gonçalves cordeiro

RICARDO NOBLAT: A quantidade maior de gente reunida libera os instintos mais primitivos da multidão. Coitado de quem é alvo do mau humor da turba descontrolada. Coitada da Dilma. Adversários na corrida pela presidência da República não estiveram à altura do posto que sonham alcançar. Pelo contrário. Aproveitaram a ocasião para tentar tirar proveito político. Que feio! Espera-se que os comentários infelizes de Aécio Neves e de Eduardo Campos não antecipem o que estamos por ver na campanha eleitoral a se iniciar em agosto.

DILMA MERECE RESPEITO, DEFENDE NOBLAT

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“Tratamento como aquele não deveria ser dispensado a quem quer que fosse. Nenhum precedente o justifica, nenhum. Nada o ameniza ou o torna menos bárbaro”, escreve o colunista do Globo; jornalista cobrou ainda a imprensa, a quem cabe, segundo ele, “explicar o que houve. E deplorar”; e criticou os adversários de Dilma Rousseff nas eleições: “aproveitaram a ocasião para tentar tirar proveito político. Que feio!”

 

247 – Em crítica aos xingamentos contra a presidente Dilma Rousseff na Arena Corinthians, na última quinta-feira 12, o colunista do Globo Ricardo Noblat cobrou a imprensa, a quem cabe, segundo ele, “explicar o que houve. E deplorar”, e os adversários de Dilma nas eleições, que “tiraram proveito político da situação”. Dilma merece respeito, defende Noblat, que avalia ainda que “nada garante que a agressão teria sido menos cruel ou ruidosa se a plateia (…) fosse menos vip ou ‘mais moreninha'”. Leia seu artigo:

Dilma merece respeito

Sem essa de que “Dilma foi xingada, mas…” Não existe mas, porém, isso significa que… Nem Dilma Rousseff, presidente da República, nem Dilma simplesmente uma mulher poderia ter sido ofendida como ela foi durante o jogo que abriu a Copa do Mundo.

Tratamento como aquele não deveria ser dispensado a quem quer que fosse. Nenhum precedente o justifica, nenhum. Nada o ameniza ou o torna menos bárbaro.

O “New York Times” enxergou no coro contra Dilma o “reflexo da ansiedade e da insatisfação” dos brasileiros com a desaceleração econômica do país, os gastos com estádios e recentes denúncias de corrupção na Petrobras.

“A raiva era evidente no estádio, dirigida tanto à FIFA como ao governo brasileiro”, escreveu o “Washington Post”. Cabe aos veículos de comunicação explicar o que houve. E deplorar.

Dilma reagiu ao episódio sem ferir a majestade do cargo que ocupa. “Superei agressões físicas quase insuportáveis e nada me tirou do rumo”, observou, fazendo menção à tortura que sofreu quando pegou em armas para enfrentar a ditadura de 64.

Quanto aos xingamentos… Ela disse: “O povo brasileiro não age assim. É civilizado e extremamente generoso e educado”.

Não é civilizado. Não foi. Muito menos generoso ou educado.

Compreensível o empenho de Dilma em separar o povo que lotava o estádio do resto do povo que não estava lá. Advoga a seu favor. Mas ao fim e ao cabo, o povo é um só.

Nada garante que a agressão teria sido menos cruel ou ruidosa se a plateia reunida para assistir a Seleção derrotar a Croácia fosse menos vip ou “mais moreninha”.

Qualquer assíduo frequentador de jogos é testemunha dos maus modos do distinto público. De jogos, não, de jogos de futebol. O que as torcidas gritam nas arenas espalhadas por aí não ecoa nos ginásios onde se disputam outros esportes coletivos.

A quantidade maior de gente reunida libera os instintos mais primitivos da multidão. Coitado de quem é alvo do mau humor da turba descontrolada. Coitada da Dilma.

Aliados da presidente ficaram lhe devendo manifestações de solidariedade mais numerosas e convincentes. De fato, somente Lula e Rui Falcão, presidente do PT, saíram em seu socorro.

Adversários na corrida pela presidência da República não estiveram à altura do posto que sonham alcançar. Pelo contrário. Aproveitaram a ocasião para tentar tirar proveito político. Que feio!

Aécio Neves, candidato do PSDB à vaga de Dilma, fez dois comentários – um na manhã do dia seguinte e outro à tarde ao perceber que o primeiro repercutira mal.

O primeiro: “Ela colhe o que plantou ao longo dos últimos anos”. O segundo: “A manifestação deve se dar no campo político sem ultrapassar os limites do respeito pessoal”.

Eduardo Campos, pré-candidato do PSB, repetiu Aécio sem se corrigir depois.

“A gente sabe que há na sociedade um mau humor, uma insatisfação que se revela nesses momentos”, argumentou Campos. “Talvez a forma possa não ter sido a melhor de expressar esse mau humor. Mas o fato é que vale o ditado: na vida a gente colhe o que planta”.

Espera-se que os comentários infelizes de Aécio e de Campos não antecipem o que estamos por ver na campanha eleitoral a se iniciar em agosto.

“Talvez a forma possa não ter sido a melhor…” Talvez? Campos ainda tem dúvida quanto ao baixo nível da forma encontrada pela multidão para expressar seu mau humor?

“Na vida a gente colhe o que plantou…” Quer dizer que Dilma fez por merecer ser insultada? E da maneira que foi?

 

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BARBOSA SOBRE INSULTOS A DILMA: “BAIXARIA, UM HORROR”

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Presidente do Supremo Tribunal Federal classificou de “baixaria” os xingamentos à presidente Dilma Rousseff no jogo de abertura da Copa do Mundo na Arena Corinthians, em São Paulo, na última quinta-feira 12; comentário de Joaquim Barbosa foi feito nesta segunda-feira, ao chegar para sua última sessão no Conselho Nacional de Justiça (CNJ); Dilma também já rebateu as ofensas, que partiram da área Vip do estádio, em discurso realizado um dia depois em Brasília: “Não serão xingamentos que vão me intimidar, atemorizar. Não me abaterei por isso, não me abato e nem me abaterei”

 

247 – O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, classificou nesta segunda-feira 16 como “baixaria” os insultos feitos à presidente Dilma Rousseff na Arena Corinthians, em São Paulo, antes do jogo de abertura da Copa do Mundo, na última quinta-feira 12.

“Baixaria. Foi um horror”, definiu o ministro, ao chegar hoje para sua última sessão no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Barbosa anunciou sua aposentadoria para até o final do mês de junho. No dia da estreia do Brasil contra a Croácia, o ministro estava na área Vip do estádio, de onde partiram os xingamentos.

A presidente Dilma também rebateu as ofensas em discurso feito em Brasília no dia seguinte. “Não serão xingamentos que vão me intimidar, atemorizar. Não me abaterei por isso, não me abato e nem me abaterei”, declarou. Barbosa disse ainda estar “adorando” o Mundial sediado no Brasil, mas contou ter assistido apenas ao jogo da Seleção Brasileira.

AP 470

Questionado sobre se levará ao plenário do STF os recursos dos condenados na Ação Penal 470, o ‘mensalão’, que querem autorização para trabalhar fora do presídio, ou, no caso do ex-deputado José Genoino, tenta voltar a cumprir prisão domiciliar, ele respondeu: “hoje vocês terão notícias sobre isso”.

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  Aécio Neves, senador pelo PSDB de Minas Gerais

Aécio Neves, senador pelo PSDB de Minas Gerais

OPINIÃO

Copa, oportunismo e Aécio Neves
por Aldo Fornazieri

A Copa do Mundo começou sem o apocalipse em estádios e aeroportos, anunciado por vastos setores da imprensa. Independentemente de quem for o campeão, a primeira rodada indica que o evento tende a se firmar como um sucesso mundial. As manifestações anticopa, direito democrático, ocorreram, mas sem a envergadura que se projetava. A política militar de São Paulo agiu de forma violenta, constatação feita pela imprensa internacional, pela Defensoria Pública e pela Anistia Internacional. A polêmica que ainda segue, e é salutar que siga, diz respeito aos gastos da Copa é às prioridades do país.

A outra polêmica instalada se refere aos xingamentos recebidos pela presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa. Antes de tudo, convém assinalar que vaiar e xingar os governantes e os políticos em geral é um direito vinculado à liberdade de expressão e, para o bem ou para o mal, constitui um elemento irredutível da democracia. Por serem servidores do povo, os governantes e os políticos devem estar sujeitos ao seu crivo, à sua crítica da opinião pública. Sem a garantia da liberdade de expressão a democracia não sobrevive. Hoje, esse direito, é protegido pelas cláusulas pétreas da Constituição. Mas o fato de as vaias e xingamentos dirigidos aos políticos serem direito irredutível, isto não implica que não possam ser atos criticados e contestados no debate público. Aliás, só o debate público, e não leis ou punições, pode dar conta desse problema que é inerente à natureza da democracia.

Ressalvado o direito à vaia e ao xingamento, o ato ocorrido na abertura da Copa deve ser submetido à crítica pública através do exame de seu conteúdo, da sua forma e da sua oportunidade. Partido da ala VIP do Estádio, o xingamento foi inconveniente e expressou, pelo seu conteúdo de baixo calão, uma manifestação clara de má educação e de falta de civilidade. Foi inconveniente porque maculou a imagem do Brasil perante o mundo num evento de natureza global. Neste sentido, os que proferiram os impropérios não foram tolerantes. Mesmo supondo que odeiem Dilma, a virtude da tolerância, que deve ser exercida nos momentos adequados, recomendava que naquele momento as hostilidades não fossem manifestas daquela forma por estar em jogo um bem maior, que é a imagem do Brasil perante o mundo.

O xingamento, por ter sido a expressão de uma grosseria, de uma má educação e de uma falta de civilidade, dirigido contra a chefe de Estado e contra uma mulher, revela a ausência da virtude do respeito. O respeito, segundo as melhores definições, se refere ao reconhecimento da dignidade própria e alheia e é a atitude que se inspira nesse reconhecimento. O filósofo antigo Demócrito proferiu uma formulação acerca do respeito da qual derivou a máxima “não faça aos outros o que não queres que façam a ti mesmo”. Para Platão, respeito e justiça eram componentes fundamentais à arte política, pois via neles princípios ordenadores das cidades (polis) e do convívio humano. Aristóteles e Kant identificaram o respeito como um sentimento moral referido sempre às pessoas. Em síntese, o respeito é o reconhecimento da dignidade das outras pessoas e de si mesmo que se tem o dever de salvaguardar. Foi essa ausência de reconhecimento da dignidade alheia que incorreram aqueles que xingaram a presidente Dilma.

O Duplo Oportunismo de Aécio Neves

Aécio Neves e Eduardo Campos procuraram, de imediato, tirar proveito político e eleitoral dos xingamentos proferidos contra Dilma. Imputaram a culpabilidade dos xingamentos à própria presidente, o que revela uma falta de ética. O homem público, principalmente alguém que alimenta a pretensão de ser presidente do Brasil, tem o dever político e moral de dar o bom exemplo. O bom exemplo dos governantes é fundamental para a constituição de uma adequada moralidade social. Tentar tirar proveito de atitudes desrespeitosas, antes de tudo, também revela uma falta de respeito. Percebendo que esta atitude poderia voltar-se contra ele mesmo, Aécio emitiu uma desaprovação envergonhada aos xingamentos na sua página no Facebook.

A conduta do candidato tucano revela um duplo oportunismo: nos dois casos, não foi ditada pelo dever moral, mas pela conveniência de extrair vantagem eleitoral de uma atitude, moral e politicamente condenável. O oportunismo político é avesso à moralidade política ou à chamada ética da responsabilidade de Weber. Ele desvincula a necessária adequação entre meios e fins para fazer pontificar a tese de que todos os meios são justificados pelo fim. O oposto do oportunismo pode ser definido como o dever moral da honestidade. Esta ensina que, mesmo na ação política, deve haver limites tantos nos meios, quanto nos fins. Somente assim se pode conciliar a ética das convicções com a ética da responsabilidade. Se não existissem limites morais na ação política não existiriam crimes políticos e nem mesmo crimes de guerra.

Ao conduzir-se dessa forma oportunista, Aécio Neves desmente na prática aquilo que vem prometendo em entrevistas: resgatar a dignidade da política, unir o Brasil e abandonar a política do ódio. Os xingamentos de baixo calão à Dilma são a pura expressão do ódio. Partindo de onde partiram, tudo indica que as suas motivações foram os méritos de Dilma e do PT e não as suas falhas, que são muitas e merecem ser debatidas e criticas. Sabe-se que a chamada “elite branca paulista”, no dizer de Cláudio Lembo, odeia o Bolsa Família, o Prouni, o salário mínimo e as demais políticas sociais que, de alguma forma ou de outra, contribuem para a redução da desigualdade no país.

Essa mesma “elite branca”, que condena a corrupção, mas a atribui apenas ao PT e se recusa em ver a corrupção do PSDB e de outros partidos, é bastante dada à prática da sonegação fiscal. Corrupção e sonegação se equivalem e provocam danos irreparáveis ao bem público e à moralidade social. Mas os danos causados pela sonegação são muito mais graves: estimativas indicam que a corrupção promove o desvio de R$ 85 bilhões anuais dos cofres públicos. Nos primeiros cinco meses de 2014, a sonegação já atingiu os R$ 200 bilhões. Dessa forma, espera-se que todos os candidatos se pronunciam também sobre a sonegação durante a campanha eleitoral.

Se os candidatos não tiverem a coragem de conduzir política e moralmente seus adeptos nenhuma dignidade da política será resgatada e a campanha corre o risco de descambar para o superficialismo e para a vulgaridade. O fato é que existe uma crise de representação e uma deslegitimação dos políticos. Os índices de rejeição de Aécio e de Eduardo Campos não são tão diferentes dos de Dilma. A dignidade da política será minimamente resgatada se tanto os candidatos quanto os eleitores se esforçarem no sentido de promover um debate qualificado e respeitoso acerca dos problemas, dos desafios e do futuro do Brasil.

Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.

2 Comentários

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  1. - IP 177.193.132.6 - Responder

    Esse Aécio Neves é um lixo.
    Por que ele não aparece nos Estádios também para ser vaiado?

  2. - IP 177.64.231.180 - Responder

    FORA PT .. PT NUNCA MAIS… O POVÃO NÃO QUER MAIS PT … FORA PETISTAS AUTORITÁRIOS…

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