Rondônia, Mato Grosso e Pará puxam alta no desmatamento na Amazônia, em outubro. O desmatamento no Mato Grosso volta a preocupar os especialistas. Se considerados os últimos dois anos, Mato Grosso colocou abaixo 670 km² de árvores nativas, uma área similar à da metade da cidade do Rio. O alvo dos desmatadores é a parte Norte, que, junto com o Oeste do Pará e o Sudeste do Amazonas, vem sendo alvo de uma corrida de grileiros para a ocupação de terras devolutas e até mesmo unidades de conservação

DESMATE

Bioma perdeu mais de 240 quilômetros quadrados no último mês.
Relatório do Imazon mostra avanço no desflorestamento.

Leandro J. NascimentoDo G1 MT

Fiscais do Ibama fazem a medição de madeira extraída ilegalmente da floresta em MT (Foto: Leandro J. Nascimento/G1)
Fiscais do Ibama fazem a medição de madeira
extraída (Foto: Leandro J. Nascimento/G1)

A Amazônia Legal brasileira perdeu 244 quilômetros de floresta no mês de outubro, um aumento de 467% em relação ao mesmo mês de 2013, quando foram 43 quilômetros quadrados, mostrou nesta segunda-feira (17) novo boletim do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Rondônia  (27%), Mato Grosso (23%) e o Pará (22%) foram os estados com o maior percentual de desmatamento no último mês. Já Roraima (9%), Acre (5%) e o Amapá (1%) aparecem com as menores ocorrências. No décimo mês de 2014, 72% da área florestal do bioma foram monitorados.

Desmatamento Outubro 2014
RO65 km2
MT55 km2
PA54 km2
AM32 km2
RR23 km2
AC13 km2

De acordo com o relatório do Imazon, a maior parcela do desmatamento (60%) ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse. O restante foi registrado em Assentamentos de Reforma Agrária (22%), Unidades de Conservação (16%) e Terras Indígenas (2%).

Acumulado
No acumulado de agosto a outubro de 2014, que corresponde aos três primeiros meses do calendário oficial de medição do desmatamento, foram 1.082 km2 de floresta atingidos.
O número equivale a um aumento de 226% em relação ao período anterior (agosto de 2013 a outubro de 2013), quando foram 332 km2.
O ranking é liderado por Rondônia (30%), com 326 km2, seguido por  Mato Grosso (26%), onde foram 277 km2, e Pará (19%), com 206 km2.

Degradação
Já a degradação ambiental, que corresponde à perda lenta de cobertura vegetal (seja por desmatamento, ou outros fatores como queimadas), chegou a 468 km2 em outubro de 2014. A maioria (90%) ocorreu em Mato Grosso, acompanhado por Rondônia (5%) e Pará (3%)

 

———————

ENTENDA O CASO

 

Corrida de grileiros acelera desmatamento no Mato Grosso

SÃO PAULO – O desmatamento no Mato Grosso volta a preocupar os especialistas. Em abril, foram suprimidos 72 quilômetros quadrados de florestas no estado, a maior área de desmatamento detectada pelo levantamento da ONG Imazon na Amazônia Legal no mês passado. Se considerados os últimos dois anos — de maio de 2012 a abril deste ano — o estado colocou abaixo 670 km² de árvores nativas, uma área similar à da metade da cidade do Rio. O alvo dos desmatadores é a parte Norte, que, junto com o Oeste do Pará e o Sudeste do Amazonas, vem sendo alvo de uma corrida de grileiros para a ocupação de terras devolutas e até mesmo unidades de conservação. No caso do Mato Grosso, há ainda a derrubada de árvores em terras particulares a fim de aumentar a fronteira de plantio de grãos. Na Amazônia Legal como um todo, no entanto, a tendência de queda continua.

— Acendeu a luz amarela do desmatamento no Mato Grosso — afirmou o pesquisador do Imazon Adalberto Veríssimo, ao apresentar os números. — Nos últimos anos, caiu a diferença entre o desmatamento registrado no estado e no Pará, que tem quase o dobro de floresta. É preciso lembrar que o Mato Grosso já tem uma grande área desmatada consolidada e que metade de seu território é do bioma Cerrado, fora da Amazônia Legal. Portanto, estamos falando na derrubada de um estoque de floresta que já não é muito expressivo como o do Pará.

Próximos meses serão cruciais

Se comparado com 2013, o desmatamento na Amazônia Legal como um todo teve queda. Entre agosto de 2013 e abril deste ano, a área desmatada foi de 662 km² — uma redução de 58% em relação aos 1.570 km² de floresta suprimida entre agosto de 2012 e abril de 2013. No período, os satélites detectaram 140 km² de desmatamento no Pará, 122 km² em Rondônia e 122 km² no Amazonas. O total de floresta degradada por ação de madeireiras ou queimadas chegou a 407 km².

Segundo Veríssimo, a queda percebida até agora é muito positiva, mas os próximos meses, até julho, quando fecha o calendário do desmatamento, são cruciais, pois aumenta a visualização por satélite na região, permitindo-se obter dados mais precisos. Em abril, enquanto o Mato Grosso estava praticamente sem nuvens, com apenas 12% encobertos, 58% do restante da Amazônia Legal estavam invisíveis aos satélites.

Na avaliação do pesquisador, região de influência da obra de asfaltamento da BR-163, a corrida em direção à floresta continua.

— Há uma ação de grileiros para ocupar terras devolutas nesta região. Os grileiros apostam que a derrubada da floresta cria um fato consumado e que o governo vai acabar aceitando a ocupação não só de terras como, até mesmo, de unidades de conservação — explica Veríssimo. — Em geral, quando a fiscalização chega, os que estão na área desmatada são apenas os “laranjas” (ou testas de ferro dos grandes grileiros).

Veríssimo diz que nas áreas privadas do Mato Grosso, onde a situação estava sob controle, também tem ocorrido desmatamento para produção agrícola futura.

— Nas terras particulares há uma espécie de teste para ver se o governo vai combater o desmatamento ou não. O Brasil não precisa mais desmatar para acomodar a produção de grãos, mas o dono da terra não pensa assim — afirma o pesquisador. — Há uma afronta, um desafio dos desmatadores, e o Ibama tem de fazer um trabalho heroico, com equipes andando dias e dias pelo meio da mata. Se não tiver pulso firme, o desmatamento volta.

Do desmatamento registrado em abril, 101 quilômetros quadrados na Amazônia Legal, 87% estavam em terras privadas, devolutas ou ocupadas por posseiros; 9%, em unidades de conservação; e 4%, em assentamentos da reforma agrária. Das dez cidades que mais desmataram no mês, sete estão no Mato Grosso — Feliz Natal, Nova Maringá e Porto dos Gaúchos lideram a lista

No início do mês, proprietários de terras embargadas por desmatamento ilegal na floresta Amazônica no Mato Grosso foram multados em R$ 500 milhões. Durante a operação Onda Verde, que estava em andamento desde agosto do ano passado, foram mais de 130 mil hectares de terras embargadas, sendo 66 mil hectares somente no Norte do Mato Grosso, resultando em 500 autos de infração. No estado se concentra mais da metade das terras embargadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em todo o país.

Outra preocupação é em relação às investidas para reduzir ou modificar áreas de preservação. A Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA) do Senado fez audiência pública sobre um projeto de lei que divide a Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo, no Sul do Pará, transformando parte dela em Área de Proteção Ambiental, que tem regras mais flexíveis e permite atividades econômicas sustentáveis.

Pela proposta em discussão, a área de proteção integral ficaria com 162 mil hectares, menor do que os 178 mil hectares que seriam flexibilizados.

Um estudo publicado pela revista “Conservation Biology” mostrou que, entre 1981 e 2012, foram feitas 93 alterações em Unidades de Conservação (UCs) no Brasil, o que resultou na perda de proteção legal de 5,2 milhões de hectares, uma área maior que a do Estado do Rio de Janeiro.

No fim de semana, uma ação de ativistas do grupo Greenpeace ocupou a madeireira Pampa Exporações, em Icoaraci, perto de Belém, no Pará, para expor a fragilidade do sistema de controle de madeira na Amazônia.

Segundo o Greenpeace, que realizou uma investigação de dois anos sobre o tema, o atual sistema de controle não apenas é falho, como também alimenta a degradação da floresta e o desmatamento. De acordo com os ativistas, muitas vezes a madeira obtida de forma ilegal e predatória no Brasil é enviada ao exterior e vendida de volta ao país como se fosse legal.

Fonte: O Globo, 20 de maio de 2014.

Categorias:Direito e Torto

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

sete + 13 =