SAÍTO apresenta suas reflexões sobre o fenômeno dos rolezinhos. “Os governantes o tratam como algo passageiro e sem muita significação. Estão enganados, absolutamente enganados. A onda cresce e precisa ser tratada com seriedade. Não sei exatamente o que querem os adultos, mas os jovens de hoje, ao que parece, estão cobrando a conta, vindo à desforra como quem busca algo aceso no tempo, um tanto abstrato, não muito real, mas transformador.”

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

Gonçalo Antunes de Barros Neto, juiz de Direito em Cuiabá, Mato Grosso, conhecido pelos amigos como Saíto

 

Tá no “rolé” ou no “rolê”?

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO

 

 

 

 

Continua chamando muita atenção os chamados “rolezinhos”. Uns ideologizam o movimento, teorizando-o como luta de classes, seria a periferia contestando o símbolo do capitalismo moderno, o “shopping” e sua clientela nada barata. Outros, o caminho da criminalização. E há os que preferem ridicularizá-lo como “bagunça”, “falta do que fazer”, e por aí vai.

Não sei exatamente o que querem os adultos, mas os jovens de hoje, ao que parece, estão cobrando a conta, vindo à desforra como quem busca algo aceso no tempo, um tanto abstrato, não muito real, mas transformador. É um círculo vicioso, primeiro foram ensinados a gostar de marca, de coisa “bacana”, tênis caro e bonés “chiques”. Roupas de “grife”. Aprenderam, e muito bem. Assimilaram como ode à felicidade. As sandálias que protegiam os pés do pedregulho já não servem ao propósito da própria criação. A ideia é outra. A axiologia substituiu o pragmatismo. Se não for da marca, da moda, do momento, nada feito. É tempo de por em prática os valores, a cultura recebida. E onde estão os promissores professores? Num lapso de memória, fecham as portas e se afastam da contabilidade, o débito assusta. A polícia lhes faz a defesa e saldará a despesa. Justin Bieber que os responda, preso por dirigir um carrão possante em alta velocidade. Tudo na maré. Vítima de si ou dos costumes? A História o absolverá, ou talvez a Sociologia, o que parece lógico.

Relendo um artigo do filósofo Olavo de Carvalho (ora, aquilo que chamam de direita também tem seus heróis) intitulado “O Imbecil Juvenil”, publicado no Jornal da Tarde em 1998, me fez crer na necessidade de se aprofundar na análise desses novos fenômenos sociais. Logo no primeiro parágrafo, a advertência: “desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas”. E a seguir: “Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações”.

Na semana passada alertávamos neste espaço para a busca da compreensão do fenômeno “rolezinhos”. Os governantes o tratam como algo passageiro e sem muita significação. Estão enganados, absolutamente enganados. A onda cresce e precisa ser tratada com seriedade. Só mudará de nome e prática. A intolerância e os confrontos logo aparecerão. Os “reaça” estão em alerta. Há inclusive princípios jurídicos em jogo, de um lado, a livre manifestação do pensamento e direito de ir e vir, e, de outro, os interesses privados, econômicos, todos do tabuleiro constitucional.

E assim caminha a humanidade. Vivendo e aprendendo na roda que sempre roda, na cultura que se devora, na consciência de agora. É por aí…
GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO – SAÍTO é Juiz de Direito e escreve aos domingos em A Gazeta

e-mail: antunesdebarros@hotmail.com

3 Comentários

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  1. - IP 177.4.189.130 - Responder

    Parabéns Dr. Saíto, tem certas cabeças dentro do TJMT, que aliás precisa de um rolézinho lá, que deveriam no mínimo ler o seu texto acima, que é claro e objetivo…

  2. - IP 177.4.189.142 - Responder

    Concordo e ao mesmo tempo acresento a juventude está encontrando saida para se manifestar todos nós estamos vendo a corupção a bandalheira e niguém faz nada… começa com um rolezinho pode virar um rolo compressor…. acorda….autoridades competentes….

  3. - IP 200.17.60.247 - Responder

    É verdade… a sociedade individualista prima tanto pelo capital que não tem tempo de relfetir sobre os efeitos colaterais que todos se responsabilizarão….tudo fruto de uma burrice cultural que prega o materialismo – para poucos.

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