditos delinquentes, ambas se despediram marcando um encontro para o domingo próximo, na igreja.

Minutos depois, continuando minha vontade extrema em socorrer-me a inquietação, acheguei a dois senhores, também bem vestidos, aparentando sexagenários. A conversa girava num mesclar de futebol, política e economia. Após cansarem de bater e derrubar pelo menos dez clubes e cinquenta autoridades, concluíram que o melhor é deixar a política de lado e contratar bons contadores para suas empresas, mesmo porque os dentes da receita federal e estadual estavam afiados e precisavam dar um jeito de enganar o leão. Também se despediram e, em juras de um breve reencontro, o marcaram para a missa de domingo.

Achei sintomático, a casa de Nosso Senhor? Mas fui em frente e reiniciei a busca por conhecimento popular, me aproximando de dois jovens. Da mesma forma, após arrotarem desilusões e que ‘bandido bom é bandido morto’, além de outras impublicáveis pérolas, se despediram com um ‘vai com Deus’.

Comecei a pensar num grande espetáculo,/De sôfregos em retirada/Forças densas pensadas/Acompanhavam a togada/De pau em riste, ou pedra de brita/No caminho, sempre um obstáculo persiste/Retirar-se ou retirar, ação nos opostos/Punho contraposto, quê da mesmice/Que fazer… Engalfinha, persiste/Decantando a maldição de um sofrer que não disse/Mas em pensamento existe./Tempo a tanto amargurar,/A represa extravasa, o ressentimento vaza/Chora e expulsa, chega à crise/Um nascer, no pensamento não existe/É real e subsiste/Pesar de quem só assiste/Omissão da patuleia,/Deus existe?

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO é professor universitário, magistrado, membro fundador da Associação Poetas Del Mundo, cronista e escreve aos domingos em A Gazeta (antunesdebarros@hotmail.com).

 

 

3 Comentários

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  1. - IP 64.20.10.221 - Responder

    Acho que está faltando serviço no judiciário matogrossense, vamos lá ver a produtividades dos juízes, a coisa tá feia.

    • - IP 189.31.50.196 - Responder

      kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. - IP 177.142.162.167 - Responder

    Excelente texto! Envolvente e inspirador!

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