SAÍTO: “Como é bom o ter desafetos, a injustiça, a palavra mordaz, o juízo depreciativo! Desde que a tudo relativizemos. O tempo é capaz de dobrar até mesmo a aroeira e o angico, o que dizer da cara de pau?”

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E assim caminhamos…

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

 

Vivemos com o que aprendemos. Vivemos no passado, presente e futuro. Somados, somos aprendizes. Todos lotam um imenso drama, que voa, que se conserta em plena velocidade. Uns submergem, outros vacilam; uns, vegetam, e há os que aguardam pacientemente. Clientes do acaso ou da explicação, dependentes da sorte ou da ciência, também das críticas. Sonhar, nesse destino, é ato de coragem.

Se a angústia é a sensação do nada (Heidegger), logremos em reflexão para preenchê-lo. Em abstração, podemos chegar ao nada e dele tirar proveito, emergindo o existencial.

Considerando o ser em essência, algo inato nos acalenta: o pensamento. Com ele somos livres para amar, odiar, julgar, crer, e justificar. Mas o atributo mais importante, a fé, nem sempre é regada. Fé em Deus, na espiritualidade, na natureza, no homem e na mulher, nas coisas corpóreas e incorpóreas, no que é, e no que ainda não foi.

Para Cortella, a espiritualidade é precedida pela angústia. Então, o nada nos põe a caminhar, buscando explicação para o que existe, aparenta, e não nos agrada. Ao buscar sentido nisso ou naquilo, caminhamos e espiritualizamos. Daí as diversas religiões e modos de crença a que nos acostumamos. O fundamentalismo é somente a ignorância desse processo reflexivo, da angústia.

Se algo me angustia, já formei juízo. E na obrigação de escolher, posto o estado mental posicionar-me pela busca da felicidade, enveredo-me pelo de menor sofrimento, que nem sempre é o melhor caminho, considerando a axiologia que carrego como ’pudor’.

A crise se instala, e o caminho do crime ou da legalidade, da fatalidade ou da abstinência, da depressão ou da reação, extrema ou não, está aberto. Aos fortes, eleva, aos fracos, abate.

As prisões se lotam, os antidepressivos vendem mais, os manicômios pululam, o fundamental se perde no absoluto, as religiões se expandem e com elas as diversas explicações, tudo sob a tutela das escolhas em face do drama existencial. A pergunta permanece, e se fosse diferente?

A chave do tesouro está dentro de nós. O importar muito, enquanto os outros simplesmente não se importam, leva à tristeza, a um sentir que não se sabe exatamente o que é. O nada angustiante. Às vezes a alegria está nos sádicos e nos masoquistas, ou nos donos do degrau mais elevado da purificação – os sábios-. Talvez seja por isso que se procura aos que amam a Filosofia, mas sem antes adjetivá-los.

É recorrente encarar negativamente a vida como a um processo complexo, de abstração constante e sem o fio da meada, dada a tendência de se tentar materializar o que não se pede corpo, se basta como pensamento. E se em corpo existisse, entenderíamos? Em gente já se fez, e matamos como não tendo sido suficiente.

A finitude da criatividade está na crítica que a nada se constrói, antes angustia. Mas se da angústia, caminhamos, dela aproveitamos para sublimar a consciência.

Como é bom o ter desafetos, a injustiça, a palavra mordaz, o juízo depreciativo! Desde que a tudo relativizemos. O tempo é capaz de dobrar até mesmo a aroeira e o angico, o que dizer da cara de pau?

É por aí…

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é juiz de Direito em Cuiabá. antunesdebarros@hotmail.com. Artigo publicado originalmente em A Gazeta

2 Comentários

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  1. - IP 189.114.53.27 - Responder

    O TEMPO É O SR. DA RAZÃO! ISSO AI!

  2. - IP 200.101.25.23 - Responder

    O profícuo Saíto poderia nos oferecer um banquete de idéias e argumentos acerca do AUXÍLIO-MORADIA recebido pelos juízes deste Brasil de meu Deus! Para a maioria, uma imoralidade ímpar!

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