SAÍTO debruça-se sobre o Facebook, o Google, os sites de noticias e as redes sociais para constatar que, na Internet, o recato, a paz dos inocentes, não prevalece mais. O que prevalece, agora, é o julgamento dos anônimos.

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Tempos modernos

POR GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

Existe uma máxima que anda por aí bastante difundida, circunspecta que só – não julgueis, ou, da forma que julgais, será julgado. É muito interessante adaptá-la à razão. Por exemplo, como a pessoa se reconhece? Poderíamos afirmar que seria conhecendo a si própria, ou mesmo através de um complexo processo de autoavaliação constante ou reflexão profunda sobre o “eu” individual. Poderíamos, mas não sem errar. Sabemos, a partir do pensamento moderno, em especial o de Lacan, que o ser se reconhece no outro, sim, na alteridade, na comparação dialética entre aquilo que sou – de comportamento, atitude, forma de posicionar frente às vicissitudes da vida – e o que tudo isso representa no outro, ou de como esse outro se manifesta. Vejamos, então: o reconhecer-se no outro não é um processo de julgamento? Pois bem. Nos acertos e erros do outro é que nos descobrimos em acertos e erros, também. Assim, a partir daquilo que julgamos acertado ou errado no outro é que nos definimos e caminhamos solitariamente para a própria subjetivação.

Neste exato momento, lendo estas palavras iniciais, já estamos concordes ou discordes; julgando, portanto. Talvez o pregador queira se referir a um julgamento mais puro, sem os pecadilhos da maledicência, inveja, e outros sentimentos tão ou bem menos nobres. Seria desta forma: não julgueis por preconceito, sem razoabilidade, senão… O julgamento dos amigos, do vizinho, dos colegas de trabalho, da família, todos, e dos mais variados tipos, estão no dia a dia de cada qual e para cada qual.

Nas redes sociais, os julgamentos são mais abertos, transparentes, à exceção é o anonimato, deste o sufixo já diz tudo. Consideremos o Facebook – as curtidas ou não, já que a ferramenta está a um “clic” do interessado, se pode sentir a reprovação ou aprovação de seu texto ou comentário; ou ainda, a teimosia ou mesmo a indiferença a ele, que não é surda, mas eloquente. Julgou-se eletronicamente e em tempo real, e o autor pode avaliar os “amigos”.

O anonimato se relaciona mais com os sites de notícias, nos comentários. Tirando o conteúdo que de cara se percebe a veia da vingança, ou de falta de cultura e conhecimento, têm-se verdadeiras lições a tirar. Os teóricos sociais deveriam se debruçar mais sobre isso. Há uma coerente participação popular neles. Antes, os comícios e reduzida plateia; agora, uma corresponsabilidade no produzido e no resultado. A máscara cai ou lhe é devida dependendo da argumentação dos comentaristas, anônimos ou não. Contra eles se tentou até regulamentação. Suas potestades permaneceram incólumes.

O recato, a paz dos inocentes, não prevalece mais, foi-se embora impotente. Está-se a criar novas tolerâncias. Se seu nome aparece no Google e de forma injusta, a justiça dos novos julgamentos te servirá como redenção. Para analisar todo esse material histórico, somente os historiadores não bastam, tornamo-los. Somos bacharéis em História, e sem qualquer certificado universitário ou ético, muito menos dos necessários referenciais teóricos e da disciplina dos cientistas. O grito de Fidel – “condenem-me, não importa, a história me absolverá” – ecoa livremente na consciência, mais ou menos crítica, de seus amigos ou detratores, tudo a depender dos julgamentos modernos, de tempo real, e da “generosidade” postada no banco de dados eletrônico. A profundidade dos acontecimentos não importa mais, todos querem participar. A capacidade é detalhe dos desavisados.

E diante disso, como ser feliz na comédia contemporânea? Ser ou não ser, que desculpemos a Shakespeare, não é mais a questão. É outra a inquietação, é de sobrevivência, de dramaturgia. De minha parte, creio no julgamento de Deus e na defesa de Jesus como advogado. Àquele que não o procurou durante a vida, posto seus honorários não se pagar com qualquer vintém, o que terá? O julgamento dos iguais e anônimos, de sentença arquivada no Google. Ou não? É por aí…

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é Juiz de Direito e escreve aos domingos em A Gazeta (e-mail: antunesdebarros@hotmail.com).

Categorias:Cidadania

2 Comentários

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  1. - IP 88.214.181.228 - Responder

    Isso mesmo Saito, parabéns !!! Grande Abraço

  2. - IP 177.193.160.193 - Responder

    é sempre assim o anonimato…bela critica…

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