ROSANA LEITE: Ajudar a mulher a livrar-se de situações humilhantes é tarefa diária de todos

Rosana

Medo constante do assédio

Por Rosana Leite

Andar nas ruas normalmente, frequentar festas, universidades, e outros tantos logradouros, conforme dados, deixou de ser seguro para as mulheres. O Brasil lidera o ranking de jovens que convivem diariamente com temor do assédio. Pesquisa ActionAid mostra o quanto meninas e mulheres sentem-se aterrorizadas.

A liderança brasileira com 53% de temor passa a ser assustador, revelando que mais da metade das jovens entre 14 a 21 anos levam a vida com fobia diária do assédio. O mesmo estudo em países conhecidos como patriarcais, não demonstrou tamanho horror. O índice do Quênia (24%), Índia (16%), e Reino Unido (14%), nos deixa em posição de alarme.

No Brasil o estudo aconteceu no mês de dezembro do ano de 2018, ouvindo 500 jovens, metade do gênero masculino, e a outra do gênero feminino. A amostra incluiu participantes de todos os níveis de escolaridade, e, ainda, em todas as regiões do país. As mulheres escutadas informaram, 78%, que haviam sido assediadas nos últimos 6 meses.

As adolescentes entre 14 e 16 anos são afetadas em 41%. Entre as idades de 17 a 19 anos, existe o aumento do risco em 56%. Dentre as idades de 20 a 21 anos, os dados ficam extremos, chegando a 61%.

Quando o questionamento paira sobre a forma de assédio, elas relataram que o verbal lidera com 41%. Assovios ficam com 39%, e, comentários negativos sobre a aparência em público com 22%. Nas redes sociais os comentários negativos que configuram assédio ficam em 15%.

Também aparecem em 15% os pedidos de envio de mensagens com teor sexual, com piadas que envolvem tal conteúdo em 12% quando realizadas em público. Nas redes sociais as piadas com preceito sexual ficam em 8%. Beijos forçados são na percentagem de 8%, e apalpadas em 5%. Absurdamente, as fotografias tiradas por baixo das saias das vítimas ficam em 4%. Fotos íntimas nas redes sociais são em 2%.

O mais proveitoso do estudo é o conhecimento de que elas, em sua maioria, optaram por não se calar, 77% de meninas entre 14 e 16 anos. Ainda que muitas não possuam o desejo de lavrar boletim de ocorrências para a punição do agressor, narram os fatos para familiares e amigos.

Ana Paula Ferreira, coordenadora de Direito das Mulheres da ActionAid, afirmou: “O que algumas pessoas podem achar engraçado, ou mesmo um elogio, faz com que muitas meninas alterem suas rotinas, se desmotivem nas escolas, criem estratégias para transitar pelas ruas, ou mesmo gastem mais dinheiro para evitar se expor nos locais públicos. São jovens e adolescentes iniciando a vida adulta, e isso impacta seu desenvolvimento pessoal, econômico e social.”

O esboço enfatizou que 88% das pessoas foram testemunhas desses assédios, não tolerando a prática. Os amigos (39%) e a família (34%) ainda se perfazem no maior número de agressores.

Qualquer forma de aceitar, tolerar, ou ser conivente, coloca em dúvida a palavra da mulher, desmerecendo e enfraquecendo aquelas que por anos se mantiveram caladas. Ajudar a livrá-las de situações humilhantes e constrangedoras é tarefa diária de todas e todos.

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública em Mato Grosso

Categorias:Cidadania

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