ROBERTO BOAVENTURA – Por meio de Tonico e Tinoco, e outros cantadores, como Cascatinha e Inhana, percebi o quão era lindo o “meu cafezal em flor”.

Sons e cheiros da vida
ROBERTO BOAVENTURA

Este artigo foi elaborado no domingo, quando se comemorou o dia das mães. Antes, assisti ao Globo Rural (GR). Não deu outra. Recordei minha infância. Como não é hábito, peço licença para falar um pouco disso hoje.

Começo dizendo o que (quase) todos dizem de suas genitoras: “minha mãe (infelizmente já falecida) é a melhor mãe do mundo”. Como em todos os casos particulares, esse clichê – para mim – não era clichê. Mas não falarei exclusivamente de minha mãe, embora ela merecesse. Motivado por aquele programa de TV, falarei de meus pais.

Os dois blocos finais do GR foram reservados a uma homenagem a Tinoco, falecido no último dia 04. Seu irmão, Tonico, falecera já em 1994. Agora, de ambos, só as lembranças, tão lindas quanto emocionantes. Lembranças com sons e cheiro de infância para algumas gerações, como a minha.

Mas antes das recordações precisaria falar de José Hamilton Ribeiro, responsável pela matéria do GR. Sem adjetivos. A matéria tem substância por si: é substantiva! Todavia, esse jornalista merece referência – ou reverência – mais substancial. Por isso, pretendo falar dele em outro momento.

Pois bem. A dupla dos irmãos Tonico e Tinoco, assim como outros cantores da música caipira/sertaneja, fez parte de meus ouvidos infantis. Logo pela manhã, meus pais – enquanto o cheiroso café era feito pelas mãos de minha mãe – ligavam o lindo rádio Semp.

Pelas “mágicas” ondas daquele aparelho envernizado vinham sons de tantas vozes que invadiam a casa inteira, acordando a mim e a meus três irmãos tão queridos. Cada qual das vozes, ao seu modo, falava – cantando – sobre os mais diferentes sentimentos dos seres humanos, sempre próximos daquilo a que chamamos de natureza. Tudo era singelo, embora tantas vezes, melancólico.

De Tonico e Tinoco era um mundão de músicas! Todas exigiam minha atenção para compreendê-las. Foi por meio de suas vozes, unidas naturalmente e acompanhadas por violas, que comecei a pensar sobre a “Tristeza do Jeca”, hoje ainda mais triste pela morte de seus cantores, que fiquei sabendo da história daquele pobre “Menino da Porteira”, morto por um “boi sem coração”, da tragédia ocorrida com o “Chico mineiro” – quando se divertia com o irmão numa festa do Divino, lá pras bandas de Ouro Fino –, da “Moreninha linda”, do convite à moça do “Cabelo loiro” pra ir “lá em casa passear…”

Por meio de Tonico e Tinoco, e outros cantadores de viola e da vida, como Cascatinha e Inhana, percebi o quão era lindo o “meu cafezal em flor”. Hoje, melhor do que antes, percebo como essa música é cheirosa! Ainda mais para quem – como eu – já nasceu sentindo o aroma da florada dos cafezais do norte paranaense.

Fiquei sabendo, enfim, de tantas coisas puras, da vida árdua do homem do campo, da vida humana, da minha própria vida. São pérolas essas músicas! Eu tive o privilégio de ouvir pérolas na minha infância. Raramente meus ouvidos eram feridos; ao contrário, eram respeitados. Já hoje…

Hoje, a moda de viola anda meio fora de moda. Ela apenas resiste por meio de vozes como a de Inezita Barroso e outros (pouquíssimos) seres humanos realmente humanos. As imposições estranhas às suas raízes – como diria arrastadamente o homem do grande sertão brasileiro – são fortes demais da conta.

Por isso, à lá Mário Quintana que – no Poema de Circunstância –, tratando da ocupação humana em centros urbanos, ordena a seus olhos que pastem o verde, “enquanto há verde”, faço o mesmo aos meus ouvidos: enquanto um som de viola soar em algum canto qualquer, ouvi ouvidos meus.

*ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ – Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

10 + 3 =