SAÍTO garante que Nelson Mandela, o Madiba, não morreu. E, para prová-lo, cita Cora Coralina: “Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos”

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Mandela livre…

por GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

A morte encerra sonhos, conquistas, etapas de uma existência. Mas há mortes que nada encerram. Mandam para a posteridade um sinal, um sopro, um sorrir de esperança. Nesses casos, funciona a morte mais como um aceno, longe de ser um até breve, é um constante devir. É vida sem corpo, é vida sem toque, é vida sem existência, é vida em abstrato, é puro exemplo e teoria.
A morte é vencida quando se dobra à evidência, não a evidência que se vê, palpável, mas a que se sente, que mora na consciência de toda uma civilização. Nelson Mandela, o Madiba, como é carinhosamente chamado pelo seu povo mais próximo, porque seu somos todos enquanto liderados, não morreu. Nas palavras de Cora Coralina – “Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos”-. Madiba nos deixa seus versos, neles viverá eternamente. Aparecendo um apartheid de qualquer ordem, raça ou poder, não passará de mero susto, o seu exemplo venceu e se tornou maior. Basta recitá-lo. E se por teimosia persistir, não se lhe cobrará a conta, mas sim de quem inventou o ódio.
De quando em vez mergulhamos num processo reflexivo. E de quando em vez nos achamos; sim, nos encontramos, perdidos estávamos. E curiosamente quase sempre não sabíamos. O apóstolo Pedro também se perdeu, e logo ao lado do Mestre. Ouviu a admoestação: homem de pouca fé, por que duvidaste? E Jesus o trouxe de volta ao barco. Se ali morresse, ali encerraria, não ficaria como exemplo póstumo. Momentaneamente se perdeu, acreditou na carne, na matéria, e não na força da convicção, no exemplo que lhe assistia diariamente. A salvação lhe deu vida dupla, a da carne por mais anos, e do exemplo, por séculos e séculos.
Estive recentemente visitando a casa em que Dom Helder Câmara morou por mais de trinta anos, em Recife. Ali não encerrou. Cresceu, mais e mais, em exemplo que edifica. Parei um tempo a contemplar sua pequena cama em seu pequeno quarto. Como coube, aqui, um gigante? Um gigante que nunca morre, posto não ser matéria, mas ideal. Precisa somente do espaço da consciência, que ocupa o espaço do amor, que vibra no espaço do infinito, que está muito, mas muito além do átomo, da célula, e do corpo.
Choremos, e tão somente porque os anjos que conosco vivem se viram impossibilitados de nos trazer melhores boas novas. Nunca porque morreram. Mudanças houve no plano da existência, que só a Deus cabe guardar. No da vida, guardemo-nos. Mistérios, portanto. Mas conosco permanecem, e é bom poder estar com eles naqueles instantes mais lúcidos, tomando-lhes o exemplo, seguindo-os pelos passos, edificando, por eles e com eles, caminhos.
De Agostinho (Confissões): “Por acaso a justiça é desigual e mutável? Não, os tempos que ela preside não caminham da mesma forma, e justamente por isso se denominam tempos”. Esses santos presidem os tempos, que seriam sempre iguais, imutáveis, se o ódio não tivesse sido inventado. Madiba vive… Madiba livre… Pela liberdade viverá em seus versos, reproduzidos pelo seu povo, povo que sabe lutar.

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO, o SAÍTO, é juiz de direito em Cuiabá, Mato Grosso, e escreve aos domingos em A Gazeta (e-mail: antunesdebarros@hotmail.com).

2 Comentários

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  1. - IP 201.34.24.157 - Responder

    Mandela é exemplo de tolerância, paciência, serenidade… Eternamente será símbolo do amor e do perdão. Viva Mandiba sempre em nossos corações e, sobretudo, em nossa consciência.

  2. - IP 177.221.96.130 - Responder

    Parabéns Saito, perfeito o texto, fabuloso!!!!!

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