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SOCIÓLOGO RUDÁ RICCI: Em defesa da unidade da esquerda no Brasil

Ricci

Sobre a unidade da esquerda tupiniquim

Por Rudá Ricci

A esquerda é mais vigorosa no Brasil fora dos partidos que no seu interior. Isto porque todo sistema partidário brasileiro pendeu para a direita nos últimos vinte anos.

Na eleição do ano passado, o programa do PSOL era socialdemocrata. O do PT era social-liberal. O do PSDB era nitidamente de direita. E assim por diante.

Já os movimentos sociais e as articulações populares territoriais (como a Articulação do Semi-Árido ou os arranjos territoriais das experiências do Movimento de Atingidos por Barragens ou da Economia Solidária) são muito mais vigorosos e profundos que os partidos. Enraízam, lideram, disputam territórios e projetam alternativas.

Mas, num esforço de Gasparzinho, o fantasma camarada, tentemos analisar o estado da arte dos partidos do campo progressista. Saco o vago termo progressista – progressismo como ampla inclusão social e defesa da democracia – para incluir o PDT (este partido cada vez mais confuso) e o PSB (que em alguns estados se aliou com a direita, como em MG).

Minha tese é que este campo partidário se projetará na medida em que superar a paranoia e o pragmatismo submisso, assim como as disputas de ego.

O pragmatismo que o acometeu se reduz à interpretação abstrata de uma tal correlação de forças que lhe é eternamente desfavorável. O que obriga este campo político a ceder eternamente.

Debulhemos este joio.

Não vejo como negar a liderança maior de Lula que os ciristas, o MES – corrente interna do PSOL – e o PSTU insistem em negar. Parte significativa do PSOL e PCdoB não comete este erro de autoafirmação. Contudo, Lula e o lulismo apresentam dificuldades para se recriarem, enaltecendo o passado quase messianicamente. Não vejo como não aceitar que não há nenhum outro líder – que não Lula – que agregue o campo progressista ou que tenha poder de fogo eleitoral acima de 12%, mas, não tenho como negar que esta liderança vive do passado e perdeu o viço da inovação e contestação. Uma difícil equação para o campo progressista solucionar.

Sem essa racionalidade, ficamos num nível raso de disputa de idólatras.

Temos problemas e possibilidades. Fazer crítica política é a essência desta necessária leitura de limites e caminhos.

Mas parece que as principais forças deste campo partidário se esforçam para se nivelar por baixo. Tenho a impressão que alguns almejam conquistar passivamente o espólio do lulismo, mesmo com Lula continuando liderar o que seria seu próprio espólio. Um espólio, afinal, que não é espólio, mas base social de um líder vivo.

Sinceramente, não vejo maturidade política em Ciro e seus seguidores. Fazem projeções sobre um futuro imaginário, como se buscassem a Terra do Nunca. Tentam provar que 10% ou 12% significam mais de 50%. O malabarismo é tal que acabam ficando muito irritados. Afinal, não se engana o subconsciente por muito tempo.

No caso de Boulos e PSOL temos maturidade, mas não hegemonia. São respeitados por todo campo progressista, mas são percebidos como uma espécie de Portuguesa ou América, o segundo time de muita gente.

O lulismo tem maturidade e hegemonia no campo de centro-esquerda, mas seu projeto minguou. É como o irmão mais velho que engordou, mas pede para entrar no time para virar técnico dentro da quadra.

Os outros partidos deste campo gravitam ao redor dos maiores. Às vezes, se irritam com os maiores e se unem para fracassar e logo voltar ao movimento da Lua ao redor da Terra.

O pior é que a qualidade de um não supera o defeito do outro.

Falar do futuro do campo progressista é falar das mazelas deste campo. Sem isso, patinamos.

 

 

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