SAÍTO, confessando-se “gordo de decência interior”, encerra o seu período de férias e retoma o trabalho como juiz de Direito. Para trás ficam as belezas de Camboriú, de Floripa e os encantos de Gramado

Por Enock Cavalcanti em Idéias e questionamentos - 13/01/2014 14:45
Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Final mais que feliz

por GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

Sempre acreditei que o retorno, antes de ser um andar pra trás, é a busca das origens, dos reencontros, e até da confirmação de um erro, logo que desnudado. Um olhar sobre o ombro, cargueiro de tantas experiências, ilusões e sonhos. Retornar pode ser, também, encarar a realidade como posta, do ponto até então abandonado. Sair de um estado mental que se vive, para o vivido, retomando-o. Neste último sentido, ensaio as linhas a seguir.
Ao sairmos de férias estamos sempre dispostos a esquecermos, ainda que temporariamente, das coisas do nosso dia a dia – trabalho, preocupações domésticas, política local etc. Apressados, caminhamos para o lazer. A poética “Bom tempo”, de Chico Buarque, retrata: “Dou duro toda semana/Senão pergunte à Joana/Que não me deixa mentir/Mas, finalmente é domingo/Naturalmente, me vingo/Eu vou me espalhar por aí [...] Ando cansado da lida/Preocupada, corrida, surrada, batida/Dos dias meus/Mas uma vez na vida/Eu vou viver a vida/Que pedi a Deus”.
Mas a contradição (Opa!… Sempre ela a nos ensinar!) indica-nos, dias após o começo do esperado lazer, um surpreendente confronto de ânimo pela saudade do corre-corre característico do trabalho. Ou o ócio nos faz inquietos ou, ao contrário, nos obriga à reflexão. E pensar não é fácil, não. Acostumados com a máquina corporal, sofisticada, mas néscia, que não prescinde de regular lubrificação, a preguiça intelectual faz escola. No ócio que a alma é castigada, pois, como atender a Sócrates (conhece-te a ti mesmo) sem dar vazão ao pensamento? É nessa dialética interior que nos brindamos com as imagens que retratam o cotidiano de cada um, com seus acertos, o que é de júbilo, com seus erros, o que é colérico. Agigantamos e apequenamos num vai e vem frenético do mais puro julgamento, o da consciência.
Na advertência de Chaplin – “não sois máquinas, homens é que sois”- se sintetiza o horizonte humanístico. O corre-corre diário a que nos submetemos, ou somos submetidos, embrutece, mata a essência do que nos reveste. Não nos damos conta disso. Então, como máquinas embrutecidas, logramos esquecer os pecadilhos na ostentação corporal ou pelo cansaço laboral – fácil e menos traumatizante do que pensar, refletir. E vamos repetindo desde o poeta romano Juvenal que “mens sana in corpo sano”. Aliás, até a mais valia se apodera disso quando impôs a pérola de que o trabalho dignifica o homem. Dignifica o homem ou o bolso de quem escraviza? Ainda dizem não haver altercação entre o capital e o trabalho. Pobre de nós.
Retorno para o trabalho e deixo para mais um final de primavera as minhas angustias. Nem a elas me submeto quando o lombo me é castigado. Para trás ficam as belezas desse mar de Camboriú, de Floripa, e dos encantos de Gramado. A reflexão me foi imposta somente em sentir o cenário. Não me sinto mais leve de quando por aqui estive; seus frutos, não só os comestíveis, mas também e principalmente os que inquietam, me fizeram mais gordo. Gordo de decência interior, a mesma que faz pesado o sentir pelos que aqui nunca estarão. Devolvo a minha verve poética aos saborosos prazeres do esquecimento, afinal, não me querem máquina? É por aí…

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO, o SAÍTO, é juiz de Direito em Mato Grosso e escreve aos domingos em A Gazeta
e-mail: antunesdebarros@hotmail.com.

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