gonçalves cordeiro

SAÍTO, atento aos ensinamentos de Sarte, John Locke e Rousseau, apresenta reflexões sobre Venezuela e Croácia. “O povo rebelado é que faz história, e não as hordas dos indiferentes, do politicamente correto, da turma do “deixa disso”. Sem sadismo e masoquismo se conquista o quê?

Saíto e a Venuela pós-Chavez. O juiz e a crise

Saíto e a Venuela pós-Chavez. O juiz e a crise

Tens mãe?

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

A janela não tem culpa pela paisagem. A paisagem é construída pelos viventes. Da minha janela eletrônica, estou a observar os acontecimentos na Ucrânia. Num levantar, sou só xingamento, punhos cerrados e socos no ar, respiro indignado. Sento novamente, ofegante como quem participa da peleja. O desvario toma conta de tudo – mais de cinquenta mortos. Não sei se peço o dom de odiar ou de amar àquela gente. Mas se para Vandré esperar não é saber, a resposta nem precisa ser invocada – quem só ama, reage? Lembro-me de Sartre: “Detesto as vítimas quando elas respeitam os seus carrascos”.
Não se trata de teorizar sobre a guerra fria, a favor ou contra os senhores Viktor Yanukovych e Putin. Está-se à esquerda ou à direita. A morte pela conquista paira sobre tudo isso. Somos como aquela gente, se mortos, morta estará à consciência humanitária mundial. Corremos atrás do vento, não de qualquer balançar de folhas, mas do vento que por lá sopra, da mais cruel tempestade, da mais sangrenta das dores, a indiferença dos que só amam. Como é difícil sacudir as estacas que por cá fincaram! Nenhuma voz se levanta. Nada! Aliás, se levanta, sim, num projeto de lei a calar o barulho das manifestações de rua. Em “terrae brasilis” é o que sobra – sombra e vergonha.
Li nos manuais de John Locke e Rousseau, somados à filosofia e sociologia modernas, que é o povo, a uma só vontade, que faz o Estado, e não o contrário. A passividade das “Diretas Já” nos fez caudatários de mais uma eleição indireta, a de Tancredo e Sarney. O povo rebelado é que faz história, e não as hordas dos indiferentes, do politicamente correto, da turma do “deixa disso”. Sem sadismo e masoquismo se conquista o quê? A história é dos que se doam em sacrifício, a causa lhes pertence, ainda que a cara-de-pau dos pacificadores os faz gozar da liberdade conquistada. Nunca beberão desse cálice.
O Direito também é usado para oprimir. Os mesmos operadores jurídicos que decidem com os olhos voltados somente para a lei, e não para a justiça, são os opressores de amanhã. A Constituição faz letra no papel, apenas, acaso aplicada por juízes despreparados, sem a antologia da política, filosofia, economia e sociologia. Decoradores de Códigos dobrem as togas! Sem conhecimento não se veste a honra. A audiência não se presta ao papel das vaidades. Ali se discute miséria e riqueza, amor e ódio, esquerda e direita, política e politicalha, romance e tragédia, sonho e realidade, portanto, todo o apreciar é caminho pedregoso, profundo e cuidadoso.
Vejamos o caso da Venezuela; o governo encarcerou a um líder oposicionista. Sim, preso por liderar manifestação. Não foi exatamente o que se fez nos Atos Institucionais do Brasil pós-64? Aquilo que se chama de esquerda fazendo igual àquilo que se chama de direita. Não é algo constrangedor para os dois lados? E lá, como aqui, tiveram a seus postos acusadores, defensores e julgadores, todos a envergar suas vestes talares, como sentinelas da lei e da ordem. E assim caminhamos, ajustando e desajustando. A paciência deve ser mãe de alguma coisa. De quem? É por aí…

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO é Juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso e escreve aos domingos em A Gazeta
e-mail: antunesdebarros@hotmail.com

3 Comentários

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  1. - IP 187.53.180.93 - Responder

    Por isso, como matin luter king eu prefiro na chuva caminhar que em dias frios em casa me esconder.

  2. - IP 177.64.251.252 - Responder

    Bela reflexão. Como diria o saudoso Dr. Celso Marques de Araujo: “quem não luta por seus direitos, não merece viver”!

  3. - IP 177.64.243.222 - Responder

    esse é um momento para todos gritarem contra o golpe que a direita está tramando na venezuela

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