SAÍTO, descansando à beira-mar, em Florianópolis, desanda a pensar no pensamento – e a defender seu mistério, em nome da felicidade e dos direitos e garantias fundamentais

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Contradição e teoria como possibilidade

por GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

Tomando café da manhã em Floripa, olhando as pessoas passar, comportamentos, gestos, logo percebo a esquisitice em que se transformam. Nesse vai e vem de café marcado pelo tempo, uns amanhecem dóceis, amáveis, compreensíveis e até capazes de demonstrar gentilezas. Outros, carrancudos, sisudos, amanhecem desgostosos, nada parece animá-los, nem mesmo o sol a encher a praia de toda graça e beleza. Olhar as pessoas e enxergá-las sempre me pareceu um aprendizado interessante. Olhar e enxergar, observar e tirar conclusões.

No canto, um casal de idosos, aliás, combinando com o politicamente correto – da melhor idade. Observo-os e sou observado. Que histórias trazem? Sofrimentos, alegrias, experiências num mundo de encontros e desencontros… Descobri que são argentinos e lembrei-me de minhas idas e vindas a Santa Fé para o doutoramento. Ensaio um “hola? Estás bien?”. Simpáticos, me acenam.

Ao lado, uma senhora “ralha” seguidas vezes com seu filho, pela forma de segurar o pão, de saboreá-lo, de tomar o leite, e, por fim, zanga porque o moleque não quer mais comer. Olha ao derredor e, já se vendo condenada pela crítica, se desespera em explicar que está cansada das “artes” do menino, e beija-o repetidas vezes, como repetidas vezes foram as razões de sua autoridade.

Mais adiante, um casal de namorados. Amor de principiantes, cego, portanto. A futura vida a dois, ao que parece, será levada em brisa, combustível de boa energia, sem necessidade do pão de cada dia. Antigamente se dizia que quando a fome entra pela porta da frente, o amor sai pela porta dos fundos. Terrível sentença, mas que o amor, sozinho, não enche barriga, ah! (…), enche não, senhor.

Fico imaginando como seriam os encontros se pudéssemos ler os pensamentos. Melhor ainda, a história de vida de cada qual. Seria o terrorismo coletivo, o sonhar em voz alta. Não teríamos a paz do “eu” reflexivo, que julga sem se importar com o acerto ou desacerto da premissa e da síntese. Ficaríamos sem asas para nos mover pelo mundo, pois a vontade já seria desnudada no nascedouro. Ou talvez, dada à criatividade humana, arrumaríamos um jeito de esconder o próprio pensamento. Uma espécie de pensamento difuso, ou mesmo rarefeito, com aptidão para submergir quando invadido pelas ondas cerebrais da alteridade, não impondo punibilidade à mera cogitação, como ocorreria no primeiro caso.

Nota-se, então, que a verdade triunfaria sobre a mentira na primeira hipótese, ou seja, do pensamento aberto ao conhecimento de todos, e a linguagem seria desnecessária, somente o pensar resolveria os problemas de comunicação. Na lógica, como consequência, mentira e linguagem (esta como símbolo) seriam necessidades mútuas, só se justificando no pensamento oculto, de viés egoísta e antidemocrático.

De qualquer sorte, chega-se à conclusão, e o que parece ser hilário, na contradição, de que o pensamento silencioso, a par de autoritário, é necessário para a construção da vontade, do ser individualizado, da consciência singularizada. Se se pudessem sondar os pensamentos, a escolha própria (enquanto vontade) desapareceria e o coletivo se imporia, sempre. Seria negar ao ser humano a liberdade, berço da felicidade e dos direitos e garantias fundamentais.

Fiquemos em paz dessa forma, na contradição também se teoriza sob premissas aparentemente falsas, mas com resultado verdadeiro. É por aí…

 

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO é Juiz de Direito e escreve aos domingos em A Gazeta (e-mail: antunesdebarros@hotmail.com).

1 Comentário

Assinar feed dos Comentários

  1. - IP 201.24.148.180 - Responder

    É a consciência pensante que faz do homem esse ser intrigante. Sem ela, seríamos mera matéria. O pensamento é o que faz sui generis o gênero humano. Num fato simples da vida, uma grande reflexão!

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

três + um =