SAÍTO: Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, encerra capítulos, e um especial deve ser motivo de reflexão: o da liderança construída no exemplo

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Saíto, juiz em Mato Grosso, com Eduardo Campos, candidato a presidente pelo PSB, falecido em acidente na cidade de Santos

 

Sonhar pra quê?

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

 

Morto é um candidato à presidência da República. Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, encerra capítulos, e um especial deve ser motivo de reflexão: o da liderança construída no exemplo. Foi sem se despedir. Com o avô, que acenou na despedida, nasceu e desenvolveu em si o espirito de lider, de resumir em atitudes a vontade de seu eleitorado. Gigante que se fez pequeno pela estreia na inevitabilidade. A dívida que portamos é de valor, não de lágrimas.
O pensamento metafísico da unidade e universalidade, o uno no todo, nos faz complacente com a maior da tragédia humana, a morte. Do absoluto, como a religião, não nos ocupemos por ora, pois, ali não há diálogo, somente fé. Aceitemos, portanto, que a realidade depende, sempre, da alteridade, e sua conformação teórica, por pressuposto, da liberdade.
Rompendo com as ciências empíricas, o personagem reflexivo se vê diante de teorias várias a indicar o caminho da felicidade e da resignação, apesar da matéria finda. Crer no fenômeno como algo transcendental, inalcançável pela inteligência da mulher e do homem médios, resguarda-nos do trauma. Não é sem razão que Dostoievski foi amado por Sartre e Simone de Beauvoir – seria ele, segundo o casal de pensadores existencialistas, o pai da novela metafísica.
Como conviver com aquilo que nos priva, de forma sorrateira e às vezes ensurdecedora, dos sonhos? A novela da vida se torna cômica – viver…, e não ter a vergonha de ser feliz (Gonzaguinha) -. Acreditar no significado e não no significador. Do sofrimento, descobrimos o ópio, a anestesia. Somos criativos na adversidade. Bom é gado marcado, é povo feliz (Zé Ramalho) – sem criatividade, pensamento ou nostalgia; nada, a não ser a lógica da sobrevivência.
O filósofo alemão Johann G. Fichte, responde à questão – mas quem ‘sou’, afinal? Isto é, que tipo de indivíduo? -, ‘Sou, a partir do momento em que cheguei à minha consciência, aquele que eu fizer de mim com liberdade, e sou-o porque o fiz de mim’. E a todo dia construímos aquilo que somos, com maior ou menor liberdade, com maior ou menor consciência desse processo de construção. Ou somos só destino?
A opção pelo conhecimento sempre será uma opção pelo sofrimento, dado o maior comprometimento e responsabilidade. A perda da ingenuidade, marca dos simplórios, mas felizes, maltrata e subverte os escolhidos – conhecer a dimensão da perda de um grande líder é sofrer, sem sentir dor (Otacílio Batista).
Lembro-me de ouvir meu pai, Gilson de Barros, elogiando a Miguel Arraes. Liberdade, pura sintonia político-ideológica. Sem rodeios. As amarras que me fazem magistrado tornam-se herdeira e cúmplice de meu alento. Mas ouso desafiar a lei cruel e injusta, que também me obriga a um título de eleitor, abrindo exceção – com carinho e admiração, Eduardo Campos, saiba que você bem liderou um povo, era eu soldado. Vá em paz, grande guerreiro, que por cá permanecemos nós; até quando…, até quando a indiferença for varrida pelos pés com ponta de sabre e bala de metralhadora (Vandré). É por aí…

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é Juiz de Direito e escreve aos domingos em A Gazeta

e-mail: antunesdebarros@hotmail.com).

2 Comentários

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  1. - IP 179.253.58.11 - Responder

    Gostaria de parabeniza-lo, pois sempre nos engrandece com as palavras, Eduardo Campos deixa um legado que tem que ser redistribuído através de pessoas de bem e notória como o Senhor.
    Um abraço a toda a família.

  2. - IP 189.75.75.82 - Responder

    Parabéns pelo artigo! Como já afirmou Victor Hugo: “haverá sempre pobres, o que não tem é de haver sempre injustiças”

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