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ROBERTO BOAVENTURA CONTESTA WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS: Inesperadamente, o “país da chuteira”, como que atendendo um pedido feito num anúncio publicitário, foi pra rua e chutou o pau da barraca. Já era tempo. E nesse tempo que já era não cabe mais nenhum discurso da ameaça

 Roberto Boaventura, catedrático de Cuiabá, aponta reacionarismo no discurso de Wanderley Guilherme dos Santos, respeitado mestre das Ciencias Políticas do Rio de Janeiro


Roberto Boaventura, catedrático de Cuiabá, aponta reacionarismo no discurso de Wanderley Guilherme dos Santos, respeitado mestre das Ciencias Políticas do Rio de Janeiro

MOMENTO ÍMPAR

por Roberto Boaventura da Silva Sá

 

Para os brasileiros acostumados ao exercício da crítica política, junho deste ano marcou um momento inédito em nossa história. Nunca se viu tanta gente protestando ao mesmo tempo neste país.

De repente, a virtualidade pavimentou espaços reais para gigantescas manifestações, que – passo a passo, ombro a ombro – foram tomando ruas, avenidas e praças. É como se de um imenso “busão” começasse a descer uma multidão vinda de diferentes lugares e portando uma diversidade de demandas.

Pois bem. Esse ineditismo tem desafiado o exercício da crítica. Como, em geral, o país “navegava por mares conhecidos desde as rotas das grandes navegações do séc. XVI”, o presente e ímpar momento favoreceu a exposição de algumas críticas contundentes; na verdade, algumas bem “desafinadas”.

Nessa perspectiva, destaco dois artigos do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos (WGS), ambos publicados, em junho, no Portal Ig São Paulo: 1º) “A presidenta (sic.) Dilma falou, mas não disse, no dia 22; 2º) “A direita e o PT fisiológico”, no dia 27. Submissão linguística no uso de “presidenta” à parte, o fato é que, para WGS, “O cerne da contestação (das manifestações) não está nas demandas fragmentadas. Está no ataque à democracia como sistema capaz de prover e operar uma sociedade justa… A mensagem subliminar dos arquitetos da desordem (com exceção do Movimento pelo Passe Livre) e dos aproveitadores de todas as idades tem consistido em insinuar que as instituições democráticas… são os obstáculos à construção de uma sociedade mais justa e livre. Golpistas crônicos, anarquistas senis em busca de holofote, muitos jovens anencéfalos e assustados da classe média em geral, formam a retaguarda deste exército do obscurantismo e da violência (…) Trata-se do maior cerco reacionário, nacional e internacional, que este país já sofreu nos últimos vinte anos”.

Alto lá!

Lendo esse discurso, lembrei do que Albert Hirshman tratou no livro Retórica da Intransigência, no qual identifica e analisa discursos proferidos nos momentos posteriores à Revolução Francesa. Em suma, Hirshman apresenta três teses (da Perversidade, da Futilidade, da Ameaça) advindas de tais discursos, enunciados pelos reacionários que tentavam intimidar mudanças no status quo.

Resumidamente, acerca da Retórica da Ameaça, é dito que os verdadeiros conservadores sempre conjecturavam sobre “objetivos ocultos por trás de propostas” que pudessem significar mudanças. Falavam de eventuais custos, inclusive os simbólicos, na medida em que se vulnerabilizava o que já se tinha. Dito isso, discordo da crítica de WGS. A meu ver, sua leitura – quiçá, por excesso de zelo à democracia – está deslocada dos reais elementos expostos nas ruas. Talvez por isso – e para que seu discurso ameaçador tivesse algum efeito concreto – o cientista não tenha poupado o uso de tantos adjetivos, todos dispensáveis à crítica em si.

Penso que ao invés de justificar as atuais manifestações como o “maior cerco reacionário que este país já sofreu nos últimos vinte anos”, talvez fosse necessário lembrar e ponderar as frustrações políticas produzidas no mesmo período; muitas acompanhadas por avalanche de corrupção insuportável. Logo, uma tentativa de basta já era mister. A novidade foi isso ocorrer em plena realização da Copa das Confederações.

Enfim, inesperadamente, o “país da chuteira”, como que atendendo um pedido feito num anúncio publicitário, foi pra rua e chutou o pau da barraca. Já era tempo. E nesse tempo que já era não cabe mais nenhum discurso da ameaça. Já foi o tempo!

 

Roberto Boaventura da Silva Sá, Dr. em Ciência da Comunicação-USP, é Prof. de Literatura-UFMT

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